terça-feira, 15 de janeiro de 2019

[0038] Mais um conto de Pepita Tristão

Na banca dos jornais, Pepita Tristão Cardoso recolhe situações que, mais tarde, povoam os contos que nos oferta. São nacos de vida transcritos para a ficção. São evocações onde a humanidade pulsa, anima, sofre e nos tange com o seu suor.


BODA MOLHADA...

Camila estava sentada no chão, sentindo nas costas a aspereza do tronco rugoso da velha oliveira em que se recostara. O olhar perdido no azul infinito e luminoso, revelava que se perdera em pensamentos longínquos.
O casamento de Isabel deixava-a apreensiva. A primeira a dar o nó fora Conceição que juntamente com Isabel eram as suas melhores amigas.
A São já tinha duas filhas gémeas e parecia não querer ficar-se por aí. Isabel certamente, em breve iria querer também ser mãe, algo que não sucedia com ela.
O seu relógio biológico andaria mais devagar?
A verdade era que nem sequer sentia vontade de criar família. Pugnava muito pela sua independência, gostava da vida que tinha, da liberdade de poder estar ali, no meio do nada, sentada na terra seca do olival da avó, sem ter de dar explicações a ninguém da forma como e onde passava o seu tempo. Gostava de chegar a casa, instalar-se comodamente no sofá a ler um livro e a ouvir as suas músicas preferidas, sem ter ninguém para cuidar excepto a sua Pantufa, uma siamesa cor de mel.
A recordação da Pantufa arrancou-lhe um sorriso indolente, que se foi esvaecendo, à medida que o calor e a quietude a mergulhavam em agradável sonolência.
Sonhou que corria, alegremente, num interminável prado verde, pontilhado de papoulas, sob um sol radioso. Sentia-se incrivelmente leve e feliz, até que as papoulas começaram a crescer, aproximando-se dela, cercando-a, ameaçadoras. Queria fugir, mas não via nenhuma abertura naquele circulo sangrento que parecia querer suga-la. Transpirava, apavorada, quando, ao longe ouviu a voz da avó: - Camila, anda para casa. As tuas amigas já chegaram.


*

O casamento marcado para finais de Outubro preocupava todos, excepto os noivos, ansiosos pelo dia em que a sua união seria - finalmente – oficializada. O vestido de noiva há muito que havia sido idealizado e, fosse Verão ou Inverno, Isabel não trocaria o modelo. Quanto ao fato do noivo, nunca fora preocupação, pois André sempre dissera que o compraria nas vésperas da boda.
Já Conceição, a madrinha e mãe das pequenas gémeas indigitadas como “meninas das alianças”, mostrara-se bastante apreensiva:
- Não sei o que escolher. Tanto pode estar calor como frio, nessa altura. E se chove?
- Se chove? Tem de chover - responde Camila - Nunca ouviram dizer 'Boda molhada, boda abençoada?
Isabel ri:
- Isso é para masoquistas. Não esqueço o dia do casamento da São. Apanhamos uma molha que não deu para esquecer. O meu blazer nunca mais pode ser aproveitado!

*

As pétalas vermelhas da rosa atrevida que lhe ornava os cabelos, começaram a cair, espalhando-se, quais rubis, na areia branca do recinto.
O grupo de músicos abandonava já o palanque, dirigindo-se, também eles, para a mesa lateral onde fora colocado o gigantesco bolo de noiva, enquanto Conceição arrancava a rosa dos cabelos negros, provocando com o movimento brusco a debandada das restantes pétalas que esvoaçaram pelo chão
Talvez por mimetismo, ou por excesso de calor os botões de rosas que ornavam a cúpula da estrutura e durante o dia haviam desabrochado, mostrando as suas pétalas brancas ou vermelhas em toda a sua plenitude e, agora, deixavam-nas agora cair, vencidas pela sede.
Conceição que procurava com o olhar um recipiente onde deixar o pedúnculo da flor, sorriu, encantada, com o tapete, ainda viçoso, que matizava o recinto.
Devagar, encaminhou-se para a zona onde as pessoas aguardavam, de novo sentadas, o champanhe e o bolo que iriam ser servidos, enquanto o animador experimentava os seus mil e um truques para entreter os convivas expectantes e, novamente, despertos para a gula.
Já o serviço de catering retirava os pratinhos com os acepipes entretanto servidos, quando Isabel e André voltaram, trajando mais casualmente, preparados para partilhar o bolo e abandonar, de seguida o recinto, rumo ao aeroporto.
Foi no momento em que André cortava a primeira fatia que o ruído ecoou sobre as vozes dos convivas, e uma enorme bátega de água se abateu sobre a cúpula.
Perante a forte chuvada, depressa se fizeram pequenas poças que, escorrendo, penetraram a zona coberta e arrastaram as pétalas aveludadas, em direcção ao jardim, onde em breve seriam húmus, fecundando a terra que, sequiosa, se abria, à húmida dádiva dos céus.
Divertida, Camila olhou para Conceição exclamando: - Eu bem te disse: tinha de chover! Todos sabem que boda molhada é boda abençoada!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

[0037] Nuno Rebocho e mais uma das suas fábulas

À mistura com poesia (muita), crónicas que via desfiando (já dois livros publicados - “Estórias de Gente” e “Estravagários” – e mais dois anunciados – “Quebra-Canela, aventuras & desventuras de um portuga nas ilhas do Cabo Verde” e “Estrada da Beira”), romances e novelas, estudos diversos, o autor concentrou-se num conjunto de contos “para quantos continuaram a ser meninos” a que deu o nome de “fábulas cínicas”. Esta é uma delas.



O CÃO E O SAPO

Mal o sol rompeu, ergueu-se o cão. Aspirou profundamente o ar fresco, abanou a cauda, acocorou-se nas patas de trás e ladrou. Depois, corresposta ao apelo da brisa, vadeou a quinta em rompantes. Assustou a pardalada. Agitou o galinheiro. Despertou os coelhos. O lobo de alsácia era - ficava evidente - dono e senhor. O ladrar afugentava, o vulto amedrontava, o correr aterrorizava.

Diariamente, o sol nascia e tudo o que voava aprontava-se para bater a asa às arremetidas do bicho. Tudo o que tinha pernas aprestava-se a fugir às ofensivas do canino. O animal, apreciado o sabor amplo do poder, saltava, trotava, latia às nuvens. E resfolegava.

O lobo de alsácia impunha-se. Apenas a quem lhe dava a comida e o acorrentava, ele obedecia. Então agachava-se, lambia-lhe as mãos. Aos outros, aos desconhecidos ou no porte inferiores, era demo.

Ora, naquela madrugada, o cão - na praxe de rei no quintal - uma vez mais arremeteu. E correu. Outra vez saltou. E assustou. Triunfante do garbo e da presença, reladrou. Silêncio amachucado, arrepiado, se fez na herdade. Nem vivalma se revelava, acoitada onde pudesse.

De súbito, insólito de impossível, um coaxar irrompeu detrás de um montículo. O bicho estancou, incréu. Espetou orelhas a certificar-se do que ouvia. O coaxar repetiu-se. Entesou o rabo, farejou. Atento, pata adiante, pata atrás, ginasticado, avançou. A espreitar. Para lá do monte, um charco. E ali, descuidado, entretinha-se um sapo em brincadeiras na água estagnada. Indiferente a terrores, mirou o canzarrão. Este aproximou-se. Fez-se o batráquio mais pequeno, mas permaneceu atascado, quieto e tímido.

