Teresa Balté surpreende-nos com conto pleno de imaginação e humor. Um Chiquinho letrado dá lição a "cuspidor" profissional, a bordo de elevador (ou ascensor) da Carris.
É este o 40.º post e quase o mesmo número de contos publicados no blogue que esperamos continuar a desenvolver e que vai tendo os seus leitores (e autores) fiéis.
Ver AQUI outro da mesma autora, publicado no Contos da Tinta Permanente.
É este o 40.º post e quase o mesmo número de contos publicados no blogue que esperamos continuar a desenvolver e que vai tendo os seus leitores (e autores) fiéis.
Ver AQUI outro da mesma autora, publicado no Contos da Tinta Permanente.
OS BENEFÍCIOS DA LEITURA
– Olá, Chiquinho, boas-tardes – disse o homem, acendendo um cigarro e cuspindo o tabaco que se lhe colara ao lábio.
– Boas-tardes, sr. Alves.
– Então a tua mãe não vem hoje buscar-te?
– Hoje não, sr. Alves, não pôde vir. Teve de ir ajudar uma vizinha que adoeceu.
– Coitada. A Deolinda da loja?
O Chiquinho não deu troco.
– E tu, Chiquinho, és capaz de ir sozinho para casa? Sabes o caminho? Não te perdes? – perguntou o homem soprando uma nuvem de fumo.
– A minha mãe deu-me dinheiro para o elevador. Ponho-me em casa num instante. É muito fácil.
– Cuidado com os automóveis – disse o homem. E, desencostando-se da parede, acrescentou: – Olha, eu tenho de tratar de umas coisas lá em cima, no bairro. Aproveito e faço-te companhia.
Atravessaram a rua em silêncio e subiram para o elevador quase vazio. O homem atirou a beata pela janela, sentou-se e voltou à conversa:
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Ascensor da Glória (ou elevador...), Lisboa - Foto Wikipedia |
– Já conheço as letras gradas do jornal.
– O quê? Tão depressa? Não acredito…
– Já sei ler, sr. Alves – respondeu o Chiquinho.
O homem ou não ouviu ou não ficou convencido. Tossiu. Cuspiu para o chão. Suspirou… olhou para a direita e para a esquerda e, no fundo do carro, avistou um pequeno letreiro com uns dizeres.
– Então mostra lá o que sabes – pediu com voz rouca, e espetou o dedo gordo na direcção do aviso. – Vês aquele papel? Vai ler-me o que está além escrito.
O Chiquinho não pensou duas vezes. Levantou-se e foi. Abriu caminho pelo elevador, que entretanto se enchera, parou diante do letreiro e estudou as letras. Por fim, com ar solene e alto e bom som, soletrou: – “A-ten-ção-É-ab-so-lu-ta-men-te-pro-i-bi-do-cus-pir-so-bre-qual-quer-par-te-do-car-ro.-Mul-ta-cem-es-cu-dos.”
Todos se riram. O Chiquinho achou que o caso não era para graças. O elevador pôs-se lentamente em marcha. O sr. Alves engoliu e não deu troco.
Bela lição para um adulto sem regras.
ResponderEliminarUma forma simples de educação cívica, que bem poderia ser dirigido tanto aos miúdos com aos graúdos.
ResponderEliminarDelicioso, este conto elegante e singelo... para todas as idades
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