sábado, 12 de setembro de 2020

[107] Sessão de autógrafos de Ricardo Jorge Claudino na Feira do Livro de Lisboa (Pavilhão B31, 13 de Setembro, 14h00) - "A Cor do Tempo"

Ricardo Jorge Claudino nasceu a 10 de Abril de 1985 em Faro, transportado por um bando de cegonhas oriundas de Reguengos de Monsaraz. É licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Informação e Sistemas Empresariais. Em 2001 inicia a sua actividade profissional como programador informático, a qual exerce até ao presente, tendo passado por várias multinacionais portuguesas e holandesas. Com apenas 15 anos de idade escreve os seus primeiros poemas; mas ficam guardados. Só em 2019 decide acordar a sua poesia e logo participa na antologia A Vida em Poesia IV, publicada pela Helvetia Éditions. Conta também com publicações nas revistas Gazeta da Poesia Inédita e NERVO. A Cor do Tempo é a sua primeira obra publicada.

sábado, 22 de agosto de 2020

[0105] Pepita Tristão com nova obra literária. Apresentação de "Histórias de Amor e de Morte" decorrerá a 19 de Setembro, na Casa Sommer, em Cascais.

"Histórias de Amor e de Morte", da autoria de Pepita Tristão, e chancela da Emporium Editora, vai ser apresentado no próximo dia 19 de Setembro, pelas 16 horas, na Casa Sommer, em Cascais.

A cerimónia contará com a participação da autora do prefácio, a socióloga e escritora Maria Helena Ventura, que apresentará a obra.

Antes, no dia 12 de Setembro, a autora estará presente na Feira do Livro de Lisboa, no espaço da Editora Emporium, onde irá protagonizar uma sessão de autógrafos entre as 14 e as 15 horas.

Esta edição teve o apoio da Câmara Municipal de Cascais.
"Histórias de Amor e de Morte" é um livro povoado por mulheres que sonham, vivem sofrem e recomeçam ao longo de 16 contos anacrónicos, que têm por pano de fundo Portugal, as suas lendas, usos e história, com diálogos onde o real se funde com o onírico urdindo tramas de leitura deliciosa. Um corrupio de aventuras, ora divertidas ora dramáticas, que retratam também a evolução das mentalidades, através dos tempos.

domingo, 21 de junho de 2020

[103] Pepita Tristão e um terror em pontas

Pepita Tristão
A LENDA DE PÊRO BOI


Era uma vez uma linda menina de olhos cor do céu e longos cabelos louros que lhe escorriam pelos ombros em cachos de seda brilhante...

Era assim que começava a maior parte das histórias que minha avó me contava ao serão, fazendo-me sonhar com belas princesas e garbosos cavaleiros, sempre prontos a regatá-las de todos os perigos.

Para além da avó, também a minha querida Dadá, empregada de meus pais, me contava belas lendas de cariz popular. Mouras encantadas, almas penadas e tesouros escondidos, guardados por temíveis feras...

Claro que estas narrativas davam asas à minha imaginação, mergulhando-me num mundo onírico onde se viviam incríveis aventuras.

Mas não era a única a sonhar... contava-se na terra que certo indivíduo, cansado de ser pobre, decidiu quebrar um feitiço que diziam ocorrer junto à fonte de Pêro Boi, onde um rei mouro em fuga teria enterrado os seus tesouros.

Tencionando mandar recuperá-los mais tarde, e temendo ser roubado, o monarca transformou o seu vizir em touro, encarregando-o de guardar as riquezas que só deveria entregar a quem se aproximasse dele sem mostrar medo, numa noite de lua cheia.

Ora o nosso amigo já passara inúmeras vezes pela fonte, localizada numa quinta com o mesmo nome, onde, por coincidência, havia um touro bravo, sempre pronto a investir sobre quem se aproximasse, desprevenido,

Numa noite de lua cheia, o rapaz bebeu uns bagaços para lhe darem coragem e foi até à quinta de Pêro Boi, aproximando-se da fonte.