- Xó, não me ouviste? Atreves-te a ficar, a desafiar-me?, falou com voz de baixo. Mas o sapo, amedrontado, não achou resposta que não sumido coaxo: croac.

O cão recebeu-o no focinho, como ofensa. Se irritado estava, mais ficou. Abriu a bocarra de dentes pontiagudos para o tomar entre as maxilas. O desgraçado não soube o que fazer. No pânico, prestes a despedir-se da vida, coitado, urinou-se.

Foi um esguicho salino e breve o que se entornou pelos olhos do inimigo. Suportando com dor o acre da urina, o cão deu de cego. De rabo entre as pernas, ganindo, ganindo, o lobo de alsácia pôs-se em corrida, de encontrões às árvores.

Inesperadamente salvo, o sapo respirou fundo e comentou para os seus botões:
- Chiça. Olha se eu não tivesse medo...

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

[0036] Um conto de João Rafael Dionísio que com ele se estreia nos CTP

JOÃO RAFAEL DIONÍSIO, ?, Portugal, 1971
Da caixa de surpresas contida no seu modo contestatário, João Rafael Dionísio saca os inesperados narrados pela sua ficção. E acontecem pequenos nacos como o aqui apresentado.


LABRIS (LABIRINTO)

o labris era um machado duplo da civilização minóica. quis o acaso ou algo de determinado que esse machado desse o nome ao labirinto em Knossos. nunca foi um labirinto, mas não interessa. foi um palácio que com tantas salas parecia um labirinto. 
eu estive lá.
eu tinha-me especializado em Sociologia da Educação. Interessava-me pelas classes sociais, a distribuição do talento consoante o rendimento, e distinção e o desempenho. os meus estudos iam na linha de valorizar o ambiente familiar em detrimento de um determinismo genético. o adquirido é muito mais forte que o inato.
- vejam-se os chamados grandes génios, eles são produto de sociedades abastadas, aparecem os patronos a distribuir dinheiro e o talento aparece logo, floresceu em Florença, foi assim em Nova Iorque no pós-guerra. 
fui com a Mafalda de férias a Creta. fomos ver Knossos, claro está. chegámos ao pé de uns cornos de betão feitos pelo arqueólogo que reinventou o sítio. Evans. 
- o gajo que fez isto tinha uns grandas cornos!!
ela não se riu. andámos pelas ruínas. o calor parece que vinha de todos os lados. sentámo-nos a olhar para uns pinheiros mansos de grandes copas e de grandes troncos. lembro-me de pensar que aqueles portentos já deviam ter triturado muita peça arqueológica.
ia começar a falar sobre as minhas opiniões sobre o ambiente e a força dos laços reais mais do que os laços de sangue quando a Mafalda diz de chofre:
- estou grávida. 
emocionei-me e coloquei uma mão na barriga dela. pensei que estava mais dura, mas isso devia ser psicológico. 
- mas...
- mas o quê, querida?
- não és o pai. 
senti que o calor me ia fazer desmaiar. vacilei. mas disse de acordo com os meus princípios: 
- assumo a paternidade. isso da genética não me interessa. o que interessa é que estamos juntos e que podemos dar uma educação equilibrada e racional à criança. 
- aceitas a criança como se fosse tua? não ficas com ciúmes ou lhe vais fazer mal?
- claro que não, querida!
depois tirei a mão da barriga dela.

[0035] Olinda Beja apresenta livro infanto-juvenil

Na sede da UCCLA, União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (Avenida da Índia, 110, Lisboa), no próximo dia 26 de Janeiro, às 15H30, a escritora e poetisa Olinda Beja apresenta o seu novo livro João Balalão, com fotos de José António Chambel, com chancela da Editorial Novembro (geral@novembro.pt). A escritora santomense, com esta produção infanto-juvenil, expressa uma das suas vocações, a de pedagoga. A apresentação do livro é acompanhada pelo músico e intérprete santomense Filipe Santo.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

[0034] Pedro Silva, num conto à beira da morte

No seu isolamento nortenho, Pedro Silva recorda-nos as dúvidas que a todos assaltam quando algo ameaça romper o fio da vida: um conto para pensar…

AQUI ESTOU EU 

Se me perguntassem, há meia dúzia de meses, se estaria nesta situação, ter-me-ia rido a bom rir e jogado na face de outrem que era uma piada de muito mau gosto.

É incrível como era tão jovem há pouco tempo atrás. Tinha vida, força, sentia-me o maior. O maior, acreditam? Invencível… imbatível… imortal!

Que vontade de sorrir, no meio das lágrimas. Imortal. Quão néscio era…Ninguém é imortal. Até há quem diga que Deus está a morrer.

Deus… Deus… Onde estás? Porque fugiste de mim? Voltei a pensar em Deus, após tantos anos pensando que ninguém precisa de Deus. Que me sentia ateu. Uma invenção de meia dúzia de fanáticos, pensava na altura.

Deus não existe, gritava pujante em reuniões de café, junto ao cheiro do tabaco misturado com a cafeína, bem apaladado. E gritava bem alto, para todo o mundo ouvir: Deus é uma invenção!

E agora… meu Deus… que falta sinto de Ti! Porque me abandonaste? Por aquilo que eu dizia? Não é vontade de Deus perdoar? Não é um mandamento divino? Porque não fui perdoado?

Aqui estou eu. Sentado. A olhar para o Céu. Lá em baixo os carros passam, as pessoas deambulam, quiçá de forma errante. Parecem formigas. (Nunca entendi porque se fala em formigas ao referir pequenos seres. E as moscas? Os mosquitos? Seres repugnantes? Talvez. Mas o ser humano não é igualmente repugnante?). Parecem formigas, insectos vulgares, desconhecendo que, tal como eu, não são imortais. E que, tal como eu, podem dizer o que quiserem, mas vão perceber que Deus existe. É real e não perdoa, ao contrário dos mandamentos sagrados.

Porque tanto bulício? Para onde as pessoas? O que querem? O que fazem? Porque não param? Porque não param? Grito: porque não param? Ninguém me ouve. Estou demasiado longe, demasiado longe de tudo e de todos.

Esperem: estarei vivo? Interrogo-me. Faço o tradicional truque de beliscar uma parte do corpo. Dói-me. Não é sonho, nem sono da morte, estou vivo.

Mas estarei mesmo vivo? Isto é viver?

Aqui estou eu. Vislumbro, em poucos instantes, toda a minha vida, todo o meu passado. Afinal de contas, o que fiz? Nasci, cresci, estudei quase duas dezenas de anos. Tirei um curso superior. (Parabéns, disseram-me todos os familiares mais próximo. És um Senhor Doutor.) Namorei com três pessoas diferentes. Não gostei de nenhuma. Gostei de uma outra pessoa, mas essa nunca quis gostar de mim. Sim, nunca quis, foi falta de vontade mesmo. Pois podia muito bem ter sentido amor por mim. Se eu sentia por essa pessoa, porque não era retribuído? 

Na verdade, o fruto proibido é mesmo o mais apetecido. Sempre gostei de quem de mim não gostava. Sempre quis ter aquilo que não podia. Sempre quis fazer coisas para as quais não estava habilitado. E agora também percebo que não sou imortal, o que acreditava piamente há tão pouco tempo.

