sexta-feira, 17 de maio de 2019

[0073] Mais um belo conto de J. M. Carvalho-Oliveira

J. M. CARVALHO-OLIVEIRA
Deste nosso recorrente colaborador, mais um conto em que a morte é encarada de modo natural, pois também faz parte da vida.

ESCRITO COM PENA DE GAIVOTA


Passear ao longo de praias quase desertas é um verdadeiro prazer. Passeia-se higienicamente, em tronco nu ou coberto, para contrabalançar os dias de trabalho seguidos e as multidões que nos acompanham nas ruas, nos transportes públicos, nas lojas. Espraia-se o ego, renatura-se o ser, reflecte-se a vida.

Um passeio em Maio, pode ser imensamente belo. Já há temperatura convidativa, os areais continuam praticamente desertos - embora se anotem alguns surfistas, casais jovens que se adunam, tisnando o corpo e gozando a dois o prazer da natureza.

Quando passeio, vou por vezes acompanhado. Hoje, fui sozinho. A manhã amena, com um sol algo tímido mas agradável e com ausência de vento, convidava a um esticar de pernas no longo areal com cerca de três quilómetros de extensão. O abrir e fechar de braços, em estilo de ginástica convencional, faz estalar uns ossitos, ao mesmo tempo que, com a sequência, causa umas primeiras gotas de suor no rosto; produz a saudável sensação de que nos estamos a desintoxicar e a voltar à forma.

Os pensamentos, se é que os há, são sobre a vida. São generalidade e não especialidade. À minha frente, um bando de duas dúzias de gaivotas, que usufruíam na areia algo do meu prazer, levantam voo quando me aproximo. Sinto-me desconfortado: por nada queria incomodar as aves. Olhei para as belas gaivotas, levantando voo sem precipitações, voltejando no ar mas afastando-se sempre. Algumas voltariam para local próximo do que tinham abandonado, já eu estava longe.

Observar gaivotas no ar é testemunhar a graça do voo e a habilidade de pairar; é também ver o companheirismo dos grupos, unidos no voo e no lugar onde pousam.

Vai um homem a pensar nestas coisas bonitas quando nota, à sua direita, que as ondas que se desfazem na praia enrolam um volume. Era uma gaivota morta. Trazida para terra e depositada na areia por uma pequena onda, foi re-levada para o mar por uma segunda. O mar surgiu-me como a sepultura natural das gaivotas.

Seixal - Foto Joaquim Saial
Trezentos metros à frente, esperavam-me no areal duas asas bem abertas ladeando o corpo de outra gaivota inerte. Jazia ao sol. Um cão branco que me viu e veio na minha direcção acompanhando-me alguns metros, farejou o corpo e desinteressou-se ao fim de dois segundos.

Dei uma pequena corrida, fiz mais uns exercícios físicos. Passei por uma rochas que quebram o areal e nas quais em tempos inscrevi três Xs, com uma pedra rija que na sua forma lembrava um coup de poing.

Do lado de lá dos rochedos, dando início a uma pEquena extensão de areal, uma nova gaivota surgiu-me na praia. A morrer. Junto ao mar, mas sem que este lhe tocasse; acocorada na areia húmida, já não conseguia mexer-se. Os olhos prescrutavam o ar desesperadamente, o bico abria e fechava lentamente. Ia morrer, percebia-se. Parei, continuei, voltei atrás. Senti que nada podia fazer naquela altura. O bico da ave abria-se e fechava-se quase sem força. Passou por mim um casal, precedido por um belo setter. Mal olharam. Passou também um homem correndo. De cabelos grisalhos, consultava o relógio que trazia no pulso: iria um segundo atrasado, ou já teria ganho um minuto ao seu tempo anterior? A tanga azul puxava por um corpo que se queria manter em forma, que não consentia que os anos lhe roubassem qualidades.

Prossegui, o meu pensamento ora na gaivota aflita, ora no mundo de interesses diversos em que nos movimentamos. Mais uns exercícios, mais transpiração, o sol a brilhar agora mais forte. Iniciei o regresso. Ao reaproximar-me das rochas, procurei descortinar a gaivota moribunda. O mar tinha-se afastado um pouco, a maré vazava. A gaivota jazia na areia branca da praia, as asas junto ao corpo, peito para cima, a cabeça de lado, os olhos abertos. Corri a trazer na concha das mãos um pouco de água que a pudesse refrescar. Já não a sentiu. Os olhos estavam abertos porque a morte não os deixara fechar.

Morrer em Maio. Assim, naquela beleza toda. Passaram-me depois pela mente todos os nossos maios; à minha frente continuava a vastidão imensa do oceano, à direita a arriba milenária. Entendi que não era para ficar triste. Afinal, estava ali dando um passeio da vida, no meio de uma natureza que um dia, mais tarde ou mais cedo, nos proporcionará o seu encontro com Maio, num desMaio derradeiro. 

quarta-feira, 8 de maio de 2019

[0071] "Praças", de António Pedro Correia, venceu Pémio Literário UCCLA

O vencedor da 4.ª edição do Prémio Literário UCCLA - Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa foi atribuído ao livro “Praças” da autoria de António Pedro Serrano de Sousa Correia, português natural de Angola. A obra vencedora foi anunciada no dia 5 de Maio - Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP - no Mercado da Língua Portuguesa, no Mercado da Vila em Cascais.
António Pedro Serrano de Sousa Correia nasceu em Angola em 1961. É artista plástico, dedicando-se especialmente à escultura, à criação de objectos tridimensionais e à área de instalação multidisciplinar. 
O Prémio Literário é uma iniciativa conjunta da UCCLA, Editora A Bela e o Monstro e Movimento 2014, que conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e da Comissão Temática para a Promoção da Língua Portuguesa dos Observadores Consultivos da CPLP.


sábado, 4 de maio de 2019

[0069] Novo livro de Nuno Rebocho, prestes a sair na ilha de Santiago e, para breve, também em Lisboa

É apresentado pelo poeta Filinto Elísio e pelo também poeta e pintor Tchalé Figueira no Instituto de Língua Portuguesa (Casa Cor de Rosa), às 18h00, a 9 de Maio, quinta-feira, na cidade da Praia (ilha de Santiago, Cabo Verde), o mais recente livro de poesia de Nuno Rebocho, “Rotxa Scribida” (edição Rosa de Porcelana). O mais recente livro de Nuno Rebocho será depois apresentado na Assomada (a 22 de Maio) e em Lisboa (a 29 de Maio), por altura da Feira do Livro.

terça-feira, 30 de abril de 2019

[0068] Manuel de Sousa, com mais um conto angolano

O prometido é devido. “Contos da Tinta Permanente” alertou que divulgaria novo conto angolano e ele aqui está. Muito provavelmente, não será o último, como s seu tempo se verá.


LUÍS ITIEL, O PAI NATAL AFRICANO
Por Manuel de Sousa

O Pai Natal, em alguns países conhecido como Santa Claus ou Papai Noel (ou Papá Noel), em virtude do crescendo de pedidos, decidiu alargar a sua zona de acção e de entrega de prendas para crianças um pouco mais para a zona Sul do Globo Terrestre, nomeadamente, em África. 

Na ocasião, estendeu os seus serviços de entrega até países como África do Sul e países limítrofes, os quais incluíam Angola, também e onde a tradição natalina continua sendo forte e em crescendo. Contudo, punha-se lhe o problema de que as suas renas, habituadas aos climas frios e de neve, não teriam condições para puxar o trenó aéreo num clima tropical, usualmente quente e húmido. 

Assim, falou com alguns dos seus amigos em África e solicitou a estes que investigassem nas matas, chanas e nas florestas e selvas africanas, a ver se haveria um animal que tivesse características físicas adequadas, ordeiro e de fácil adestramento, para substituir com êxito as renas. 

Aos poucos, começaram chegando à sua caixa electrónica de correio, várias informações sobre os animais eventualmente candidatos para a substituição das renas. Dentre eles, vieram indicações para a utilização de antílopes de compleição física maior, e até houve sugestões para o uso de bois-cavalo e búfalos africanos e mesmo, até, elefantes, etc. 

Para poder escolher os animais mais apropriados, o Pai Natal veio ele próprio à África testar os vários animais indicados. Chegou contudo ao fim dos testes, tendo montado e experimentado o trenó em vários tipos de antílopes, incluindo zebras, dromedários, bois-cavalo, elefantes, concluindo que nenhum destes lhe servia os propósitos, em virtude do grau de dificuldade de aprendizagem que todos demonstraram quanto aos gestos de coordenação, etc. 

Encontrava-se a viajar de carro entre a República Democrática do Congo, a Zâmbia, o Zimbabwe e o Botswana, e já em desânimo e prestes a desistir da ideia, muito cansado, quando adormeceu pesadamente, e eis que teve um sonho. Sem o saber, no sonho, veio parar a Angola, onde nunca antes havia estado. Certo era que enviava para lá brinquedos a pedido de algumas crianças que de lá lhe escreviam, já desde há muitos anos, mas sempre encarregara os seus emissários ou assistentes locais e regionais de fazê-lo, os quais se vestiam com trajes semelhantes ao seu. Mesmo esses haviam usado elefantes voadores carregados com cestos e sacos, onde colocavam as prendas, mas nunca haviam feito recurso a trenós, em virtude destes animais serem demasiado grandes e desajeitados para tal.