Quis o destino que o dito touro tivesse ido dessedentar-se a essa hora e, vendo que o homem se aproximava, invadindo os seus terrenos, investisse contra ele, não lhe dando sequer oportunidade de se arrepender da afoiteza.

Como resultado do embate, o destemido aventureiro foi parar ao hospital com várias costelas partidas. Se lá estava ou não o tesouro, nunca o soube e jurava nem querer mais saber, pois quando acordou do desmaio, apenas se recordava do bafo do monstro antes do impacto.

Dizia-se que só de ouvir falar do encanto, o desgraçado tremia de pânico.

In colectânea solidária "À Volta da Fogueira", Emporium Editora



domingo, 14 de junho de 2020

[102] Mais um conto de Sofia Cardoso, desta feita com asas a bater e zumbidos por todo o lado

Sofia Cardoso brinda-nos com novo conto, recentemente publicado na colectânea "À Volta da Fogueira",  pela Emporium Editora, de Almada

A MOSCA

Sofia Cardoso
A noite caíra. Festejos em cada recanto, atraiam corpos sedentos de apaziguamento. Na tenda, o fresco da noite tornara-se num hálito gelado. As constelações permaneciam mudas aos anseios dos humanos. Os insetos, enfrentavam a noite sem receios. Zumbidos cruzaram o ambiente. Os muscidae são dos insetos mais comuns, dada a sinantropia de algumas das suas espécies.

Ninguém parecia incomodado. A música, os fogos de artificio, o hálito a cerveja barata e morna, ofereciam um festim a cada um dos pequenos insetos que arriscavam a vida para que a sua prole sobrevivesse a mais uma noite, a outro dia.

Hematófaga - é próprio da sua natureza alimentar-se de sangue -, voou livremente durante algumas horas que lhe pareceram uma vida. A eternidade do ciclo, levou-a a concentrar-se. Contraiu as asas de modo a testar a capacidade de voo, zona superior bem posicionada, probóscide em posição final. O sistema de foco funcionou perfeitamente e nos últimos segundos a sintonia com a natureza atingiu o ponto mais elevado. De cócoras, um robusto espécime, tornara-se no recetor ideal. Nem chegou a ter qualquer tipo de pressentimento.

Muscidae é um dos insetos mais comuns, dada a sua sinantropia. Pousou ágil. Uma picada só. Pouco habituada ao contacto com o sangue dos audazes, jovens apaixonados e nobres de alma, caiu morta. Pouco elegante, mas missão cumprida. Morrera de barriga cheia e com um esgar de satisfação.

Se as moscas tivessem direito a ter sentimentos, hoje, este insignificante mas temido inseto sentir-se-ia realizado.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

[101] Novo colaborador nos CTP, José Manuel Oliveira leva-nos até Marte

MARTE
«Saber sem imaginação não passa de fita gravada.»
Agostinho da Silva

José Manuel Oliveira
“Então, um deserto vermelho...”

Estou de férias em Ars Vallis, um ponto no hemisfério norte de Marte, o qual não se consegue distinguir daí. Vim à boleia, através de uma nave chamada “Pathfinder” lançada pelos Estados Unidos em 1996 e torna-se difícil, mesmo penoso, procurar explicar tudo isto, como o consegui, quantas vezes tive de passar despercebido através de vários gates, convencer o chefe da NASA, um velho amigo meu da tropa, ou se estou a fantasiar  (para os mais cépticos), ou a aldrabar (para os mais sérios e ajuizados), porém o que é certo é que uma parte de mim continua por lá, tendo a outra regressado aqui à Terra no ano de 2001, daí o meu agora crescente fluxo de escrita enviado aos amigos ultimamente, diante de uma situação bastante mais caseira, pelos tristes e aborrecidos motivos que já todos conhecem.