Aqui estou eu. Nunca estava engripado. Fui ao médico meia dúzia de vezes ao longo da vida. Raramente era vacinado. Para quê? Era forte que nem um touro. Rijo, atlético e saudável. Imortal, talvez… 

Naquele dia apeteceu-me fazer uma análise sanguínea. Curiosidade. Podia ter diabetes, colesterol, algo do género. Não me importava, são doenças comuns, que, bem cuidadas, não fazem muito mal, pensava eu na minha ingenuidade. Até achava engraçado poder dizer aos amigos: sabiam que tenho o colesterol em alta? Logo ali arranjaríamos tema de conversa e oportunidade de brincar um pouco com a vida. Para nós, que somos imortais, brincar com a doença é normal e aceitável. É apenas um mero acidente de percurso numa viagem interminável e imperturbável.

Pois… mas naquele dia os ventos não me correram de feição. AIDS? Perguntei eu ao sujeito de bata branca na minha frente. Como? Não tenho sintomas, sinto-me pronto a correr três vezes a maratona e ainda jogar uma partida de futebol com os amigos.AIDS? Está a brincar comigo, não?

Não… respondeu ele secamente.

Nesse dia deixei de ter vontade de brincar. Percebi que não era imortal. Percebi que Deus existia – caso contrário, eu teria a oportunidade de decidir o meu próprio destino. Também percebi que a minha vida, ao contrário do que eu sempre pensara, não estava nas minhas mãos.

Uma vez só… Uma única! Sem preservativo. Quais as probabilidades disso acontecer? Uma em um bilião? Pois, acontece.

Aqui estou eu.

Lá em baixo o mundo prossegue o seu ritmo perfeitamente natural. Ninguém parou para olhar para mim. Ninguém está preocupado se tenho mais um minuto, um ano ou uma década de vida. Sou perfeitamente insignificante. Não existo para ninguém.

Por isso, mesmo estando aqui, a trinta e tal andares do solo, no topo de um vulgar prédio, de uma vulgar rua, de uma qualquer cidade, sou apenas eu e Deus, que me olha, que me condena, que me faz pensar em tudo o que não fiz e devia ter feito.

Não merecia isto… Ainda sou jovem. Trinta anos. Três décadas apenas. Ainda nem comecei a viver realmente. E agora, quanto tempo me restará? Um dia, um mês, um ano? O médico não quis avançar com datas. Apenas falou que, com a medicação certa, cumprida de forma rigorosa, posso estar muito bem durante muito tempo e que posso levar uma vida quase normal. Ah, e frisou, que o pior não é o vírus que tanto se teme, mas as complicações por ele permitidas, como a entrada de outros vírus num sistema enfraquecido. Tretas! Morremos de AIDS e nada mais. Simplesmente morre-se.

E eu queria ser imortal. Juro que queria…e muito.

Passo os dias a pensar, desde aquela fatídica consulta médica, que eu não irei morrer de AIDS: juro que não vou. Não contei isto a ninguém, apenas em conversas com Deus. E Ele ri-se na minha cara. Diz que ninguém é imortal e que essa doença não tem fuga possível. Será? Retribuo. 

Aqui estou eu. Finalmente todos vão perceber que sou imortal. E não o serei se essa for a minha vontade. Vou contrariar o destino. E vou mostrar a Deus que quem manda em mim sou eu.

Os meses passaram e nunca tive coragem de Lhe mostrar que sou imortal. Por isso estou aqui, sentado a muitos metros do solo, a olhar lá para baixo.

Li certo dia que um suicídio era uma atitude cobarde. Na altura, eu defendia a mesma teoria. É mais fácil matar-se do que enfrentar os problemas.

Agora, aqui, a olhar lá para baixo, percebo que a teoria estava totalmente errada. Acreditem que custa muito mais suicidarmo-nos. Mais fácil é deixar as coisas acontecer, sem participar activamente em nada, ser um peão do destino. Portanto, chegou a altura de mostrar quem manda em mim: eu!

Levanto-me. Olho para cima e digo: vês Deus, vês que sou eu que mando em mim. E sou imortal. Imortal, ouviste?

Olho para baixo. O momento chegou. O mundo não parou de girar. As pessoas prosseguem as suas tristes vidas a um ritmo normal, de sempre, como se não soubessem que eu sou imortal. Vou ser o primeiro a vencer a AIDS.

Estou de pé. Sinto o vento bater forte na minha face. Deus parece querer empurrar-me para trás. Não, nem pensar. Eu sou imortal. Dei um passo em frente.

Aqui estava eu.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

[0033] Para início deste ano de 2019, um belo conto de António Rosa, em estreia absoluta

ANTÓNIO ROSA, Vila Viçosa, Portugal, 1951
Engenheiro e professor apaixonado pelo Alentejo natal, onde desfruta da sua reforma, dedica algum tempo à macro-fotografia, coleccionando fotos de insectos, e também à escultura em madeira. 

Não tem quaisquer obras literárias publicadas e apenas colabora esporadicamente na revista de cultura Callipole (do Município de Vila Viçosa), a cujo conselho de redacção pertence.

Este é um dos seus "contos de gaveta." Outros sairão nos Contos da Tinta Permanente, logo que oportuno.


MÃOS DE ARANHA

João era o seu nome. Pastor a sua profissão, apesar de não ter ainda idade para ser profissional de nada. Ficar na escola, como qualquer rapaz com a sua idade, não beneficiava a família, segundo o pai. Assim, embora poucos, sempre seriam mais alguns escudos que entravam para o parco orçamento familiar, que a época já era de crise, e muita.

João, pelo seu temperamento aquiescente e também pela pouca afeição que tinha à escola, que lhe cerceava a liberdade, pouco se importou com a decisão.

Enquanto as ovelhas pastavam corria atrás dos lagartos, desentaliscava grilos melhor que qualquer um e na pontaria com a fisga ninguém lhe levava a palma. Tocava a flauta, que ele próprio talhara a canivete numa cana e fruía calmamente a natureza até às entranhas, regressando ao casebre já pela noite, acompanhado da Pombinha e do Piloto, os seus melhores amigos.

Um dia, na contagem dos borregos novos faltaram dois. João, embora nada dissesse, já há tempos andava preocupado com a chegada desse dia, pois sabia que a raposa tinha levado um, mas a falta do outro foi surpresa para ele.

A reprimenda do patrão e o desconto na jorna, já de si pequena, foi motivo para uma sova em casa, além das injúrias e imprecações de toda a ordem com que o pai o mimou no seu desleixo.

A sós com a mãe, esta, com a sua natural benevolência e carinho, aconselhou-o a, na próxima época de criação, ir oferecer um borrego ao São João do Monte, aquele santinho que está naquela ermida lá do alto, que ele tão bem conhece e que até sabe onde a chave da porta está escondida. Levaria umas rezas para lhe pedir protecção e sorte no seu trabalho e oferecer-lhe-ia um borrego, por cujo desaparecimento a raposa viria a ser, desta vez, injustamente responsabilizada.

Melhor pensado, melhor feito. Na ocasião própria, já com muitas crias a balir junto das mães, João levou o rebanho pela serra acima e, a meia encosta, deixou-o aos cuidados dos dentes da Pombinha e do Piloto. Agarrou o borrego escolhido e partiu, pelo meio das estevas, para a missão de oferenda ao seu santo homónimo e protector.

Já no interior da ermida, à época ainda não vandalizada, ajoelhou aos pés da pequena imagem rústica de madeira, de aspecto ingénuo, rezou as orações que lhe ensinara a mãe e começou a dialogar com o santo. «– Olha o que te trouxe. Um belo borrego para ti. Só tens que me proteger e ficas com ele. Gostas?» O santo não respondeu. «– Então não gostas?» E nada. Nem resposta. O diálogo era um monólogo.«– És mal agradecido mas mesmo assim aqui o deixo.»