Caindo em sono profundo, o tal sonho pareceu-lhe ser deveras tão real, que lhe deu a impressão de estar acordado. Nisso, viu muito claramente um pequeno e lindo bebé de tez africana. O bebé parecia pairar em pleno ar, contudo, como se se encontrasse deitado em algo invisível. Tão logo se aproximou, reparou que o bebé olhava para ele com olhos muito vivazes e de quem estava consciente do que via e do que ali estava fazendo. Quase de imediato, viu nítido em sua mente o nome do bebé, Luís Itiel. 

Achou estranho, mas, acabou não ligando muito, achando que poderia ser mera coincidência. Nisso, ouviu uma melodiosa vozinha de criancinha tenra, que mais parecia saída de um boneco falante ou de uma fada: “Meu nome tu já sabes. Agora, gostaria de te sugerir uma ideia sobre o tipo de animais que poderão ser-te úteis aqui em África, para que possas levar avante teus planos de distribuição de brinquedos aqui nesta região.” O Pai Natal estava de boca completamente aberta, quando tentou recompor-se: “E o que será que um bebé de aparentemente algumas poucas semanas me poderá dar como ideia, quando há pouco tempo nasceu para este Mundo? Afinal quem és tu, pequeno bebé Luís Itiel? O bebé Luís Itiel, olhou ainda como maior incisão para o Pai Natal e vai de dizer: “Eu sou um bebé recém-nascido sim, mas, também sou um bebé mágico e precoce, com poderes equivalentes ao das lendárias fadas das estórias infantis! Apesar de tudo, estou aqui para te ajudar, pois, na vida real, sou um aparente mero bebé e nunca ninguém iria suspeitar que eu poderia até falar e, muito mais ainda, com uma figura tão importante e mágica, como tu, Prezado Pai Natal! Se te virares um pouco para a tua esquerda, poderás ver seis animais, cuja designação mais comum é a de Palanca Negra Gigante. Elas são também da classe dos Antílopes, e são hoje animais muito raros, tendo estado mesmo às portas da extinção em Angola, em virtude da caça desenfreada e dos tempos atrozes de guerra. Estas aqui nasceram praticamente ao mesmo tempo e cresceram e andaram juntas, quase o tempo todo da sua sobrevivência. Foram mesmo treinadas e preparadas mentalmente, desde pequenas, para este momento e para te servirem aqui em África, como animais de elevada inteligência e senso de missão, podendo ter os mesmos atributos que as tuas renas, lá no frio Hemisfério Norte. E, além disso, estes animais estão bem adaptados climaticamente e poderão puxar muito bem o teu mágico trenó voador pelos ares da África e enfrentando tempestades e chuvas mais severas, habituais nesta ocasião do ano aqui no nosso Continente. Elas podem até voar, quando necessário, sem que se assustem de forma alguma com quase nenhuma situação adversa”. 

Mais espantado do que seria de esperar, o Pai Natal virou-se e perguntou em tom de admiração profunda: “Mas nunca ouvi falar de Palancas Negras Gigantes e nem sequer sabia que tal animal existia e de onde elas são mesmo?” 

“Das chanas do Leste de Angola, exclusivas da Província de Malange, de uma reserva natural chamada Kagandala, junto ao Rio Kuanza, que nasce algures no Centro-Leste de Angola e desagua a 60 quilómetros a Sul de Luanda, capital de Angola, país onde eu nasci recentemente”, disse muito naturalmente o bebé Luís Itiel. Podes até aproximar-te delas, para que fiquem desde já familiarizadas contigo e afagá-las enquanto ainda aqui no sonho. Aliás, da mesma forma que as tuas renas, as palancas também têm o dom de falar mentalmente, pelo que estão preparadas também para falarem contigo e para receberem tua voz de comando. Todas têm um nome próprio, pelo qual as podes tratar. Por exemplo, a líder da manada, chama-se Sol. A sub-líder chama-se Terra. Chamando-se as restantes, respectivamente, de Lua, Fogo, Água e Ar”. 

Dito isso, e acto contínuo o Pai Natal foi afagando uma a uma as palancas, que o rodearam plenas de júbilo e felicidade, como se sempre tivessem estado na presença do Pai Natal. Este, olhando novamente para o bebé, vai e diz-lhe com uma certa propriedade: “Afinal, já sei quem tu és, meu lindo bebé! Tu és o meu substituto no futuro, ou seja, o próximo Pai Natal, o qual está destinado a ser oriundo de África e isso eu já previa em minha mente, há muito tempo. Só que, não me passou nunca pela cabeça que um dia me iria encontrar com o bebé que viria a ser o Pai Natal seguinte!”. Aí, fez uma pequena pausa, e adiantou: “Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida, e não faltam muitos anos e poderei finalmente arrumar as botas e reformar-me, pois já sei quem me vai substituir. Agora, continuaremos em comunicação sempre, sobretudo por intermédio de sonhos. Entretanto, vou deixar-te crescer como um Bebé normal e só voltarei a ver-te, mas, dessa vez, fisicamente, quando tu estiveres crescido e maduro e consciente o suficiente, para te passar então o testemunho de tão gigantesca e responsável tarefa de seres o Pai Natal do Mundo. Agora, vou acordar, pois já tenho a solução para os animais que irão puxar o meu trenó aqui em África, a fim de me poder dirigir a Angola e lá poder encontrar-me fisicamente e de facto, com estas tão lindas, elegantes e valiosas palancas negras, que, além de gigantes e raras, passarão a serem mágicas também, a partir de então…”. 

Despediram-se entretanto, com o Pai Natal a agarrar as mãozinhas delicadas e suaves do bebé e a beijá-las em tom terno, emocionado e em agradecimento. Acorda já como que motivado a mover-se com certa pressa. De imediato, vira-se para o seu colaborador que conduzia o carro e disse: “Pára aí algures para comermos uma bucha, e após isso, fazemos meia volta, indo, de seguida e sem demoras, directos à fronteira com o Leste de Angola, para dali, nos dirigirmos à Reserva Nacional de Kangandala, na Província de Malange. Ali iremos encontrar os animais que tanto procuro aqui nesta região de África”. 

O colaborador, com certo espanto, mas simplesmente ouvindo as directivas do Pai Natal, assentiu com a cabeça e parou num local apropriado para comerem. Depois, como previsto, dirigiu o carro na direcção de Angola, onde entraram já à noitinha. Dormiram algures numa pequena aldeia, e mal o Sol raiou, puseram-se em direcção de Kangandala, onde finalmente, não muito longe da entrada da Reserva de Kangandala, à sua espera estavam os imponentes, viçosos e elegantes vultos das seis palancas negras, que tinham algumas fêmeas e algumas crias em sua companhia. Receberam o Pai Natal com correrias alegres e altos saltos de comoção. Então, quase como num coro perfeito, o Pai Natal ouviu as vozes das Palancas em uníssono pela primeira em sua mente: “Olá, querido Pai Natal, aqui estamos nós prontas para puxar o teu trenó mágico pelos céus incandescentes e doirados de África.”.

Tão logo acabaram de falar, apareceu do nada, por artes mágicas, um lindo, sumptuoso, radiante e luzidio trenó doirado, todo ele a raiar brilho em todas as direcções, deixando por algum tempo os animais semi encadeados e tontos. Tão logo se refizeram e se habituaram e, em posição perfeita, com duas linhas paralelas de três palancas formadas em fila, ordeiramente, com umas atrás das outras, aquelas viram-se emparelhadas ao trenó… 

O Pai Natal, sem delongas, pulou para o trenó e disse em seu tom tradicional: “Oi, oi, oi! Aqui vamos nós pelos ares de Angola e de África, em nosso primeiríssimo ensaio inicial”. Voou, voou, até estarem ele e as palancas, exaustíssimos. Depois de ter tornado o trenó novamente invisível e ter soltado as Palancas, passou a noite na aldeia do Soba Maior da região e no dia seguinte, e antes de se despedir das palancas, dirigiu-lhes a voz: “Minhas amadas palancas Sol, Terra, Lua, Água, Fogo e Ar, eis que vos deixo tão-somente por uma semana, para que se refaçam, pastem os melhores pastos e se preparem para executar nossa árdua e intensa missão, a qual se aproxima a passos largos. Iremos, então, distribuir brinquedos e outras prendas de Natal nesta região do Continente Africano, de forma assaz intensa e em tão-somente um dia e tal, entre 24 e 25 de Dezembro, este último, o dia de Natal. Os brinquedos e outros presentes de Natal serão entregues, sobretudo, em regiões onde as crianças e as pessoas adultas ainda observam a verdadeira mágica tradição de Natal…” 

“Agora, minhas honrosas amigas Palancas, irei agradecer mentalmente ao bebé Luís Itiel por me ter guiado até vós e deixo a lembrança que, num futuro não muito longínquo, irão servir a ele, como futuro Pai Natal e o primeiro oriundo da África, mais precisamente de Angola…”, arrematou o Pai Natal… 

quinta-feira, 25 de abril de 2019

[0067] Mercado da Língua Portuguesa em Cascais

O Mercado da Língua Portuguesa, no Mercado da Vila em Cascais, decorre de 3 (a partir das 18h00) a 5 de Maio, e homenageia a língua portuguesa e a união das várias culturas pelo mundo, divulga o artesanato, a dança, a literatura, a música e os sabores de todos os continentes. É numa iniciativa da UCCLA em parceria com a Câmara Municipal de Cascais.