Mas o mais interessante do caso, é que, enquanto por lá andava, enfiado numa tenda em formato de iglu, dias e dias a fio, alimentado a tabletes de amendoim, pastilhas vitamínicas e sumo de beterraba, a fazer chi-chi para uma garrafa de água das pedras, e já meio enfastiado por fixar o olhar durante horas e horas num pequeno écran que varria consecutivamente o espaço em redor de Andrómeda, procurando o mais pequeno indício de vida inteligente, (sei que vocês estão aí) aconteceu qualquer coisa de inesperado que, primeiro me deixou atónito e estarrecido, para logo de seguida me fascinar e a respeito do qual ainda hoje não me encontro lá muito bem certo, acerca da sua qualidade física, onírica ou imaginária.

Encontrando-me eu certa noite a dormitar, -  um sono dúbio muito ao de leve - surgiu diante de mim no interior da tenda, uma coisa que definiria mais ou menos como um quadro ou um objecto de Duchamp, entre o chamado “moinho de café” e um espelho com pernas: a coisa era como se fosse uma imagem holográfica que parecia palpitar, umas vezes de contornos mais nítidos e definidos, outras vezes parecendo quase evanescente a ponto de se esbater de encontro às paredes da tenda, e apresentando bem no seu centro um mostrador através do qual pareciam surgir, primeiro muito rapidamente uns hieróglifos, antecedidos por uns gatafunhos saltitantes prateados (a coisa procurava ler os meus pensamentos) e logo de seguida uma mensagem bastante nítida escrita em inglês correcto:  “Follow Me Now!”. Não tive qualquer dúvida de que se tratava de uma ordem superior e aceitei o desafio. Ergui-me lentamente, como se uma estranha e hipnótica força comandasse os meus movimentos,  procurei o fato pressurizado que utilizava durante curtos passeios no exterior, (há muito que estou habituado a andar mascarado) e saí para aquele deserto vermelho que já conhecia razoavelmente das anteriores imagens enviadas pelas naves “Viking” – ou julgava conhecer – antecedido da coisa que afinal de contas poderia muito bem ser mais um robot enviado para ali há muito, uma jigajoga mais actualizada, afinal nada de espantoso para os nossos dias, embora não tivesse sido informado daquela eventualidade por parte dos meus mecenas da Terra, nem jamais alguém me tivesse apresentado a criatura.

Para mim, Marte continuava a ser aquilo que sempre fora até aí, tanto para robots dotados de excelentes câmaras, como para os experts aí em baixo,  isto é, um infindável deserto de torrões vermelhos, uma montanha considerada a maior do Sistema Solar, o “Monte Olimpo”, que era um vulcão de uns 27 Km de altitude, mas que não se encontrava perto dali e, claro, imensas crateras e canais que indiciavam já ter existido água à superfície, pouco mais se avistando. Era considerado até agora como um dado adquirido não existir de todo vida em Marte e por conseguinte, aquela criatura só poderia ter saído de alguma linha de montagem na Terra... 

Segui então de perto o meu guia, estava fresquinho cá fora (o meu visor indicava uns vinte e tal negativos) até que passados cerca de seiscentos metros em relação à minha tenda, aquela coisa parou, iluminou-se-lhe subitamente o visor, surgindo bem no seu centro uma figura geométrica de alguma complexidade, várias e coloridas tonalidades, pulsou uma luz intermitente no centro de um círculo atravessado por várias rectas e, como que por milagre, do solo ergueu-se um enorme portal (tampa rectangular da côr do ferro), deixando à vista uma abertura do mesmo formato. Aproximei-me, e foi então que obtive a visão daquilo que se me afigurou ser uma enorme cidade brilhante e colorida, a qual se estendia ao longo de um enorme vale e perfeitamente encaixada numa colossal cratera rochosa, (se desejam uma imagem aproximada que vos possa ajudar, procurem visualizar aquele quadro do Lima de Freitas “Galafura”). Um caminho que me pareceu empedrado, descia suavemente até lá, pelo que a desengonçada criatura me fez seguir por aí os seus passos.