João persignou-se mais uma vez e saiu. O borrego, vendo-se sozinho, começou a seguir o dono. João voltou e disse ao santo: «– Não o queres? Mas hás-de ficar com ele que foi para isso que eu cá vim.» Então atou - com um cordel que trazia no bolso - o borrego à imagem do santo, voltando a sair.

Novamente o borrego o seguiu, puxando cordel e santo, em corrida pela serra abaixo. Diz o João: «– Ai não te aguentas com ele? Agarra-te a uma esteva, mãos de aranha!»

sábado, 29 de dezembro de 2018

[0032] Em final de ano (e em sábado, ao contrário do que é comum), Joaquim Saial apresenta-nos uma sereia assaz perigosa...

Aos amigos e leitores desconhecidos que aqui têm vindo (a caminho dos 5000), com um forte abraço e votos de um 2019 cheio de saúde, contos, novelas, romances, poemas (enfim, livros, em geral), pinturas, esculturas, obras de arte pública, palestras, conferências e colóquios por todo o lado.

Ver mais dois contos de Joaquim Saial, AQUI AQUI 

A SEREIA

A mulher ia sempre ao banho pelo lusco-fusco, quando a maioria dos veraneantes já tinha partido para casa, à procura do jantar. Lindíssima e elegante, era o encanto da pouca gente que frequentava a recôndita praia. O fato de banho, colado à pele e da cor desta, parecia fundir-se com o seu corpo. Há muitos anos que por ali parava, entre Julho e Setembro. Mas ninguém sabia de onde era natural nem era vista nos restaurantes da vila. E as empregadas do único hotel da terra diziam que ela jamais nele se hospedara. Por outro lado, não falava com ninguém, nem quando lhe dirigiam a palavra.

O homem, que só nesse ano a conhecera e secretamente se apaixonara por ela, percebera no entanto que aquele ser maravilhoso transportava consigo algo de estranho. E começou a ficar até mais tarde na praia, para a observar. Mas quanto até mais tarde ali ficava, mais a mulher demorava a vir da água.

Uma vez, perto do final do Verão, enquanto ela ainda se encontrava a nadar, já tarde, fingiu retirar-se e escondeu-se atrás de uma duna. Foi então que percebeu, quando a viu voltar, que a mulher tinha dificuldade em se deslocar, as pernas muito juntas, movendo-se devagar até à areia, onde se deitou, alheada do mundo.

No dia seguinte, o homem retornou ao seu posto de vigia. Mas então, não havia meio de a mulher regressar do mar. Alta noite, ele, que tinha levado uns binóculos, apenas conseguiu adivinhar por entre as ondas prateadas pelo brilho da Lua um rabo de peixe a ondular e a afastar-se de terra. Sem acreditar no que os olhos lhe indicavam, entrou na imensidade líquida e, braçada após braçada, procurou aproximar-se da visão que tivera.

Nesse ano, ninguém mais avistou a mulher. Contudo, no seguinte, lá estava ela de novo, na praia do costume, bela como sempre. O homem, esse não voltou a aparecer por aquelas bandas… 

[0031] Nuno Rebocho, contador de histórias. Desta feita com focas, para os amigos e leitores em geral, como prenda de final de ano

Nuno Rebocho caracteriza-se com contador de histórias ao ponto de, por isso mesmo, surgir como personagem em romances de Vasco Resende (“Antónia, nome de guerra”). Os animais que, em muitos aspectos, personalizam os humanos, são matéria que ajudam a criticar comportamentos.

Ver mais três contos de Nuno Rebocho, AQUI, AQUI e AQUI

AS FOCAS MILITANTES

Estavam as felizes em sossego, dispostas no areal. O caçador veio. Laçou-as. Foca a foca, cada delas foi capturada, metida em gaiolas com destino ao circo. E sempre acontece em tais desgraças: os anfíbios torceram-se, contorceram-se, guincharam, viraram-se de borco, gritaram, espadanaram na areia. Era a resistência inútil dos já vencidos, apostados em que o vizinho tope que sucumbiram com honra.

Das costas de África as trouxeram para cá. De humilhadas, cruzaram o oceano no bojo de cargueiro. Sofreram dos balanços, enjoaram do percurso.

Em Lisboa despejadas: tiradas dos porões, içadas por guindaste, depositadas no cais onde comprador atento as enxergou à cata de defeito que justificasse desconto na encomenda. E atiradas para um camião, lá foram à descoberta de mundo novo, vida nova.

Assim passaram ao cenário como vedetas. Na tenda, foram libertadas - como quem diz: dilatou-se o espaço do calaboiço. O tratador recebeu-as de bastão em punho, a prepará-las para a educação das boas maneiras. As focas lá tiraram curso. À bastonada e com nacos de peixe.

Vinha todos os dias o tratador à tenda. Ali aprenderam as focas a soerguer-se sobre a cauda, a agitar os bigodes, a equilibrar bolas na ponta do focinho, a jogá-las em números de habilidade. E com algum custo, muita dificuldade, muita zanga do tratador se fez o amoldamento ideológico dos focídeos.

Durou meses o exercício. Semanas intensas de trabalho. No receio da dor, as focas aprenderam os gestos, os jeitos, as partes, os movimentos de conjunto. De cor e salteado. Não foi de um dia para o outro, não senhor. Mas aos poucos. Lentamente.

Por fim, o espetáculo. As focas figuravam nos cartazes - eram atração. Fizeram-se coqueluche. Foram aplaudidas. Os bichos descobriram o segredo da sobrevivência: empinadas, abriam as bocarras ao peixe que o tratador lhes atirava. E batiam palmas. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

[0030] José Antunes Ribeiro festeja o Natal

JOSÉ ANTUNES RIBEIRO, Portugal
CTP não conseguiu obter em tempo oportuno o local e a data de nascimento do autor
Do escritor e livreiro José Antunes Ribeiro, “Contos da Tinta Permanente” recebeu (ainda a tempo) uma saborosa prenda natalícia para os seus leitores. Com agradecimentos, Boas Festas!


NAQUELE ANO, O MENINO JESUS NÃO DESCEU PELA CHAMINÉ

É do Natal da infância na aldeia que me lembro hoje. A lareira da casa dos pais onde a família se aquecia naqueles invernos muito frios. No tempo da inocência cheguei a acreditar que o Menino Jesus descia pela chaminé para deixar as prendas a todos os meninos. E, uma vez ou outra naqueles anos de grandes dificuldades, o Menino Jesus deixou-me as suas prendas. Coisas úteis: umas meias, uma camisola quente, uns sapatos para evitar o frio gelado do chão da estrada para a escola inundado de pedras, seixos, coisas assim...

Mas houve um ano em que o Menino Jesus se esqueceu da nossa casa. Ter-se-á enganado no caminho? A criança que eu era quando acordou pela manhã e foi a correr para a lareira para buscar as suas prendas deu-se conta que naquele ano o Menino Jesus se tinha esquecido da nossa casa. Disse à mãe da minha tristeza. E ela para me animar respondeu-me: "o Menino Jesus não conseguiu descer pela nossa chaminé porque vinha com tantos sacos de prendas que não conseguiu entrar...".