Programa:

No dia de abertura haverá Dança do Leão - Clube Kung Fu Hong Long (Macau), música por Djumbai Djazz (Guiné-Bissau), danças e músicas tradicionais Batucadeiras FinKa-Pé (Cabo Verde) e terminará com música de Piki Pereira (Timor-Leste). 

A 4 de Maio, Gaitas de Foles pelos Gaiteiros da Xuventude de Galicia (Galiza) e Kung Fu pelo Clube Kung Fu Hong Long (Macau), Afro Mandinga por Mamadú Baio e convidados (Guiné-Bissau), Cante Alentejano pelo Grupo Coral os Vindimadores (Portugal), Semba e Kazucuta por Chalo Correia e os bailarinos Pawel & Marly (Angola), Guitarra Portuguesa por Carlos Sanches (Portugal), BOSSA & Outras Novas por Sílvia Nazário e Cláudio Kumar (Brasil), Fado com Filipa Maltieiro e David Ventura acompanhados à guitarra por Armando Figueiredo e Nuno Siqueira e à viola baixo por Luís Morais (Portugal), semba com Luiana Abrantes (Angola); coladeras, mornas e funaná por Zezé Barbosa (Cabo Verde) e dexa, rumba, socopé e outras músicas com Tonecas Prazeres (São Tomé e Príncipe). 

A 5 de Maio, dança e música pelo Grupo Evkat (Goa) e a Fado pelo Modus de Fado (Portugal), uma tertúlia literária moderada por José Fanha, com o tema “Os Falares da Língua Portuguesa: Um Contrabando de Afetos”, Celina Veiga de Oliveira (Macau), Emerson Sousa (Angola), Goretti Pina (São Tomé e Príncipe), Júlio Meirinhos (Portugal - mirandês), Maria Luísa Timóteo (Malaca), Tatiana Levy (Brasil) e Valentino Viegas (Goa), Brais Fernández (Galiza), Fátima Guterres (Timor-Leste), Filinto Elíseo (Cabo Verde), Ricardo Araújo Pereira (Portugal), Sheila Khan (Moçambique) e Tony Tcheka (Guiné-Bissau), actuação da Cultura Makonde por Malenga (Moçambique) e Viva o Samba (Brasil).


quarta-feira, 24 de abril de 2019

[0066] N.º 5 da Revista "Nervo"

O nº 5 da revista “Nervo”, correspondente ao quadrimestre de Maio a Agosto de 2019, está disponível a partir de 2 de Maio e contará com as seguintes participações: Ana Paula Inácio,  David F. Rodrigues, Edgardo Xavier, Eduarda Chiote, Emanuel Matos-Drago, Francisca Camelo, Jesús Jiménez Domínguez (Espanha), João-Paulo Esteves da Silva, Luis Muñoz (Espanha), Miguel Filipe Mochila, Paulo José Costa, Pedro Mexia, Pedro Seabra, Zetho Cunha Gonçalves. As ilustrações e a capa são do artista plástico Emerenciano Rodrigues.

terça-feira, 23 de abril de 2019

[0065] Luciano Canhanga, mais uma história angolana

Mais um escritor angolano, Luciano Canhanga, convive em Contos da Tinta Permanente. Outros virão, prometemos.


O FALSO LEÃO

Os sul-africanos que, vezes sem conta, violavam com os seus invisíveis aviões o território do país tinham abrandado as investidas. Dizia-se mesmo que se tinham retirado definitivamente ou que tinham sido corridos pela tenacidade das FAPLA. A rádio, única naqueles anos, dava pouca informação e os meninos como Jacinto, mesmo sendo curiosos e perguntando ou lendo quase sobre tudo, tinham um deficit de informação sobre o que era a guerra, como e onde se desenvolvia e quem eram os actores mediatos e imediatos. Apenas palavras de soar bem ao ouvido e de significação oculta preenchiam o seu vocabulário do dia-a-dia. 

Os noticiários que se seguiam ao “Angola Combatente” começavam sempre com comunicados das forças governamentais sobre a situação política e militar no KK onde os fantoches e seus aliados, no dizer dos jornalistas de então, eram derrotados minuto a minuto, mas onde também, na retirada, acabavam por matar civis: mulheres grávidas, crianças e velhos. Apenas os jovens que estavam nas gloriosas estavam fora das atrocidades dos violadores kifumbes. 

Apesar da saudade dos pais que se tinham mudado de Luanda para o Munhango, as férias do fim de ano lectivo tinham corrido bem a Jack e aos tios. Os primos estavam todos felizes porque tinham ganho novas brincadeiras. O natal tinha sido maravilhoso e todos os meninos tinham ganho muitos presentes que o tio Wandisyapo comprou na loja do Sô Venâncio. 

Wandisyapo e a irmã, Naxitula, tinham combinado que Jacinto regressaria a casa acompanhado do primo Bernabé, enquanto o irmão mais novo, Xendivali, ficaria com o tio. Lito que estava adoentado voltaria a casa mais tarde. 

No dia em que Jacinto e Bernabé receberam a notícia de morarem juntos na vila de Munhango, quase não dormiram. A curiosidade de Bernabé era tanta e queria que o primo lhe falasse sobre como eram as águas dos rios, os animais, as frutas da mata e das lavras, os peixes dos rios, o chilrear dos passarinhos e tudo mais. 

— Oh primo, conta então, ou não queres que eu vá contigo? – ameaçou Bernabé, em jeito de troça. 

— Bebé! Arruma a tua mochila. Os teus olhos te vão contar ao longo da viagem. – Respondeu-lhe Jack, como era tratado Jacinto no seio familiar. 

— E tu, Jack, já arrumaste a tua mochila? — ripostou Bernabé. 

— Ainda não. Mas eu sei onde andam as minhas coisas e não será difícil. 

— Olha para isso. – Bernabé mostrava o cantil que ganhara como presente por ter transitado de ano académico. – Vai ser útil ao longo da nossa viagem até à casa da tia Naxitula. — disse. 

— Ai é? E vamos mesmo a pé? – perguntou Jacinto a zombar. Os dois já tinham combinado gastar o dinheiro da passagem em guloseimas e fazer o percurso de dez quilómetros a pé. Conheciam o caminho e eram também conhecidos dos aldeões daquela região onde bastava dizer de quem se era filho ou neto para logo ser acolhido em qualquer aldeia por onde se passasse. 

No domingo, dia em que o comboio faz o percurso Lwena-Vye, os meninos foram à estação dos caminhos-de-ferro acompanhados por Wandisyapo, pai de Bernabé e tio de Jacinto. Os rapazes, que já tinham o dinheiro da passagem, fingiram dirigir-se à bilheteira de modo a despistar Wandisyapo. E conseguiram mesmo ludibriá-lo, pois tinham conseguido de véspera uns bilhetes que já não tinham validade. E foram estes que mostraram ao pai, de quem se despediram. 

— Papá, não adianta esperar pela partida do comboio. Jack e eu já somos grandes e o papá pode ir descansado. Quando chegarmos, a tia vai ligar para dar notícias. Não é isso Jack? – perguntou Bernabé. 

— Sim, tio. – respondeu Jacinto, a fingir que subia na carruagem, puxando pela mão do primo. 

Mal Wandisyapo marcou os primeiros passos em retirada, os dois trapaceiros desceram da carruagem e meteram-se a caminho do mato que liga as embalas. Na mata cerrada do Moxico, em direcção ao pôr-do-sol, os dois aventureiros transpuseram riachos e contornaram montanhas, deleitando-se, ao longo do percurso, com muitas frutas: umas colhidas de pomares que iam encontrando e outras silvestres. Viram também um passarinho preto, amarelo e vermelho que lhes fez recordar a bandeira de Angola. 

— Jack! Olha aí o Angola-Avante! – exclamou Bernabé, o primeiro a ver o passarinho no cimo de uma árvore. 

— Angola-Avante é o hino nacional. Esse aí é cor-de-bandeira. – corrigiu Jack que era um ano mais velho do que o primo. 

Depois de caminharem cerca de uma hora, o mutismo e o cansaço fez morada entre eles. — Jack, porque não paramos um pouco para descansar e apreciar que está à volta? – sugeriu Bernabé. 

— Sim, Bebé. Também sinto a boca seca de sede. Queres um pão com manteiga? – brincou Jacinto. A sombra de uma árvore frondosa foi escolhida para descansar e conversar. 