Digamos que se encontrava a cerca de dois quilómetros, o que estava perfeitamente dentro das possibilidades do meu equipamento. Durante o trajecto procurei, em inúmeras ocasiões, entabular qualquer espécie de diálogo na língua inglesa com o meu guia, porém sem qualquer resultado. Até que chegámos diante de uma coisa que se assemelhava a um pórtico descomunal, tendo apenas observado em toda a minha vida algo de semelhante em fotografias do antigo Egipto, ou na cidade submersa de Herácleon. A coisa uma vez mais, estacou diante do que parecia ser uma entrada em ferro, os seus circuitos brilharam intensamente e, abrindo-se um portão, surgiu do seu interior uma figura humana de mediana estatura, barba hirsuta e cabeça coberta por uma espécie de boina negra e longa que parecia de flanela. Tratava-se de um homem que segundo as minhas estimativas aparentava andar na casa dos seus trinta e tal anos, aspecto saudável, trajando à moda do Renascimento, pelo menos assim me pareceu, apesar do meu estado mental confuso e quase incapaz de reter quaisquer espécie de pormenores ou detalhes. Quando me voltei para trás, o meu “guia” mecânico pura e simplesmente tinha desaparecido, o que não só aumentou o meu desconforto, como me levou a despoletar diversos pensamentos ao mesmo tempo, nomeadamente a calcular a forma de regresso à minha tenda na superfície, fazendo o caminho de volta, quem me abriria a enorme passagem no solo e o que iria suceder no entretanto. Todas essas coisas quase me faziam estalar a cabeça, até que o meu hipotético anfitrião, percebendo a confusão em que me encontrava, simulou um gesto de forma a fazer-me entender que agora podia retirar o capacete sem qualquer perigo, apontando para si próprio e desenhando um gesto largo p´lo ar à sua volta. Hesitante, lá me convenci, ficando com a cabeça a descoberto. Nada se passou, era como se estivesse na tenda, e o ar parecia-me de facto respirável. Foi então que, aproximando-se de mim me estendeu a mão determinado, olhar franco e amistoso e atirou num português correcto: “Bem-vindo a Marte!”



Apertámos as mãos, atirando-lhe eu logo de seguida: “Agradecido. Mas quem é você, o que faz aqui e o que significa tudo isto? - “o meu nome é Gaspar, Gaspar Corte Real, e o que aconteceu é uma longa história, que poderei certamente contar-lhe mais daqui a pouco...”.  Mas, oiça, eu tenho pouco tempo de autonomia, - procurei explicar-lhe - eu vivo em função deste equipamento e tenho de regressar à minha tenda, na superfície, dentro em pouco. Compreende isto ? ” – “Acalme-se , tudo se arranja.Siga-me!”. 

Foi então que percorremos alguns metros e penetrámos no interior de um edifício idêntico a muitos outros existentes na Terra, como se se tratasse de algo entre um enorme refeitório e um snack-bar. Mandou-me sentar numa das muitas mesas, perguntou-me se desejava tomar uma bebida ou comer, ao que eu lhe respondi que não, muito obrigado, levantando-se não obstante, aparecendo logo de seguida acompanhado de dois copos de rum escuro. Colocou um dos copos na minha frente e disse - “Perdão, mas espero que aprecie isto.” – “Não tenho bebido ultimamente, como deve compreender, mas está bem, aceito de boa vontade.”  

Olhei em meu redor, tendo verificado com algum espanto que nas mesas à volta, embora a uma distância apreciável, assim como ao balcão, se encontravam as mais díspares figuras, trajadas das mais estranhas maneiras, homens e mulheres, as quais dificilmente poderia de um só golpe de vista, definir com exactidão. Algumas dessas figuras fumavam até desalmadamente.