Naquele ano comecei a questionar-me sobre este e outros assuntos divinos. Mas, com Fé ou sem ela, o Natal é o tempo das crianças e da família. À volta da lareira ou à volta da mesa com o ritual do bacalhau com as couves e as batatas regado por bom azeite, das filhós ou filhoses como se dizia na minha terra, das prendas para as crianças, da missa do galo, das fogueiras, do presépio com o Menino Jesus, Maria e José, a vaca e o burro, as ovelhinhas, o musgo verde. Fantástico sempre o presépio das crianças! É por elas que o Natal continuará tão vivo como na casa da infância mesmo que as vozes familiares já não se façam ouvir ao longe.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

[0029] Tchalé Figueira, mais um conto

TCHALÉ FIGUEIRA, Mindelo, São Vicente de Cabo Verde, 1953
De Cabo Verde, Tchalé Figueira envia-nos mais um conto tecido nas horas em que se liberta do seu cavalete e da sua pintura 


OS MORTOS NÃO CHORAM

Já não tinha alfinetes para cravar na mente, foi à drogaria mais perto da sua casa e sem prescrição comprou duas garrafas de Bourbon falso feito de restos de pilhas de uma lixeira do bairro chineses. Tudo nele era descrédito e desolação, podia até beber urânio empobrecido, longe de alcançar aquilo que desejava. Tinha falhado em cinco matrimónios, tinha gasto milhares de dólares com psiquiatras e bruxos... bebeu incontáveis mixórdias e até esteve em Santo Antão, em Cabo Verde, umas ilhotas no meio do Atlântico, a 500 Km do continente africano, onde um famoso bruxo curava com pénis de tartaruga e grogue de arruda benzido pelo cardeal católico, a impotência.

Foto NG
Tentou tudo, mas nada funcionou. Desolado, regressou a Baltimore onde morava na sua enorme mansão. Com o tempo, sem solução para a sua miserável vida, vendeu tudo e foi para Calcutá e dali viajou atravessando a Índia. Miserável e feito um pária igual aos intocáveis, depois de longos anos chegou exausto a Benare onde viu piras com cadáveres queimando. Arrastando os pés, chegou às escadas banhadas pelo Ganges e num degrau da escada deitou-se… 

Com todo o peso do mundo em seu corpo, dormiu, pensando que estava sonhando viu o seu corpo numa pira ardendo. Não era sonho não! Aliviado soube que tinha morrido. Quis chorar, mas os mortos não choram.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

[0028] Pedro Silva e os micro contos (haicais)

PEDRO SILVA, Tomar, Portugal, 1977
Historiador com vários trabalhos publicados, Pedro Silva é também contista, o que completa a sua predisposição para a cooperação: benemérito, ofereceu a Ribeira Grande de Santiago (ilha de Santiago, Cabo Verde) uma biblioteca que recebeu o seu nome. A Biblioteca Municipal Dr. Pedro Silva encontra-se na localidade de S. Martinho Grande.





 BRASIL

Brasil... Terra de paixão, minha descendência lusitana. Vou à ponta mais ocidental da Europa, estico-me, esforço-me e não te vejo. Meu querido Brasil, estás aí ao longe? Sei que estás. Olha para mim, ouve-me, sente o meu apelo. Aceno-te desde Portugal. Não te esqueças nunca: mesmo longe, sempre aqui estarei para ti.

SERIA EU? 

Um dia, pensei encontrar-me. Olhei no espelho. Seria eu? Seria mesmo eu? Olhei para baixo, mirando as mãos e os pés. Parecia eu, mas não tinha certeza. As fotos que poisavam nos móveis da minha casa eram similares à imagem obtida no espelho. Tinha na altura cinco anos. Hoje, meio século depois, continuo sem saber: seria mesmo eu?

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

[0026] Francisco Pinto Balsemão e José Maria Neves escrevem livro em conjunto

Na Livraria Arnaldo França, na Achada de Santo António da cidade da Praia (Cabo Verde), a Rosa de Porcelana Edições e a referida livraria fazem no próximo dia 20, 18h00, o pré-lançamento do livro assinado por dois ex-Primeiros-Ministros. Francisco Pinto Balsemão e José Maria Neves, “Um Futuro a Construir”.

[0025] Sibila Aguiar oferece-nos a história de Malokenko, o menino que queria ver o mar

SIBILA AGUIAR, Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique, década de 40 do século XX

Moçambicana de nascimento, Sibila Aguiar é pseudónimo de Maria Helena Duarte. Escritora com livros publicados e pintora, a residir em Portugal desde os anos 50, nunca esqueceu as suas origens. Desde os tempos dos antigos “Juvenis”, fizeram-se uma presença sempre constante 




MALOKENKO

Desde o romper do Sol, muito, muito cedinho ainda, os garotos de todas as cores, filhos dos guardas-fiscais, mainatos e serventes, juntavam-se em grande alarido nos assaltos aos cajueiros, às mangueiras e nas correrias tipo polícia e ladrão…
Uns, bem vestidos, outros esfarrapados deixando à vista os ventres cabeçudos de umbigos salientes…
Estavam ligados por um sentimento belo que ao longe os meninos da cidade não conheciam: a fraternidade.
Porém, quem observasse o grupo chilreante, notaria com certeza o olhar distante de Malokenko… 
Malokenko não entrava na brincadeira…
Era um menino estranho que se sentava à porta da palhota e fazia desenhos na areia… Sabia muito, e contava histórias de feitiços e bruxas que se penteavam no rio nas noites sem Lua…
Malokenko era preto mas tinha alma branca… Malokenko o menino preto diferente nunca tinha visto o mar…
E quando dormia, sonhava que o mar era um rio muito grande onde o Sol se via ao espelho e que a Lua amava…
E os meninos cresceram…
Os filhos dos guardas-fiscais foram à escola… E os filhos dos mainatos e dos serventes como Malokenko, precisaram de ganhar a vida…
Apanhavam espargo para vender na cidade… Muitas vezes ninguém comprava…- E os meninos não tinham veias porque a pele era preta…
Não tinham mãe… e pediam pão porque a fome era como a cor que lhes cobria a carne… E paravam nas montras das pastelarias, lambendo os beiços, como se os olhos engolissem aquilo que o ventre pedia…
Só Malokenko não trabalhava… Chamavam Malokenko preguiçoso…
Mas ele não ouvia… Ao longe o mar bramia na cabeça do menino estranho e a espuma desfazia-se na carapinha preta do menino preto…
Um dia, os garotos de espargo falaram-lhe do mar e levaram Malokenko a vê-lo… Então… viram-no correr, correr de braços abertos e olhos brilhantes como se quisesse abraçá-lo… Malokenko correu muito, ficou cansado… Contou ao mar sua saudade, seu cansaço…E deitou-se nas águas que o beijavam quentes…
Anoiteceu …
E no dia seguinte entre as espumas brancas que o mar fazia de encontro à areia, o menino preto jazia sorrindo porque o mar tinha finalmente ouvido o seu chamamento.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

[0024] Manuel Ruy galardoado com o Prémio Agostinho Neto

O romance de Manuel Rui Monteiro (conhecido por Manuel Ruy) “Quem me dera ser onda”, uma história aparentemente simples, quase infantil, mas que aborda temas sérios presentes na sociedade angolana após a independência, foi galardoado com o Prémio Agostinho Neto. Escrito em 1982, é aparentemente uma história infantil, com destaque para as personagens principais (duas crianças e um animal - um porco). 

A figura fundamental que perpassa o texto, uma mescla política e uma crítica à sociedade de Luanda da época, que esqueceu e apagou todos os valores antigos. A alienação cultural, social e política é dada através da figura do pai das crianças que não entende certas preocupações humanas e se revela completamente desintegrado do espaço social representado pelo prédio e mesmo pela cidade em que vive. 