Jack puxou da mochila a sua bússola para ver em que direcção estavam, enquanto Bernabé prospectava com o seu binóculo o que se passava à volta. Foi naquele instante que viu, não muito longe do local em que estavam, uma cabra do mato que corria perdidamente. 

— Jack, Jack! Uma cabra do mato está a correr em direcção ao rio. Queres ver? Deve haver um leão atrás dela! 

— Hum, leão? – balbuciou Jack acossado de medo. 

— Sim aqui há leões, leopardos, hienas, onças e outros animais ferozes. Doutra vez – contava Bebé – o papá caçou um leão velhinho que rondava o curral do Soba. Só a juba dele? Parecia um espantalho. Era um bicho assim… – Bernabé indicava com gestos a enormidade da juba do bicho. Enquanto Bernabé descrevia o animal, Jack, já quase sem forças nas pernas, sorvia uma porção de água do cantil. Foi no mesmo instante em que Bebé, também ele sedento, esticou a mão para receber o cantil.

— Está aqui. – disse Jack. 

— Mam! Estou perdido. – gritou Bernabé que se meteu a correr pelo mato. 

Nisto, Jack que tinha pensado que o primo fugia duma fera, também se meteu em fuga pelo mato, metendo por um outro atalho. 

Andaram perdidos no sertão cerca de hora e meia até que se reencontrarem numa aldeola, já próximo do Munhango. Estavam exaustos, sedentos e famintos.

— De que fugiste, Bernabé? – questionou Jack todo aborrecido. 

— Não foste tu que disseste que o leão estava aí? Ou querias que eu servisse de almoço do bicho? – respondeu Bernabé também agastado. 

— Eu não me referi ao leão. Esticaste a mão para receber o cantil e eu te disse “está aqui” o que pedias. 

— E por que te meteste também a correr? – voltou a perguntar Bernabé já mais calmo. — Fugi porque, ao te ver com o “pé no ngimbu”, pensei que tivesses visto, na verdade, um leão! 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

[0064] 3 de Maio, dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP

Decorre no dia 3 de Maio (uma sexta-feira), no auditório da CPLP em Lisboa (R. de São Mamede 21), sob o lema “A Cultura e a aproximação dos Povos da CPLP – realidades, desafios e perspectivas futuras”, a celebração do Dia 5 de Maio, Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP.

[0063] Bienal de Culturas Lusófonas em Odivelas

Odivelas volta a ser a Capital da Lusofonia, de 2 de Maio e 1 de Junho: a sua Câmara Municipal promove a VII Bienal de Culturas Lusófonas oferecendo um conjunto de iniciativas dedicadas, em exclusivo, à língua que nos une e enriquece a multiculturalidade e a interculturalidade que caracterizam e identificam o concelho:  Feira do Livro de Autores Lusófonos, exposições diversas, Feira Multicultural, o Fórum Lusofonia, o Desfile Multicultural e o Encontro de Escritores.

terça-feira, 16 de abril de 2019

[0062] Nuno Rebocho, um contador de histórias

Menos conhecido é que Rebocho é um contador de histórias. De exemplo, serve esta sua “Novela da Cidade Velha”, escrita em Cabo Verde.


EL PREDADOR


I

Encosta riba, lá onde a extensa achada começa a definir-se num primeiro patamar, já se podem encontrar as galinholas mais atrevidas. Galinhas do mato lhe chamam. São aves de penas acinzentadas e camufladoras, maiores que as galinhas de terra, mais pernilongas, pescoço alongado, cabeça dir-se-ia negra. O corpo fusiforme e as asas anchas, a conferir maior sustentação ao voo, distinguem-nas das primas galináceas pica-no-chão tanto no porte como na capacidade de se elevarem aos céus e planar sustentadamente por longas distâncias. Raramente se descobrem isoladas. Preferem a proteção do bando, por vezes de seis, oito exemplares, debicando parcas sementes e bichezas. Ao rés dos trilhos que atravessam as matas de acácia que cobrem cutelos e achadas facilmente se depara algum casal acompanhado de franganotes, já desenvolvidos em tempos de maio e de perdição: em mês de festas que atiram por junho adentro, depois da procriação que faz as galinholas mais esquivas, tornam-se cobiçada iguaria para palatos exigentes. Então a caça redobra.

Galinhas do mato, pois, assim as designam. Também galinhas de angola ou galinhas da guiné, galinholas são nomes useiros, com razão da origem. Porque não são autóctones. Salvo a halcion (vulgo, passarinha), nada em Cabo Verde é autóctone: tudo veio com o povoamento que, a partir do décimo quinto século, animou estas ilhas até então desertas de animais, homem incluso. Ao contrário de moscas e mosquitos, gafanhotos, tchotas, corvos, cagarras, fragatas e alcatrazes, as galinholas não terão arribado por motu próprio ou arrastadas pela fatalidade dos ventos. Seriam mãos humanas que alguma vez as trouxeram. Depois multiplicaram-se.

No caminho para Salineiro, mal a achada, numa primeira dobra, alteia a uns quinhentos metros sobre o mar, lobrigam-se as galinhas do mato no refúgio de acácias e babosas. E, à medida que o viajante investe para lá de Salineiro, no rumo de Santana, a cada passo se avistam mais e mais, aqui disfarçadas na morabeza das purgueiras, além de Lapa Catchor e já no ramal para João Varela não menos. Se se marcha pelo canyon de São João Batista com destino a Belém, mais do mesmo. Ou pelo de Alfarroba. Ou subindo para Mosquito Horta. Por toda parte, elas se conjugam com o estoiro de caçadoras de chumbo e bacamartes e fazem abundância no território da Ribeira Grande de Santiago.

Adaptaram-se ao sequeiro, à atmosfera sufocante de poeiras suspensas que cansa por estas extensões, a chamada bruma seca. Quais perdizes, adotaram covas por ninhos onde largam os ovos e os incumbam, aproveitando os segredos das achadas para industriar os filhotes enquanto a penugem os cobre e lhes proíbe o voo. Aprendem então a escarafunchar. E crescem.


II

Alfonso Tércio y Tércio era o mais famoso caçador de galinhas do mato de Praia e Cidade Velha. De Praia porque, embora nascido em Santiago de Cuba, Alfonso todos os fins-de-semana pegava na espingarda, sua segunda pele arrumada na capital de Cabo Verde, e metia-se aos caminhos, regressando sempre com numerosas peças que ofertava aos amigos ou ele mesmo cozinhava para pantagruélicas petiscadas comunais que honravam as manhãs de domingos e, por norma, se afundavam de barriga cheia ao fim da tarde. Que era homem de convívios este fiel admirador dos barbudos da sua ilha: castrista indefetível, o cubano juntava o respeito pelos heróis da Sierra Maestra ao visceral repúdio das políticas ianques que tinham o poder instalado em La Habana como inimigo a abater. Abominava os exilados em Miami e, ainda que ele fosse também mais um que partiu de Cuba, detestava que o confundissem com os “reacionários”.

Era de facto diferente o seu caso. Alfonso viera para Cabo Verde nos bons tempos da cooperação, quando Cuba era tida por luz dos países de África apodados de progressistas, fosse tal qualificativo o que verdadeiramente pudesse ser: quando foi quando chegaram a África médicos e técnicos militares cubanos. Tércio y Tércio, engenheiro, viera nessa leva, apaixonou-se por crioula, com ela casou e teve filhos. Em Cabo Verde ficou, cubano sempre, castrista sempre, mas preso por amor à mulher encontrada no arquipélago. Criou empresa e, por agora, era vê-lo a melhorar estradas e acessos na Ribeira Grande de Santiago.

Portanto, Tércio y Tércio era caso à parte, não identificável com as “muñecas” que se serviram de estudantes cabo-verdianos de passagem na cooperação cozinhada por Cuba em tempos velhos, armadilhando-os nos seus braços em troca de um casamento que as tirasse da ilha de José Marti. Arribadas a Cabo Verde, passados uns anos, abandonavam os maridos, buscavam novo curso à sua vida. Nem identificável com aqueles que, nas ilhas do Cabo Verde, achavam pretexto para se distanciarem de uma revolução que lhes prometera paraísos, mas de que afinal desgostavam: vinham, metiam-se em negócios nada limpos, despiam a farda revolucionária e revelavam quanto ocultaram nas origens.

Hábil caçador, este cubano refutava que a mortandade causada entre os galináceos pudesse pôr em causa a sobrevivência da espécie.

- Reproduzem-se com facilidade. Deixá-los por aí, eras prejudicial na agricultura: não escapava semente. Até deviam darme gracias.

Para provar a tese de que a multiplicação desregrada trazia prejuízo para o arquipélago, recordava o havido na vizinha ilha do Maio: as galinhas do mato sobrepovoaram de tal modo o interior daquela ilha quase plana, a coberto do arvoredo que fornecia madeira para fazer carvão, que assolaram Porto Inglês – invadiram casas, lojas, tornaram-se praga, acabando por ser abatidas em massa. 