O meu interlocutor fixou bem o seu olhar no meu e atirou: 

- Você estudou alguma coisa daquilo que vocês chamam na Terra, História?

- Mais ou menos, sim!

- Deve recordar-se então que nos finais do século XV os Corte Real, empreenderam diversas viagens até um local chamado de Terra Nova, cerca do Polo Norte da Terra!? Pois bem, eu pertenci a essa mesma família, primeiro foi o meu pai acompanhado por alguns amigos, o João Fernandes, o Álvaro Ornelas, Pedro Barcelos entre outros, que rumaram a essas regiões com algum sucesso, tendo regressado todos bem, e mais tarde, passados um ou dois anos, fui eu que acompanhado pelo meu irmão Miguel, resolvemos procurar ir mais além um pouco. Nós, os portugueses, sempre assim fomos. Aconteceu que conseguimos atingir um local onde havia um imenso deserto de gelo, tendo o nosso navio encalhado irremediavelmente. Ao fim de uma quinzena de dias, encontrávamo-nos num estado lamentável, já sem mantimentos e água, tendo parte da tripulação morrido ali mesmo no local. Tendo ficado inanimado, quando acordei, o meu irmão Miguel tinha desaparecido, não o voltando a ver. Foi então que vi aquilo, era como uma enorme cidade que pairava a uns metros do chão, naquele caso, do gelo. Emitia um clarão de tal intensidade que sempre pensei que iria ficar cego ali mesmo. Caí de novo inanimado, e quando acordei, não tinha a certeza se estaria morto ou vivo, pois encontrava-me deitado numa cama de tal maneira confortável, como nunca tinha visto ou sentido em toda a minha vida. Olhei em redor e pareceu-me estar num quarto fechado sem janelas para o exterior, paredes claras ligeiramente iluminadas, embora sem qualquer fonte de luz à vista,  sentindo apenas um leve e distante zunido, era como se estivesse numa cripta. Abriu-se então uma escotilha e foi então que eles vieram até junto de mim, acalmando-me, e procurando explicar-me não sem algumas dificuldades inerentes a conceitos científicos para mim (homem do sec XV) totalmente desconhecidos, como podemos saltar as chamadas linhas temporais que nos separam, atravessando épocas históricas tão remotas e diferentes, assim como a consecutiva confusão e perturbação que isso nos poderá causar, ao ponto de nos confrontarmos com situações e fenómenos de uma tal singularidade e magnitude, jamais por nós (humanos) imaginados. São os chamados “universos paralelos”. Já lhe direi quem eram estes «eles». Existe por exemplo uma teoria, que diz termos todos nós em qualquer recanto do Universo, um chamado “sósia”, o qual, mais tarde ou mais cedo irá inexoravelmente cruzar-se connosco. Irei em breve apresentar-lhe o seu, pois ele também se encontra por cá. Nada tema porque é o outro eu de si, já tive o meu próprio confronto e sobrevivi, trata-se de uma curiosa experiência, mas vamos guardá-la para mais tarde visto você ter de regressar em breve à sua tenda. 

Agora, vou contar-lhe como tudo isto funciona, visto você estar um bocado confuso: pois bem, levanta-se da mesa e vais buscar mais dois runs, acenando de caminho a uma jovem loira de tranças,  deveras atraente e de aspecto viking: 

Estas criaturas, tal como aquela que o trouxe até aqui, são máquinas, e foram elas que me resgataram igualmente da Terra, tal como já lhe relatei, quando do meu naufrágio ao Norte daquilo que vocês hoje chamam Estados Unidos. Têm a capacidade de tripular e conduzir naves como a que lhe descrevi há pouco, porém apenas no interior do nosso Sistema Solar, as de longo curso, isto é, do Espaço Exterior, essas é que são tripuladas pelos Senhores, chamados Santini, assim como de comunicar com quem entendam, na própria linguagem do contactado, tratando-se de máquinas de alguma complexidade. Assim me descreveram - o mesmo acontecendo em relação a todas as pessoas que aqui se encontram -, o que significa tudo isto e quem são os seus superiores hierárquicos. De facto eles encontram-se ao serviço de uma Civilização situada a vários anos luz daqui, a qual estuda minuciosamente a espécie humana em diferentes ciclos e épocas, sempre em plena liberdade. São máquinas que foram postas ao nosso serviço, podemos dizer “dóceis” embora se encontrem totalmente isentas de sentimentos, claro.