[0023] Olinda Beja lança livro "Simão balalão" na sede da UCCLA, Lisboa

Uma história infantil, de sonhos e de procuras, de um menino que vive numa ilha o “Simão Balalão”, da autoria da escritora Olinda Beja, será lançado na UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), no dia 26 de Janeiro, às 15h30.


[0022] Contadores de histórias da ilha de Moçambique

Decorrem na ilha de Moçambique sessões que promovem o encontro entre crianças e livros e o prazer pela fruição do livro e da leitura. As exemplares rodas de leitura e ateliers semanais criam e fortalecem os hábitos de leitura nas crianças, desde a primeira infância.
Estas atividades educativas, sociais e culturais - desenvolvidas pelos técnicos das bibliotecas públicas do Distrito da Ilha de Moçambique traduzem uma união de esforços para a melhoria das competências básicas de leitura e escrita, de promoção do livro, compreensão e expressão oral com crianças e jovens, implicando a aplicação de estratégias pedagógicas e educativas trabalhadas em formação e a implementação do Projecto Educativo Local entre técnicos de bibliotecas públicas para o desenvolvimento da autonomia, da reflexão e pesquisa em autoformação cooperada. 
Estas ações decorrem no âmbito Cluster da Cooperação Portuguesa da Ilha de Moçambique 2.ª fase - Componente 1 - Eixo da Educação. Têm como entidades executoras a UCCLA em parceira com o Conselho Municipal da cidade da Ilha de Moçambique, Conselho Municipal de Maputo, Câmara Municipal de Lisboa e apoio da SDEJT (Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano) com o financiamento do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

[0021] Tchalé Figueira, um viajante de mundos e um conto vindo de Cabo Verde

TCHALÉ FIGUEIRA, Mindelo, São Vicente de Cabo Verde, 1953
Na sua juventude, Tchalé correu mundos e teve mil ofícios. A bordo de um navio, conheceu povos diversos e colheu diferentes experiências. O presente conto é delas herdeiro.


NO DESERTO DE SANOKY

No deserto de Sanoky, entre o céu e um sol vindo das forjas do inferno, um forte cilíndrico e as suas guaritas direcionadas  para os quatro pontos cardeais.  Quatro bandeiras esfarrapadas bailam em mastros corrompidos pela intempérie, redemoinhos bailam num canto de ensandecer, vozes do vento numa constante vem de nenhures. Tudo é sonho ou fantasmas de sonhos na desoladora paisagem. Quatro guerreiros nervosos, esperam a vinda dos Atalampos, que, segundo uma lenda, vivem nas estepes onde existem rios, agro verde e animais de caça. Terra de valorosos guerreiros, temíveis,  de grandes espadas, sempre trajados com peles de animais e chifres de veados ornando as suas cabeças.

Um cão selvagem cor de areia corre atrás da sua sombra, no zénite deste dia o horizonte tremeluza e, os quatro guerreiros, apreensivos, aguardam um mito... (ou será verdade?) A terra vermelha num suplício voa em todas as direções, o tempo pára, os quatro homens nervosos nas guaritas escutam o rumor do vento e o bater dos seus corações. Faz hoje trinta dias e trinta noites que aguardam, esperam ser rendidos por soldados do seu exército que virão  dos confins da cidade das areias mágicas, Kalugame, onde mora o seu povo, os Fulangene, inimigos mortais dos Atalampos. 

No limiar da loucura, os vigias esperam... Rendição ou o inimigo? Qual deles chegará primeiro?

Como se de um milagre tratasse,  o azul do imenso deserto de repente abre-se, o vento pára, a poeira assenta, na guarita direcionada para o oriente um dos soldados avista no horizonte tremeluzindo, espectros de pessoas em montadas aproximando-se, que vão crescendo gradualmente. Serão Atalampos? Serão Fulangene? 

Agarrando na corda de um velho sino, no teto do cubículo, o homem da guarita do oriente, nervoso, começa a badalar o sino, alerta seus companheiros pasmados, que subitamente, acordam do seu torpor.

Aproximando-se cada vez mais do forte, o soldado nota que os cavaleiros montados em robustos cavalos têm ornamentos nas cabeças, chifres de veados, um gosto amargo. A morte começa a descer lentamente pela sua traqueia.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

[0020] Prémio Literário UCCLA - Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa

2047 concorrentes candidataram-se, em três anos, ao Prémio Literário UCCLA – Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa, que visa ao estímulo, enriquecimento e promoção da língua portuguesa. 
O prémio aposta na valorização de novos escritores, que nunca editaram qualquer obra, e tem contribuído para o sucesso do Prémio Literário UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa).
 O Prémio Literário UCCLA - Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa  é uma iniciativa conjunta da UCCLA, Editora A Bela e o Monstro e Movimento 2014, que conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.
Em 2016, candidatam-se 2016 concorrentes (dos 16 aos 90 anos), em 2017 foram 520 e em 2018 registou-se um parcial de 805 concorrentes. Não só escritores de nacionalidades lusófonas responderem “presente” a este concurso, mas também de outras nacionalidades, como da Alemanha, dos Estados Unidos da América, Argentina, Canadá, Espanha, Holanda, Inglaterra, Itália, Paraguai e Suíça. 
Nestes três anos (de 2016 a 2018), o Prémio foi já atribuído ao português João Nuno Azambuja (2016), ao brasileiro Thiago Braga (2017) e ao paraguaio Óscar Moldano.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

[0019] Nuno Rebocho e um grilo de boa voz

NUNO REBOCHO, Queluz, Portugal, 1945
Jornalista e poeta, o autor nunca menosprezou a ficção, como o demonstra o seu romance “A Segunda Vida de Djon de Nha Bia”(além de outros arremedos ainda na carteira). Durante dez anos esteve recolhendo histórias, minimilizando-as, reduzindo-as ao mais simples. Esta é um dessas historietas apodadas de “fábulas cínicas” e dedicadas “a quantos mantêm capacidade de ser meninos”. 


O GRILO CANTADOR

Enfiado na lura, o grilo cricrilava todo o santo-dia extenso cantar. Do emaranhado de estevas e salgueirinhas ressaltava um quase chilreio a entrelaçar-se nos odores da paisagem. Minúsculo e preto, o invertebrado cantava de natural alegria pela abundância do pasto e no chamamento da fêmea - taciturna e muda, gélida como as fêmeas que se prezam de boa educação e muitos preconceitos.

Quem passava nas redondezas sustinha-se. Ficava por uns momentos embevecido, de ouvido à escuta, na admiração daquele som agudo e intermitente, recheado de felicidade. Mas o grilo, à cautela, mal pressentia anormalidades no sussurro conhecido dos arbustos, remetia-se ao silêncio. E as cores das plantas, mesmo o vermelho queimado do chão, como que emurcheciam.

Era, pois, previdente o grilo. Por vezes, escapava-se para fora da toca a mirar o sol. Todavia, pelo sim pelo não, não fosse o diabo tecê-las, regressava ao casulo e retomava a cantoria. Nesta placidez, o bicharoco vivia, comia, refastelava-se, fazia necessidades, perpetuava a espécie, dormia e, sobretudo, cantava.

Não há felicidade que sempre dure. É o que se diz. De facto, uma bela tarde, o azar tocou-lhe para se cumprir o destino fatal dos grilos. Estava ele baladando como era costume, quando o acaso quis que por ali perto passasse um garoto. Ouviu-lhe o cricri. Parou. Orientou o ouvido. O bichito teve pressentimento de perigo. Quedou-se no buraco. Sem fugir.