Num aparte, explicou ele:

- Trouxeram da Guiné a galinha-do-mato e não pensaram que em Cabo Verde não há predadores. Foi por isso que, mais tarde, tiveram de importar um, vindo de Cuba – yo!


III

O terreno de caça escolhido pelo cubano sempre foi a vasta achada para lá de Salineiro, onde a plantação de acácias se deita a perder de vista: uma barbaridade. Quem não identifique a árvore maligna, ao ver o estendal pensará que se trata de algum pomar, tal as acácias se alinham a distâncias regulares. Tratou-se de terrível maldade cometida contra o país nos anos seguintes à declaração de independência, quando se sonhava com os “morangos do nordeste”: é que acácia (a chamada “acácia americana”) é infestante daninho, chupa do solo toda a água nele existente. Contribui para reforçar o sequeiro. Ainda se as plantassem em zonas de tarrafo… Mas não. Disseminaram milhares de acácias ao longo de quilómetros, num desperdício de dinheiro que mais empobreceu Cabo Verde.

- O autor deste crime devia ser enforcado numa acácia!, costumava barafustar Emerenciano que, por vezes, acompanhava Alfonso nas deambulações venatórias.

- Cala-te, respondia o cubano. E justificava: o plantio foi feito com boas intenções. Tinham a ideia de que, pondo árvores, adoçavam o clima e combatiam a desertificação.

- Com acácias? Deixa-me rir. A acácia é pior que o eucalipto. Mas o eucalipto, apesar disso, ainda serve para a indústria de celulose e para a carpintaria. A acácia para nada serve: quanto muito, dá carvão. Não é por acaso que em grande parte do mundo as arrancam e as consideram uma praga.

De facto, a estupidez do plantio de acácias reforçou a seca e ainda mais erodiu os solos. Dói o coração ver o massacre perpetrado contra a natureza, um massacre que teve antecedentes no século XIX, quando o Governador Martins decidiu colocar as primeiras daquelas árvores. Se Martins deu mau exemplo, no século XX abusaram. E merecerá homenagens quem tiver a ousadia de as mandar arrancar e substitui-las por marmeleiros e figueiras ou, porque não?, alfarrobeiras que por aqui se terão adaptado bem, fazendo fé na toponímia do município: lá está Alfarroba, na falha que se avista em Chã Gonçalves.

É no mato de acácias que as galinholas se escondem, voando em bandos por cima das árvores quando o sol se encaminha para poente – saúdam o aliviar dos calores que abrasam a achada, do mesmo modo que as cabras, as vacas, os burros e os porcos se animam com a promessa de sombras.

O sol a pino, vertical sobre a achada, não assustava Tércio y Tércio. Fazia-se ao empedrado ou aos trilhos tumultuosos do leito seco das ribeiras, conduzindo a sua pick-up pintada de camuflado como se fosse militar – era um assumir da sua antiga identidade de oficial do exército de Cuba. A camuflagem, contudo, tinha aqui um efeito contrário: não a disfarçava, dissolvendo-a na paisagem, antes a anunciava ao longe. “Lá vem o cubano!”, gritava-se mal se avistava à distância a estranha carripana. E Alfonso deliciava-se em dar nas vistas.

Ninguém estranhava suas andanças, mesmo no forno das tardes. Preparava-se o cubano para zarpar da Cidade Velha, já sentado ao volante da carrinha, quando avistou Emerenciano atravessando a rua do Calhau. Reclamou-o:

- Ei, quieres vir para Belém? Emerenciano aceitou o convite: “Não tenho nada para fazer esta tarde. Porque não? Vamos nisso. Vou contigo”.

Emerenciano acomodou-se no lugar do pendura. Alfonso avançou para Caniço e meteu para S. João, buzinou à passagem pela loja de Djon-Djon e trepou o monte até à bifurcação para Chã Gonçalves. Depois, foi o árduo caminho para os altos que encerram, nas suas dobras, a pacatez de Belém.

De súbito, correndo no trilho, duas galinholas atarantadas procuraram refúgio entre as acácias. O cubano travou. Com agilidade insuspeitada em sexagenário, Alfonso estendeu o braço para trás do banco onde a caçadeira dormia. Levou a arma à cara e, ainda dentro da viatura, apontou pela janela aberta. Desfechou. Um estrondo abafou o susto de Emerenciano, que quase saltou no assento, enquanto uma galinha-do-mato tombava sobre a terra seca e dura e a sua companheira levantava voo, assustada.

- Porra, cubano! Fiquei surdo. Estou surdo. Disparar dentro da carrinha não lembra ao diabo, xiça!
Alfonso riu-se e foi buscar o troféu tombado na secura. Emerenciano saiu da pick-up, agitando a cabeça, a polpa das mãos a espremerem-se sobre os ouvidos.

- Raio de macaco, este cubano. É mesmo maluco.

- Non puedes ser soldado, muchacho. Te susta un simples disparo! Si combatieras en la guerra…

Alfonso Tércio y Tércio tinha agora pretexto para desenrolar memórias da sua guerra de Angola, onde integrara, como oficial de engenharia, o corpo expedicionário ido de La Habana em socorro do MPLA. Estivera no Cuito Canavale, na ofensiva sobre o Huambo.

- Isto foi só uma cartucheira. Si audiras disparo dos canhões como era? Te emierdavas...

- Eu não sou soldado, não estou numa guerra. Convidaste-me para vir contigo a Belém, não foi para andares por aí aos tiros.

Emerenciano estava irritado. Mas tinha de fazer das tripas coração e aguentar. A alternativa era regressar a pé à Cidade Velha, quilómetros à torreira, que automóveis a passar por ali eram coisa mais que rara. Rosnando pragas, foi-se acalmando. Para isso servem os raios e coriscos.


IV

Do boteco de Xinda Veiga, em S. Domingos, à cândida esplanada de Mosquito Horta, o churrasco de galinha-do-mato é pitéu cobiçado. Aquela carne, rija e fibrosa, agarrada ao osso, faz as delícias de muita gente e justifica deambulações por estradas difíceis – estradas é uma maneira de dizer. Como se diz que o cubano é fornecedor das churrascarias. É boato. Ninguém alguma vez o topou em tal tráfico que, de resto, nem sequer é crime. A galinhola não está em extinção, não há quem reclame por licenças de caça nem há taxas para esta atividade. Nenhuma regulamentação existe.

Não faltam especialistas nesta caça que não precisa de ser furtiva. Certo é que Alfonso gostava de patuscadas, de convívios com amigos, cerveja e grogue a correr. E assados, até porque os cubanos são exímios no churrasco. Fama têm-na. 

Alfonso Tércio y Tércio, certa feita, congregou roda de amigos para pachorrenta tarde de domingo em Achada de S. Filipe, à saída da cidade da Praia, por Monte Vaca. Vieram uns vinte à requisição. E o cubano esmerou. Queria fazer prova da habilidade islenha, nisto rival de filipinos no tratamento de um bom porco assado.

Suíno bem calibrado comprado dias antes, ainda teve tempo para rondar as ruelas rurais da Achada. Foi morto, com facada certeira, na véspera da comezaina. Guinchou e sangrou, patas amarradas e espadeirantes, antes que se fizesse a sorte de queimar as cerdas, precedente do desmonte das miudezas. Tudo a cargo do cubano, que só ele teve alforria para matador, talhante e assador.

Ficou a carne a esfriar de um dia para o outro, no pela-manhã lá estava Alfonso a cavar um buraco de mais de dois metros de comprido para, no fundo, espalhar carvão e lenha que alimentassem quanto bastasse o demorado braseiro que se anunciava. Para espeto, escolheu vara aparentemente apropriada: lenho grosso e extenso que, enfiado do traseiro à focinheira do bicho, iria permitir rolar o cerdo sobre o baile das chamas. Tudo de acordo com os preceitos, explicou ele:

- É assim que se hace en Cuba.

Sentou-se à beira da fossa ardente. Com impressionante calma avisou:

- Vai levar cinco horas a assar. Necessito que, de meia em meia hora, alguém venha aqui rodar o espeto para que o porco fique bem tostado. E isto cansa.

Voluntários não faltaram - entre eles, Emerenciano que, nessa tarde, acabara de conhecer o cubano, início de alongada amizade. 

Alfonso estava deliciado: ensinava arte a cabo-verdianos. De certeza que nenhum catequista se sentiria mais feliz a ensinar doutrina a efebos. O cubano estava no oitavo céu. A mão direita, descaída ao nível do joelho, segurava o espeto e, num alarde de força, rodava o pau e a sua carga.Com languidão. Com perícia. E a atmosfera emprenhava-se de um odor salivante: cheirava a crestagem de carne gordurosa. O rosto de Alfonso falava por si – do seu deleite, do seu quase orgasmo.

Em dado momento, um estoiro: o varapau que servia de espeto, cansado do suíno que aloirava ao lume, ardido de chamas e de fumo, rompeu-se e despejou o porco sobre o braseiro. Atiçadas pelo derrame e pela gordura pingante, as labaredas cresceram, afugentando tentativas de salvamento. A carcaça condenou-se a torrar até ficar carvão.