Foi assim que ficámos a saber que Marte já foi a nossa casa, quando os continentes da Terra ainda se encontravam em fase de definição, sendo a nossa primeira colónia lá instalada, situada no Continente da Atlântida, o qual mais tarde se afundou. Sim nós humanos somos muitíssimo anteriores à Terra, assim como a história da nossa génese, é muitíssimo diferente daquela que vos é ensinada, havendo por aqui ainda vestígios arqueológicos - como pôde verificar quando o robot o conduziu até à entrada da cidade  – desses tempos. 

Aqui todos nos encontramos instalados como se estivéssemos numa moderna cidade da Terra, tendo sido recriada uma ambiência perfeitamente normal para todos, visto eles desejarem intensamente que todos sejam felizes. No entanto esta é apenas uma entre outras grandes cidades existentes no interior de Marte, lamento não podermos visitar as outras – toma mais um? desculpe-me.

- Nem mais nada, por favor peça à máquina para me vir buscar imediatamente, tenho apenas mais quinze minutos de autonomia. Não sei que dizer...

- Muito bem, peço-lhe só que não fale sobre isto quando comunicar com a NASA, de contrário estaríamos todos perdidos. Confio em si, voltaremos a encontrar-nos daqui por dois dias terrestres, gostaria de o apresentar ao seu sósia. Agora vamos. 

Sem sobressaltos, acompanhou-me até à saída, e, para meu alívio imediato, lá estava o robot que me levou de novo e pelo mesmo caminho, até à superfície.

Passaram-se cerca de três dias, durante os quais aproveitei para confirmar através de intensa pesquisa, as viagens dos irmãos Corte Real, tendo até obtido a curiosa informação de que o Miguel, teria sido mais tarde encontrado na zona de Providence, como chefe de uma tribo de índios, porém tive a vaga sensação de que Gaspar não queria tocar no assunto e não insisti em lhe falar no caso. Havia ainda um irmão mais velho, o Vasco, o qual ainda tentou ir no encalço dos irmãos, contudo parece ter sido impedido por parte do rei.

Chegou o nosso amigo robot durante uma tarde em que eu resolvi dormir uma sesta, e, uma vez mais, emitiu o desejo por parte de Gaspar, de me voltar a ver agora, informando-me  disso desta vez através do seu sistema sonoro e em bom português.

- Muito bem, disse satisfeito, vamos então, irei desta vez regular o equipamento para seis horas terrestres e podemos ir. 

Tal como anteriormente, Gaspar Corte Real veio receber-me ao portal, cumprimentámo-nos e lá seguimos caminho, desta vez até um outro edifício mais pequeno, tal como um gabinete médico. 

- Bom, irei agora apresentar-lhe o seu sósia, Jocé. Trata-se de uma experiência emocionante, e por conseguinte, procure manter-se firme e sereno. – formalizou um gesto em direcção à porta, e eis que surgi de lá eu, fora de quaisquer dúvidas, com o pequeno sinal negro que sempre mantive no pescoço, cabelo cortado curto (tipo astronauta), sorriso aberto e meio divertido, estende-me a mão e diz: José Manuel de Sousa e Oliveira, és tu mesmo, tal como imaginava.