Porém, sabido era o catraio. Conhecia os hábitos da caça, tivera tempo para calcular onde se acoitava o brinquedo. De gatas, as mãos separaram trevos, ervilhacas, ervas, apalparam o terreno; o rapazinho, paciente, procurou-lhe o poiso. Ao resto de uns minutos, encontrou-o.

Pegou numa palhinha. Enfiou-a no orifício, pôs-se a rodá-la. E o grilo, coitado, sentia o ariete tocar-lhe ao de leve a carapaça, atingir-lhe o rabo com arrepiantes cócegas. Todo estremecia, rodopiava. Não se conteve e cantou. Ao ritmo da música, à cadência das festas, as pernas mexeram-se, retiraram-no da toca.

O garoto vencera no ardil. Carinhosamente, tomou-o entre dois dedos, colocou-o na palma da mão, mirou-o satisfeito. E guardou-o dentro de uma caixa de fósforos que consigo levava e na qual fizera dois furos para o animal respirar.

Pobre do grilo preso! Triste a escuridão da caixa fechada! O cantar não tinha a mesma vivacidade. Que importava ao garoto se lhe escutava a melodia? Levou-o para casa, arrumadinho em cima de uma prateleira. Todas as noites, o rapaz levava-lhe um naco de alface borrifada de água. E o grilo cantava, cantava. Em recompensa, o dono fazia-lhe cócegas no rabo. Com uma palhinha.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

[0018] Teresa Balté e um percevejo vienense... beneditino e avisador

TERESA BALTÉ, Lisboa, Portugal, 1942
Poetisa, pintora e docente universitária de Filologia Germânica, Teresa Balté estreou-se no mundo literário em 1967, com a publicação do livro de poemas "Estações". Para além de poesia, escreveu dois livros infantis, nomeadamente "A Abelha Zulmira" (1979) e "O País Azul" (1990). Em 2009, assinou o livro "Hein Semke – A Coragem de Ser Rosto", uma das obras biográficas mais completas dedicadas ao artista plástico alemão e seu falecido marido. Em Abril de 2018 realizou na galeria Perve (Lisboa) uma exposição antológica da sua obra pictórica.

PROVIDÊNCIA

Registo a noite de há cinco anos, a última em Viena,
passada na pensão dos monges beneditinos, no 1.º distrito, por sinal caríssima. Jantara com amigos e recolhera tarde ao quarto imaculado, de Bíblia na mesa-de-cabeceira e crucifixo na porta do roupeiro. Deitei-me. Ia apagar a luz quando o vi na parede. Miúdo ainda, mas inconfundível. O percevejo. Não pensei em matá-lo, haveria mais, provavelmente. Impossível deitar-me na cama, impossível dormir. Instalei-me na cadeira de madeira e, para manter-me vigilante, li no Antigo Testamento. Às quatro da manhã, fui arranjar-me. De ouvido atento, pois pedira que me despertassem às quatro horas. Até às quatro e vinte, o telefone não tocou. Peguei no saco de viagem e desci. Às quatro e trinta estava à porta do convento. O táxi que reservara na véspera, pontual, já chegara. E assim, graças ao percevejo, ainda vi o sol nascer sobre a cidade e não perdi o voo da TAP, para Lisboa.

9.7.2016

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

[0017] Pepita Tristão e um rafeiro quase familiar...

PEPITA TRISTÃO, Castelo de Vide, Portugal, 1951

Pepita Tristão Cardoso traz dos episódios, por vezes absurdos, do quotidiano comum a matéria com que a narrativa se enche. 

Capta na bancada da Imprensa Regional a substância utilizada pelo seu outro lado - o de ficcionista.