O cubano olhou o desastre. Triste e sem palavras. Levantou-se com pesar, mirou a cova aberta por suas mãos. E despediu-se do manjar. Só Emerenciano se pronunciou:

- Pronto! Ficámos a saber como se assam porcos em Cuba!

Alfonso mirou-o de alto abaixo, com o espesso sobrolho alteado. Depois, aproximou-se do rioleiro e deu-lhe um abraço. Ficaram amigos.


V

Entre o desastre da Achada de S. Filipe, na Praia, e a arcabuzada de Belém onze anos transcorreram e cimentaram amizade entre dois homens que, oriundos de pátrias diferentes, Cidade Velha reuniu: cinco séculos após alfa, a histórica urbe mantinha-se globalizante. Perdera muito do seu umbigo oceânico que a prendera e soltara do ventre do tempo. Já não era porto, nem visitada pelas armadas, os veleiros do antigamente já não se arriscavam para fundear perto da eminência dos escolhos e recifes atemorizadores como quando o mar era o acesso único à cidade encaixada no vale que muralhas de rocha vulcânica defendiam e isolavam. Os séculos talharam estradas pelas encostas e corroeram-lhe a memória da origem – fixaram a Ribeira Grande ao chão da ilha, deceparam-na dos seus braços marítimos, mas não destruíram o cadilho: continuou a ser o laboratório onde se amalgamavam fluxos diferentes que convergiam para uma mesma massa de diferenças, para uma comunidade onde o elo comum era o diverso. Esse continuava a ser o milagre, o mistério e o encanto da Cidade Velha: a sua origem e o seu destino.

Alfonso viera de Cuba. Emerenciano de Portugal. Cidade Velha os juntara. Cada qual com o seu percurso e a sua identidade, consideravam-se hoje ambos tão cabo-verdianos como os cabo-verdianos. E ambos assumiam Cidade Velha como bandeira. Estranho vazadouro aquele… Talvez lugar nenhum do mundo tivesse igual condão para reunir o antes disperso e com ele construir os elos de uma corrente.

Emerenciano e Alfonso tinham o crioulo como o esperanto do seu diálogo. Deformavam-no, reconstruíam-no, reformulavam-no, tropeçavam na sua gramática e inventavam um crioulês no qual se entendiam. A língua da terra, tal como no início dos tempos, continuava a refazer-se, mercê dos contributos que ali desembarcavam e desprezavam cristalizações. Por isso mesmo era crioulo e recusa do definitivo, matéria-prima e plástica, húmus sempre renovado e renovável.

Contrastavam. Alfonso era guerreiro, reivindicava o seu passado militar e a espingarda era parte de si mesmo como os braços, as pernas, a boca ou o sexo. Emerenciano proclamava-se pacífico e pacifista, mas a companhia do cubano era-lhe tão prestimosa como o bode o é para a carraça. Completavam-se. Tornavam-se indispensáveis.

Homem de armas, o cubano disparava por alimento. A bala não lhe fazia sentido se não trouxesse provisão. Em Angola tomara o vício da caça. Em Santiago de Cabo Verde, a galinhola valia-lhe agora de antílope ou de pacaça. E, sempre que podia, metia-se pelos matagais de acácias e espinheiros em busca de alvos. Torcia o nariz quando Emerenciano o admoestava: que as galinhas do mato eram bem comunitário e, como tal, a comunidade deveria ser ressarcida do abate; que à caça só tinha acesso quem pudesse comprar arma e munições, pelo que a melhor fortuna deveria ajudar os desfavorecidos – defendia o licenciamento dos caçadores, tanto pela necessidade de preservar as espécies, tanto pela justeza da redistribuição das sortes. Mas, dizendo-se embora socialista, Alfonso Tércio y Tércio chegando aí, estancava: era socialismo a mais, dizia.

Não abdicava do seu exercício. Todas as semanas empunhava a caçadeira e internava-se por achadas e cutelos. Dois ou três disparos, recolhia os despojos e regressava feliz, repartindo depois a carnuça pelos amigos. Mas nem sempre os azimutes certificavam o seu mapa. Exemplo foi uma vez que a caçadeira desfechou sobre cabrito, o que deu protesto dos aldeãos. Desculpou-se: pensava que o caprino não tinha dono, que também houvesse por ali “cabrito do mato”. Haver, havia, mas não era o caso. 

Na verdade, tudo se perdoava a El Predador. Popular, acamaradava pelos lugares, gostava de ajudar no que podia – um conselho, um alvitre, a reparação de um artefacto. E não recusava farra para que fosse convidado. Era o “cubano”, personalidade famosa desde a Malagueta até Monte Tchota.

Porém, certo dia, o caldo quase entornou devido a erro de montaria. Foi pelas bandas de Santana. Alfonso abandonara a carrinha e galgou uma barreira. Tinham-lhe dito que no vão de uma ribeira seca vadiavam cabritos do mato, dos verdadeiros.

- Cabritos do mato, de verdad?, inteirou-se.

Que sim. E ele que ansiava estrear-se na modalidade! À distância, divisou enganadora mancha, atrapalhada pelas ramarias na hora de lusco-fusco. Não era mais alta que uma cabra, de pelagem parda escura. Levou a arma à cara, apontou. Disparou. O vulto tombou. Era um jumentinho, pequenote como são os asininos de Cabo Verde. Os olhos dóceis e sofridos no estertor ainda viram o cubano aproximar-se e estarrecer.

Desde então, Emerenciano, para o arreliar, atazanava-o quando ele regressava das caçadas:

- Ei, Predador, encontraste hoje burros do mato?

Tércio y Tércio respondia com sorrisos. Era bravo apenas nas caçadas.

domingo, 14 de abril de 2019

[0061] Prémio Literário João de Araújo Correia

Comemorando os 120 anos do nascimento de João de Araújo Correia, o PEN Club de Portugal promove na Régua, em colaboração com a respectiva Câmara Municipal e a Tertúlia, o evento CIDADE DO VINHO 2019, tendo por base o conto, seguindo o exemplo do "mestre", estimulando a criação literária em Língua Portuguesa. Com periodicidade bienal, é instituído o Prémio Literário Nacional João de Araújo Correia.



sexta-feira, 12 de abril de 2019

[0060] Mário Pereira, a moral de um bago de feijão


Do escritor angolano Mário Pereira, Contos da Tinta Permanente trazem aos seus leitores um texto que, traduzido do umbundu, é como segue.


O BAGO DE FEIJÃO

1. Era meio-dia, na região da Kabala em Luanda; em Kaxombo e Kaswalala no Dondo; igualmente em Pungu a Ndongo em Malanje, e o solo erguia, naqueles lugares, uma haste encimada por um bago de feijão dividido em duas partes iguais. 

2. Mais um ser vivo, daqueles que dão vida à vida, acabava de mostrar que a natureza, ela mesma, tinha o dom de acordar, com uma simples gota de orvalho, qualquer ser que, vivo, ainda se queira manter. 

3. Exausto, o bago espera, esperançado, que ele mesmo vire rebento que faça vir na haste aprumada, a verde folha que enleva quem do prato à boca o leva. 

4. No manto verde onde se apruma, mil e um vermes o atacam, da raíz à folha, no vil intento de o terem à boca, mastigada, para saciar a interminável fome que os acompanha até à morte! 

5. Ao contrário, muita mente labora para ver o vil carrasco tombar a vida em veneno que o banha até finar, para gáudio de quem espera ter o bago impune; sem o furo onde se acoita o bicho que o molesta até à invalidez.

6. Só assim, o bago, unido a outros comparsas da mesma espécie, ganha o  vigor que alimenta um povo, uma nação! 

7. A fome, como fonte impulsionadora do trabalho, que ironia, leva à labuta quem longe a quer ter, para vencer o terror que causa, quando assenta em lugar onde a gente mora; no estômago dolente que ele adora! 

8. Matar a fome é matar o verme que leva à morte quem se levanta ao sugar a água que o alimenta, em combinação com a terra que é santa, quando levanta a haste que uma semente gera sem ser molestada por um bicho qualquer que a espreita! 

9. O baguito, não querendo entrar sozinho na boca de quem o espera com a ansiedade de um glutão, chama os amigos da mesma rua e, mergulhados em molhos vermelhos da polpa de dendém, unem gente que se senta à mesa ou numa esteira pousada no chão; gente que delira com eles na boca, enquanto o mufete se acalma no prato! 

10. E, quando o odor da morte enferma a alma da gente que vê fugir quem ama: um amigo de longa data; um conhecido ou vizinho da rua de trás, vêm a correr mergulhados na kanjika obrigatória no dia das cinzas, de modo que é imoral quem ouse imaginar deixá-los de fora, o que a acontecer, a sua ausência tem o significado de que a cinza não foi varrida, o óbito não foi terminado e, para ser mais explícito: o óbito ficou pendente! 