Foi então que reparei naquilo. Tudo estava certo ao pormenor até ao mais pequeno detalhe, porém, com uma diferença, que me fez estremecer: o outro eu usava uma máscara a cobrir-lhe o nariz e a boca. E foi aí que decidi voltar novamente para a Terra. Levantei-me de um salto e gritei: “OH, NÃO! Mais máscaras, não!” E saí porta fora. Foi então que a minha mulher me acordou dando-me uma forte cotovelada. Estavas a sonhar ou foste outra vez à garrafa de rum?


segunda-feira, 11 de maio de 2020

[100] No post 100, mais um conto de Teresa Balté

A ESTEIRA DE MARIANA

Teresa Balté
A Mariana queria fazer uma esteira. Uma esteira de empreita como as que via a tia fazer. Só que havia de ser mais pequena porque era para o Leão; e porque a Mariana tinha seis anos.

O Leão era um cachorrinho amarelo, que levava os dias a brincar. À noite dormia no chão, no quarto da dona. A Mariana pensava: Tenho de apressar-me a fazer-lhe a esteira, senão chega o Inverno e constipa-se. E foi à loja da tia buscar com que fazê-la.

A loja estava cheia de esteiras, alcofas, chapéus e de tiras de palha de muitas qualidades e tamanhos – umas tingidas, outra não. A um canto havia três feixes de tiras delgadas: verdes, roxas e cor de palha. A tia pegou num punhado de cada.

– Toma, Marianinha – disse, dando-lhe as tiras. – Vai entrançá-las. O Leão merece uma linda esteira.
A Mariana chegou a casa e meteu mãos à obra. Sentou-se no quintal, num banquinho baixo, e começou a dispor as tiras em grupos de três: uma verde, uma roxa, uma cor de palha… uma verde, uma roxa, uma cor de palha… Depois quis entrançá-las. Mas qual! Elas não deixavam. Puxava cada uma para seu lado. Não se misturavam. Como água e azeite, leite e limão.

– Nós somos as mais vistosas – diziam as verdes. – Não ligamos a ervas secas!

– Nós somos as mais importantes – diziam as roxas. – Os reis e os cardeais vestem-se de púrpura. Não nos damos com palhas vulgares!

– Nós somos as verdadeiras – diziam as outras. – Mostramo-nos tal como somos, sem pintura. Não nos misturamos com ninguém!

A Mariana bem queria entrançá-las, mas não conseguia. E acabou por arrumá-las a um canto; talvez um dia prestassem para alguma coisa.

E o Leão? O Leão não tinha culpa de nada e continuava a dormir no chão, no quarto da dona. Então a Mariana pensou: Quando chegar o Inverno, constipa-se; vou fazer-lhe um tapete de lã! Um tapete de lã, às florinhas, que lhe lembre o campo e o Verão!

Dezembro 1986

quinta-feira, 23 de abril de 2020

[099] Uma nova colaboradora, Sofia Cardoso, estreia-se no CTP. Directamente de França

CONTO DO BERÇO DA LUA

Sofia Cardoso
Em minha casa éramos pobres. Miseráveis, mesmo.

A minha mãe trabalhava a terra, de sol a sol, e tinha as mãos calejadas e unhas negras, tal como a maioria dos habitantes da aldeia.

Os terrenos onde amanhava a terra situavam-se a pouca distância da taberna da aldeia onde, todos os dias, religiosamente, o meu pai costumava embriagar-se.

Ao contrário das outras famílias, geralmente bastante ruidosas e numerosas, nós éramos apenas três e vivíamos da bondade alheia.

Se minha mãe tivesse de alimentar mais do que um filho, teria que lhe dar a comer a própria terra que pisava.

Ainda assim, engravidou tantas vezes que deixou de as contar.

Em boa verdade, cada vez que descobria estar prenha, abortava, pois conhecia as plantas e ervas medicinais que o propiciavam. Ela mesmo tratava do assunto, sem se queixar.

Minha mãe era moída por pancada, sempre que não cumpria os seus deveres conjugais.

Sou observadora.