O TIO RODOLFO 

Convidaste-me para jantar e, embora sem vontade aceitei.
No fim e ao cabo, somos casados há tantos anos, mas a rotina não entrou em nossas vidas.
Talvez por minha culpa... talvez por tua... ou porque somos ambos demasiado criativos para repetir os mesmos passos, dia após dia.
No entanto, ontem, apesar de não me apetecer, resolvi ir jantar contigo. 
Disse adeus ao único dos nossos filhos que resolveu ficar em casa numa tarde de domingo e rumamos porta fora.
Como de costume, sem destino. 
- Queres ir até às Festas do Mar, comer umas febras ou à Feira do Artesanato? perguntas sem obter resposta, pois eu queria mesmo era enterrar-me no sofá a ver televisão.
- Já vi que não te apetece, que tal a Alcabideche?
Encolho os ombros. Neste momento tanto me faz. 
Uma travagem súbita projectou-me quase atingindo o vidro dianteiro. Abençoado cinto de segurança!
Era um cão enorme e façanhudo que se tentara suicidar, atravessando a auto-estrada.
Apesar de mal lhe ter tocado, ficou parado a olhar para o carro, com um olhar infeliz.
- Só me faltava esta! – exclamas, enquanto eu tento recobrar o uso da palavra. Acho que nem lhe toquei e não sai dali!
- Deixa que eu vou ver. 
- Mas não posso parar no meio da auto-estrada! – quase gemeste.
- Tenta encostar mais à direita
A fila atrás de nós começava a formar-se, enquanto alguns apressados manobravam pela esquerda, quase roçando o animal. 
Abro a porta do carro e ele aproxima-se, parecendo querer entrar. Saio e deixo-o entrar, abrindo a porta de trás. 
Acomoda-se, como se apenas estivesse à espera disso. 
- Que é que fazemos? – perguntas
- Temos de procurar um veterinário e depois ver se tem dono.
- Num domingo, às 21 h? Onde vou eu descobrir um veterinário?
Recordei-lhe que a clínica veterinária onde levámos os nossos cães trabalha 24 horas por dia e ele dirigiu-se para lá.
Ao sair do carro, já com a iluminação da clínica atentamos melhor no animal, que nos seguia docilmente. 
- É façanhudo e velho. Parece-se com o teu tio Rodolfo – comentas com humor... afinal já te recompuseste da contrariedade...
Depois de observá-lo, o veterinário concluiu que apesar de mal tratado e possivelmente mal alimentado – deve ter andado ao abandono! – o animal não tinha qualquer ferimento.
- Onde é que vão metê-lo? Pergunta preparando-se para preencher a ficha. 
- De momento vai para nossa casa. Amanhã procuramos o dono nas imediações do local onde o encontrámos. 
- O mais certo é ter sido abandonado há muito tempo – desencoraja-nos o veterinário. Querem mesmo levá-lo?
Assentimos ambos, pensando na reacção da Bibi e do Lobo, ao receberem outro hóspede. 
Se calhar teríamos de separá-los, pois o Lobo, um pastor alemão de grande porte não devia querer concorrência. Quanto à Bibi, a minha cocker, não levantaria problemas, pois era muito brincalhona e amistosa para os outros cães. 
Só não gostava do Tio Rodolfo, que as poucas vezes que nos visitava, tinha prazer em irritá-la, pelo que logo que o via se escondia, rosnando.
Já o Lobo adorava-o, entregando-se às mais divertidas brincadeiras, quando ele o provocava.
Ensimesmada como estava nem ouvi o veterinário perguntar em que nome devia preencher a ficha do bicho, “mistura de rafeiro alentejano e pastor alemão”, só dando atenção à resposta do meu marido. “Rodolfo!”.
Sustive um impropério, até porque fixando melhor o animal, até acabei por achar umas semelhanças com o legendário irmão de minha mãe, pelo que disfarcei um sorriso, enquanto ele pagava a conta.
Gorado o nosso jantar, regressámos a casa, o que não me desagradava nada, embora a instalação do Rodolfo me roubasse qualquer veleidade de passar um serão sossegado.
Mal parámos o carro, Rodolfo saiu, dirigindo-se alegremente para a porta do jardim. 
- Até parece que conhece a casa! – comentei.
- E conhece... pelo olfacto percebe que é aqui.
Para nosso espanto, não mostrou qualquer receio do Lobo, que contra seu costume, o recebeu de rabo a abanar, com latidos alegres.
- Parece que não há crise! – exclamas.
- Ainda bem. Assim, pode ficar cá fora, na casota da Bibi.
Tínhamos comprado duas casotas, na esperança de que a Bibi se habituasse a dormir debaixo do alpendre, como o Lobo, mas ela recusara-se terminantemente. 
Assim, antes de entrar em casa fui à arrecadação procurar um dos velhos cobertores que guardara para os cães, e um prato que enchi com ração.
O Rodolfo não se fez rogado, devorando tudo, avidamente, perante o olhar sereno do Lobo. 
Quando acabou, estendi o cobertor na casota vazia, que lhe mostrei, dando-lhe a perceber que lhe pertencia. 
Farejou, entrou e ficou a olhar para mim, como quem espera alguma ordem. – Deita-te! 
Mal tinha pronunciado a sentença, eis que surge, furiosa, a minha pequena e doce Bibi. 
Latindo e rosnando, fez recuar Rodolfo, entrando para a casota, onde se instalou sempre de dentes arreganhados.
Por mais que tentasse levá-la para casa, não consegui. Resignada, e como a noite estava óptima, decidi ir procurar outra manta que estendi no chão, para que o nosso visitante se deitasse, mas... ao virar-me, não o vislumbrei por perto. 
Onde é que ele se meteu? No nosso jardim. do Rodolfo nem rasto. 
Entrei em casa, quando o meu filho mais novo espreitava à porta, com ar contrariado, por ter sido arrancado da frente do computador.
- Sempre gostava de saber o que vocês estão a fazer às voltas aí fora, enquanto a casa é invadida por cães pulguentos.
Praguejei, entre dentes. Enquanto estava a arranjar-lhe a cama na rua, Rodolfo entrara, sem cerimónias para a sala e fora-se deitar com o maior à-vontade, num cadeirão antigo que ninguém usava. 
O cadeirão do “tio Rodolfo”, como lhe chamávamos, por ser o preferido do meu tio, nas suas raras e inesperadas visitas. 
- Não me digas que não se parece mesmo com o teu tio – ri-se o meu marido.
- Brincas, mas eu começo a não achar piada. O cão tem algo estranho nas suas atitudes.  Parece compreender-nos... sempre ouvi dizer que os rafeiros são mais espertos que os outros cães.
Dada a pouca vontade que ele manifestava em abandonar o velho cadeirão e como eu já estava demasiado cansada, desisti e resolvi deitar-me, mesmo sem jantar, depois de recomendar ao meu marido para esperar que os outros filhos chegassem, não fosse o animal assustá-los, ou, como não os conhecia magoá-los.
Deitei-me a pensar em meu tio, que era pouco mais velho do que eu e sempre fora considerado a “ovelha negra” da família.
Oferecera-se para a tropa como voluntário sem ninguém saber e quando fora destacado para África, pouco antes do 25 de Abril, nunca mais dera notícias, para desgosto da minha avó materna e de minha mãe que pensava ter perdido o seu irmão mais novo.
Passados uns dez anos, sem qualquer aviso prévio, ligou para casa, dizendo que tinha acabado de chegar, e pedindo para o irem buscar ao aeroporto.
Como a avô e a mãe ficaram completamente atarantadas, vieram ter comigo, que estava com baixa de parto e  rogaram-me que fosse lá. 
Assim que me viu, abraçou-me, perguntando por todos, como se tivesse acabado de passar uma semana de férias fora.
Trazia um saco cheio de prendas para toda a família, excepto para os meus três filhos, cuja existência desconhecia. 
Com uma disposição exuberante distribuiu artefactos africanos por todos nós.
Decidiu ficar em minha casa. “Gosto de estar entre jovens”. A avó é que choramingou um pouco, incapaz de conter a felicidade de ver reaparecer o filho. 
Durante duas semanas esteve em casa, partilhando o quarto com o meu filho mais velho, deitando-se no chão, dentro do seu saco cama, pois recusou o quarto de hóspedes.
Contou mil e uma aventuras que viveu em África, aflorando ao de leve que deixara ainda alguns negócios pendentes. 
Num domingo, telefonou para a família, convidou-nos todos para jantar fora e anunciou, com a maior das naturalidades que no dia seguinte embarcava para a América do Sul.
“Negócios”, foi a única explicação.
Desde então, aparecia na minha casa uma ou duas vezes por ano, em visitas que podiam durar dois dias ou duas semanas, chegando carregado com os mais incríveis presentes, oriundos dos mais recônditos lugares da terra, e partindo, sem deixar endereço nem contacto.
Em casa, mesmo ficando no quarto de hóspedes, nunca utilizava a cama. “Mau hábito para quem passa a vida em expedições”, explicava.
Gostava de sentar-se no velho cadeirão do avô, que eu colocara em minha sala, quando a avó decidira livrar-se dos “monos” que lhe recordavam demasiado 40 anos de vida a dois e, rodeado pelos meus filhos contava histórias de indígenas, das Áfricas e Américas.
Há algum tempo que o tio Rodolfo não aparecia em casa. 
Viera pouco antes do Natal passado e desde então, até hoje - já o Outono ia adiantado - não dera notícias.
Que pensaria ele se chegasse a casa e encontrasse um cão com o seu nome? Se calhar, achava piada e soltaria uma das suas sonoras gargalhadas.
Sem irmãos, Rodolfo é para mim o irmão que não tive e, apesar do pouco contacto que temos mantido, gosto mesmo muito dele!
Pensando nisto, acabei por adormecer.
No dia seguinte andámos, com o Rodolfo atrás, pelos bairros localizados perto do local da auto-estrada onde o encontrámos. Ninguém o conhecia.
Devia ser de uns ciganos que por aí acamparam com uma data de cães, foi a opinião generalizada.
Passaram-se mais alguns dias e Rodolfo começou a fazer parte da nossa rotina. Seguia-me para todo o lado. Durante o dia brincava em alegres correrias com o Lobo e ao serão, instalava-se no sofá da sala, para desespero da Bibi, que morria de ciúmes.
- Tenho de habituar este cão a ficar lá fora – repetia eu, todas as noites, mas acabava por o deixar ficar na sala e deitar-se ao lado da cama do meu filho mais velho, que o adorava.
Cerca de uma semana depois, recebemos uma chamada da Índia.
- Deve ser o tio Rodolfo, comento, enquanto aguardo a ligação.
Era o próprio embaixador de Portugal naquele país que queria falar com um familiar de Rodolfo Meireles.
- É o meu tio – respondo, preocupada.
Incrédula, ouço a voz que do outro lado do mundo me comunica que o tio teve um acidente grave e, não resistindo aos ferimentos, acabara por falecer, horas depois.
- Quando? – perguntei, com a voz embargada.
- No passado domingo.
Rodolfo, que estava deitado aos meus pés, parece ter compreendido o meu desgosto. Levantou-se e, erguendo a pata direita, pousou-a sobre os meus joelhos. Fitando-me com o seu doce olhar, parecia querer dizer-me: - Não te preocupes. Eu estou aqui contigo e desta vez, vim para ficar.