11. A imoralidade atinge o seu máximo limite quando o cidadão que é meu vizinho esconde a panela do feijão só para sentir, que egoísmo, para si, o odor que diz ser bênção que o Senhor mandou; quando supõe que o direito de o ter à sua frente é exclusivo à sua pessoa!

quinta-feira, 11 de abril de 2019

[0059] CPLP. Seminário sobre a língua portuguesa


A CPLP leva a cabo na Fundação Oriente (Avenida de Brasília, Doca de Alcântara, Lisboa), a 2 de Maio próximo, a partir das 15h00, o seminário “A Importância da Língua Portuguesa para as Gerações Futuras”. O seminário faz parte das celebrações do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP.

terça-feira, 9 de abril de 2019

[0058] J. M. Carvalho-Oliveira, reincidente nos CTP

J. M. CARVALHO-OLIVEIRA
Carvalho-Oliveira reincide nos CTP com um conto castrense em que participam personagens reais, pois a história também o é... Quanto a SN, é a sigla alterada de uma figura importante da cultura portuguesa. E mais não dizemos...


CRIME LEVE, CASTIGO LEVE...

Só hoje entendi, através do que o S. N. me contou, uma história que se passou comigo enquanto estive na tropa nas Caldas da Rainha, há uns sete anos.

Um domingo, estava eu de oficial de dia ao regimento, recebi a informação de que um civil estava ao portão e queria falar comigo. Deparei com um indivíduo dos seus quarenta anos, vivaço, que trazia consigo dois soldados. Tinha-os apanhado na sua fazenda a roubar fruta. Nunca liguei muito a burocracias de tropa - fazer continência, usar bivaque, etc. - mas sempre reagi ao roubo. E aqui neste caso não tinha sido o simples apanhar de um cacho de uvas à mão de semear: os soldados tinham galgado o muro da propriedade e estavam a banquetear-se de maçãs quando foram surpreendidos pelo proprietário.

"Obrigado por tê-los trazido. Vão ser devidamente punidos. Peço-lhe desculpa pelo que eles fizeram." Devo ter dito isto de uma forma muito séria. O homem imaginou de repente que eu iria estragar para sempre a vida aos rapazes e arranjar-lhes cadastro criminal. O caso não é para tanto, terá ele pensado. E quis falar comigo em particular. "A participação oral está feita. Roubar é mau, seja na tropa, seja fora dela. O serviço militar também faz parte da educação", retorqui-lhe eu. Entretanto, o homem terá feito subrepticiamente um sinal aos soldados, que desapareceram.

Admito que fiquei fulo. Logo que me despedi do civil, mandei tocar a reunir. Com uns cem soldados em formatura - não havia mais por ser domingo - passei-lhes revista para tentar descobrir os "fugitivos". Só me lembrava das sobrancelhas enormes de um deles: outros soldados brincalhões costumavam até dizer-lhe "Deixam-te andar aqui na tropa com o cabelo tão crescido?" Divisei-o facilmente, lancei-lhe a mão ao ombro e berrei-lhe ao ouvido: "Onde é que está o outro?" Indicou-mo de pronto. Mandei destroçar o grupo e, juntamente com os dois soldados, fui para o meu gabinete redigir o auto. Entregá-lo-ia pessoalmente ao comandante no dia seguinte.

O comandante, Álvaro Salgado, era um imponente coronel, de costas bem direitas e rosto anguloso, marcado por um trejeito especial que lhe dava um ar particularmente severo.

Severo deverá ser o castigo que ele lhes vai dar, pensei eu. Mas pensei mal. Os dois soldados mais não receberam como punição do que duas guardas cada um. Era o castigo mais leve que se podia imaginar. Confesso que não entendi. Perguntei a mim próprio a razão daquela não-austeridade de uma pessoa de tão poucas palavras e aparentemente rigorosa em extremo.

Hoje o S. N. contou-me a história que eu desconhecia do Álvaro Salgado. Quando tinha ainda a patente de capitão, ele estivera em Macau em comissão de serviço. Aí, amante da vela, tinha-se aventurado um pouco mais num snipe e, inadvertidamente, entrou em águas da China. Foi preso pelas autoridades chinesas, alegadamente por espionagem. O pobre do Salgado viu-se atirado para uma cela, onde foi interrogado várias vezes, sem obviamente confessar nada porque nada tinha a confessar. No princípio do seu cativeiro, guardas irrompiam de noite pela sua cela dentro e sujeitavam-no a novos interrogatórios. Obrigavam-no depois a mudar de cama para lhe criarem maior instabilidade.

Aos poucos, porém, os chineses convenceram-se de que Álvaro Salgado não era espião. Dados os seus bons conhecimentos de línguas que recebera na Escola Alemã do Porto, acabou por ser convidado a colaborar com a China em emissões de rádio para o estrangeiro em língua alemã e inglesa. Do mal o menos. Ele aceitou.

Entretanto, em Portugal a sua família desdobrava-se em esforços para conseguir tirá-lo da China. Mas não era fácil. Um amigo, o Professor Ruy Luís Gomes, intercedeu junto do governo francês para que, através dos serviços consulares na China, os franceses dessem uma mão a Álvaro Salgado. Só ao fim de sete anos é que esta longuíssima cunha - do extremo ocidental da Europa ao Extremo Oriente - funcionou. Razão imediata: o estado periclitante de saúde da mãe de Álvaro Salgado.

Saiu da China o capitão Salgado, via Hong-Kong. Aqui foi questionado por um agente da CIA sobre o que tinha visto durante a sua longa estadia. A China era então um país muito fechado aos ocidentais e toda a informação podia ser importante. Salgado contou-lhe a sua história e as suas vivências com um certo detalhe. Quando, a certa altura, lhe narrou que, numa das suas forçadas mudanças de cama na prisão, tinha encontrado uma tarimba com os dizeres Bill slept here, o agente pediu-lhe que repetisse. Nem queria acreditar. Aquele Bill só podia ser o piloto de um avião U-2 americano que tinha em tempos sido abatido quando sobrevoava a China e que as autoridades chinesas tinham oficialmente declarado morto. Agora os americanos poderiam reencetar acção diplomática para o recuperar. O agente agradeceu muito ao oficial português a sua colaboração e disse-lhe que não hesitasse em recorrer a ele se por acaso tivesse algum problema.

Reentrou o nosso homem em Macau. Foi recebido como herói. Manifestações sobre manifestações e bebedeiras de oficiais sucederam-se umas às outras. Mas ele tinha que regressar a Portugal, o que fez de seguida. Aqui, ainda lhe deram a oportunidade de ir ver a sua mãe ao Porto e depois… prenderam-no! Ficou na Trafaria, onde se encontrou com o S. N., que assim soube da sua história. A polícia prendeu-o sob a alegação de que era comunista: vinha da China e tinha ligações com o Professor Ruy Luís Gomes. Além disso, colaborara com os chineses.

A situação não era brilhante. Álvaro Salgado lembrou-se do seu amigo da CIA e tentou por seu lado uma longuíssima cunha, mas em sentido inverso. Por intermédio de amigos conseguiu o contacto com o agente americano. De Hong-Kong veio a certa altura uma carta para o adido militar da Embaixada Americana em Lisboa. Que contactou Salazar. Este, talvez algo relutantemente, mandou soltar Álvaro Salgado, que entretanto passara mais de dez meses na Trafaria. O exército português fê-lo promover ao posto de coronel e colocou-o como comandante do Regimento das Caldas da Rainha. Onde eu o fui encontrar.

Compreendo agora perfeitamente a razão por que ele não deu mais que duas guardas de castigo aos soldados por terem roubado de uma propriedade privada um punhado de maçãs numa tarde de domingo.

Lisboa, 12 de Novembro de 1967

sexta-feira, 5 de abril de 2019

[0057] Hoje nos CTP, um conto malicioso de J. M. Carvalho-Oliveira

J. M. CARVALHO-OLIVEIRA
Uma estreia nos CTP de José Manuel  Carvalho de Oliveira (J. M. Carvalho-Oliveira como nome literário) que tem uma "arca" recheada de bons contos que aqui apresentaremos a partir de agora. 
Para início, este "religioso"/delicioso/malicioso texto.


UM SÃO CRISTÓVÃO DE OURO

"É no nosso quarto que o S. Cristóvão vai ficar. No carro podem roubar-to."

E podiam, de facto. Uma imagem de S. Cristóvão, mesmo pequena mas toda em ouro maciço, é sempre uma tentação.

Tudo começou quando o Sampaio, que tinha uma bela alfaiataria ao Saldanha, recebeu a notícia de que a Leonor vinha sozinha à metrópole passar férias. A Leonor, sua antiga namorada. Ela casara entretanto havia já uns anos com o engenheiro Castro, que a levou para obras demoradas algures numa barragem em Moçambique. A Leonor ansiava por rever o seu António Sampaio. Em Lisboa já não tinha muitos contactos e sabia como ele estava bem estabelecido. Seria possível reviver com ele os fabulosos momentos do seu quente namoro? 

Para o Sampaio, a visita de Leonor era o quebrar da monotonia de um verão tórrido de Lisboa, um sair do rame-rame de atender o senhor Comendador e mais o filho, os diplomatas que profissionalmente recebia com o melhor dos sorrisos e a quem procurava atender com a última moda em fazendas e feitios. A alfaiataria, uma casa que "valia um dinheirão, tanto pelo local como pela clientela", como lhe costumavam dizer, era o seu orgulho. Mas agora sabia-lhe bem pensar que poderia voltar uns bons anos atrás, dar umas bem-vindas escapadelas da vida de casado. 

A Leonor arquitectava sensivelmente o mesmo para a sua estadia na metrópole. Um dia após chegar, malas esvaziadas e vestidos arrumados, telefonou ao Sampaio a combinar um encontro. "O que as Áfricas fazem às pessoas!", disse-lhe o Sampaio quando se sentou à mesa onde ela o esperava, ali perto na Versailles. "Estás linda!"

Foram dois meses e meio de lua de mel. Uma vez por outra o Sampaio ainda dizia à mulher que ia a casa de uns clientes especiais tirar medidas, mas no geral não precisava de dizer nada. Ela tinha uma confiança cega no marido e o pessoal da alfaiataria nunca o iria atraiçoar. O casalinho não se afastava geralmente muito de Lisboa. Sintra, Seteais, Colares, Ericeira, Azeitão, Sesimbra. O Volvo do Sampaio adorava aquelas estradas, os bosques românticos de Monserrate, a Pena. 

Aos domingos, o Sampaio saía como habitualmente com a mulher, tomando por vezes inadvertidamente estradas algo idênticas, parando para o chá habitual e ligando o rádio para saber o resultado de um jogo ou outro ou da Volta a Portugal.

Chegou, inevitavelmente, a hora da despedida. A Leonor remoçara. O Sampaio também. Fora bom para ambos. "Gostaria muito de deixar-te algo que te lembrasse de mim: uma coisa que pudesses trazer no Volvo." E ofereceu-lhe uma bonita imagem em ouro do santo protector. "Logo em ouro!", disse o Sampaio para o seu empregado mais antigo, o Sousa, depois de a Leonor, chorosa, ter partido de volta a Lourenço Marques. "Como é que vou sair desta?"

Duma maneira fácil, afinal. O Sampaio combinou com o Sousa que ele e os outros empregados lhe iriam oferecer pelos anos, em Outubro, a estatueta. Até lá ela ficaria guardada numa gaveta da alfaiataria.

Foi um Sampaio teatralmente orgulhoso pela prenda dos seus empregados que exibiu o S. Cristóvão à mulher. Que ficou ainda mais orgulhosa. "Mas é um perigo andares com ele no Volvo. Se sabem que é de ouro, partem-te os vidros do carro  e roubam-no. O melhor é pô-lo no nosso quarto."

Nunca mais vi o Sampaio, que entretanto vendeu a alfaiataria a um banco. Não tenho razão para supor, no entanto, que o S. Cristóvão não se mantém no quarto dele, onde a D. Ernestina o contemplará embevecida. O São Cristóvão ajudá-la-á a dormir descansadamente. Ele sempre ajudou nas viagens.

sexta-feira, 15 de março de 2019

[0056] Um conto do moçambicano Mauro de Brito

Do escritor moçambicano Mauro de Brito chegam a “Contos da Tinta Permanente” estes segredos da época da chuva. Para saborear com deleite.


SEGREDOS POR BAIXO DA CHUVA

Foi no quintal do farol abandonado no topo de uma verde colina feita em dunas, que a Kianga e o pangolim Mabeco se deram a conhecer, no habitual passeio da manhã da menina Kianga, que era feito a caminho da escola.
Entrou pelo edifício, que há anos tinha sido abandonado, ficou a fingir ver baleias e outros animais do mar, anunciando ser uma grande capitã e que estava ali para pôr ordem nas coisas, que o mundo lhe parecia estar ao avesso. Junto à janela, com seus olhos redondos e vivos, pôs-se a contemplar o sol abraçando a terra. Aconteceu que apeteceu-lhe ir ao quintal, onde havia algumas árvores de fruta e um capinzal, de onde viu distinguir-se do verde, um conjunto de escamas dispostas em camadas em tons de castanho claro, instantes depois dois pequenos olhos chamaram mais a sua atenção, sem muita demora, o desconhecido mexeu-se e enrolando-se num repente; primeiro houve um susto por parte da rapariga, mas depois deixou-se ficar um instante, em observação e esperava alguma outra reacção.
Ao contrário do que ouvia, decidiu aproximar-se e ver de perto, tratou de desmanchar o emaranhado de capim em que se escondia o desconhecido. Deu-se conta no momento, que se tratava de um pangolim, vinham-lhe à memória, imagens de vários animais sobre quais aprendera nas aulas, e agora tentava distingui-lo dos outros.  
− O professor tinha dito que se chamava pangolim. Para o espanto dela, o pangolim emitiu algumas palavras:
− Não me faça mal, sou um amigo. Tratou de chegar mais perto e saber mais. Aos poucos o medo e receio se desfizeram.
A partir daquele dia, aos poucos, tornaram-se amigos. E assim o farol, passou a ser o ponto de encontro. O que era um acaso, passou a ser frequente, ali brincavam e jogavam nas horas livres, contando cada um, histórias do seu mundo, os encontros eram secretos, pois segundo orientações dos mais velhos “não deviam brincar com desconhecidos”. Assim, guardaram esse segredo a sete chaves.
Havia passado mais de três meses desde o último encontro, para a inquietação da Kianga. Embora com ausência do seu mais novo amigo, continuou a frequentar a colina e o farol, onde se deliciava com frutos da época como massalas e canhú, também com a agradável vista do mar.
A colina era um lugar de incomum beleza. Para além do farol, também havia dunas que chegavam a cerca de 15 metros de altura, com camadas de vegetação rasa, com flores escarlates, que apenas ali cresciam, fazendo ser motivo de comentários variados. “É um lugar estranho, o melhor é que ninguém vá la”, diziam os mais velhos; facto que não era levado a sério pela criançada. Ignoravam, e cada dia, a colina se tornava mais famosa e lugar preferido para as brincadeiras de outros meninos, antes e depois das actividades escolares. A época chuvosa, apesar de curta, e de chuvas abundantes, quando estas caíam, era sinal de boa época para sementeira e consequentemente excelente colheita, dias de festa e de muita alegria. E assim foi nos meses seguintes, entre o intenso sol, calor e chuvas. O pangolim que vivia distante da povoação, aparecia sempre nas manhãs frescas, quando ainda as nuvens não inundavam o céu limpo, em contraste, o verde reluzente dos arbustos, da folhas das árvores que apenas ali eram possíveis avistar. Para Kianga, a queda da chuva não era apenas isso, mas algo mais, e relacionava-se com a chegada de Mabeco.
Embora tudo corresse bem, e se tornassem mais próximos, o facto de o Pangolim andar ausente nos primeiros meses do ano, não a deixava tranquila, tinha que descobrir o que acontecia. Algumas pessoas do povoado assim como os parentes da Kianga, ficaram a saber que havia um animal que rondava por ali, no que alertaram a que todos evitassem andar por caminhos desconhecidos, estes acreditavam que os pangolins estavam ligados a maus agoiros e uma ligação com eles era como condenar o destino ao fracasso, atraindo azar para a comunidade, contestado por Kianga, pois Mabeco nunca tinha causado algum mal, desde que se conheceram, conviviam com tranquilidade e harmonia mas por insistência dos pais, prometeu fazer algo...
Estava uma manhã fresca, sem raios de sol, por cima de toda folha ainda via-se as gotas de água da chuva do dia anterior. Mabeco decidiu pela primeira vez, sair do quintal para visitar a vila. Houve um encontro ao acaso, pelo estreito caminho, ladeado por massaleiras, que levava Kianga à escola. Pararam o passo, tendo-se cumprimentado e com desânimo atirou ao seu novo amigo, − olha, não devemos brincar sempre, sabes que muitos não concordam com isso. 
– Não há o que temer minha amiga, ripostou Mabeco, por acaso fizemos algo incorreto? Magoei-te? A nossa amizade é nossa amizade, e ponto final, desculpa, devo discordar de ti.
− Bom, é melhor esquecer o que nos entristece, vamos sim aproveitar o dia; vês como está bonito o mar? 
− Sim, está mesmo, gosto muito deste lugar − ripostou. Eu não gostaria de sair daqui para um outro lugar, e digo mais. Vou convencer o meu pai que não fazes mal algum e quem sabe até te deixar viver aqui sempre − ao que concordou Mabeco, fazendo vibrar o seu corpo em escamas, trançadas com tamanha mestria da natureza.
Mabeco não mais tocou no assunto, apesar dos comentários que andavam na boca de todos, embora assim estes mantinham uma firme amizade. Mas logo que a época chuvosa caminhava para o fim, e os sinais apareciam, os campos que de verde se enchiam, começaram por ficar secos, os rios que andavam a transbordar meses antes, agora via-se as margens em bancos de areia. Por outro lado a vista do mar mudava de cara. E mantiveram a sua amizade, tendo conservado o lugar no quintal do farol e a sua visita sempre a coincidir com o verão e a época chuvosa.