Cresci a vê-la tratar do assunto, seguindo os seus gestos, como rituais profanos.

Cada um dos meus genitores, era de poucas falas e eu agradecia o silêncio que me ofereciam.

Há quem tenha o dom da palavra, o que não era o caso de nenhum deles. Aliás, ao meu pai só conheci o dom de beber, e à minha mãe o de levar porrada no lombo sem se queixar.

Ela, azeda, de olhos embaciados, dizia-me em jeito de explicação: "- A boa mulher tudo suporta, chegará a tua vez."

Era como se desfrutasse por antecipação da imagem que fazia do meu futuro.

Eu não suportava ouvir as suas palavras cruéis.

Um dia, alguém bateu à porta, de forma insistente.

Fui eu que abri, timidamente.

Era a grande sacerdotisa mãe, que queria levar-me como aprendiza.

Falou com o meu pai, assegurando que o ofício de curandeira seria adequado.

Mas este, sentindo-se desrespeitado, retorquiu prontamente que nunca autorizaria.

A sacerdotisa insistiu em fazer negócio com ele, mas a resposta foi a mesma.

- Não e não!

-E se lhe oferecer do vinho sacro?

Acordo fechado!

Nesse dia tornei-me aprendiza da grande sacerdotisa do Berço da Lua e fiquei feliz por assim fugir do destino vaticinado por minha mãe.


domingo, 29 de março de 2020

[097] Teresa Balté oferece-nos um delicioso conto infantil, campestre e "cantante"

ERA UMA VEZ O JOÃO...

Teresa Balté
Era uma vez o João, que não sabia cantar.
– Canta connosco as nossas cantigas – diziam-lhe os amigos. Ele bem se esforçava, mas não soava um som.
Um dia acordou e decidiu: quero aprender a cantar. Saiu de casa e pôs-se a caminho, à procura do que queria.
Meteu por um bosque.
– Dóó, dóo, porque andas tão só? – rangeram os ramos das árvores, balouçando-se ao vento. O João inquietou-se e fugiu dali.
Meteu por um campo. 
– Réé, réé, rée… – ressoou a erva alta, onde conversavam as cigarras. O João, com receio de pisá-las, atravessou-o em bicos de pés. 
Meteu por um regato. Ia distraído e só reparou que se molhava quando ouviu rir:
– Mihihihi…hihihihi…
– És tu que ris? – perguntou o João à água que corria.
– Sou eu, o Mi, não sou a água, mas brinco na água e com quem passa por aqui. – O João riu e despediu-se do Mi.
Meteu por montes e vales. Por toda a parte acompanharam-no dois gaios, um verde e um amarelo, que assobiavam:
– Fá, sol! Fá, sol! Fá, sol! – o João tinha vontade de assobiar com eles, mas não se atrevia a experimentar.
Meteu por um canavial. Cortou uma cana, talhou uma flauta e soprou.
– Lá, si! Lá, si! Lá, si! – soou a flauta. Que voz tão rachada, pensou o João, até eu soo melhor. E, sem se lembrar de que não sabia cantar, cantou:
– Lá, si… lá, si, dó… lá, si, dó, ré, mi, fá, sol… – e continuou.
Chegou a casa de noite. Os amigos, que estavam em cuidados, ouviram cantar e vieram ver quem era. Viram o João. Cantava uma cantiga com florestas, cigarras, regatos, gaios, canaviais…
Quando acabou, disse:
– Encontrei a minha canção, já sei cantar. Agora podemos cantar juntos as nossas canções.
E cantaram.

Novembro 1986

José Malhoa, "Gritando ao rebanho", 1891

quarta-feira, 11 de março de 2020

[096] Nestes tempos de todos os temores, uma "short story" de Joaquim Saial

O ÚLTIMO HOMEM

Joaquim Saial
Tinham sido os dias da grande pandemia. O último homem, que vivera num recôncavo frente ao oceano, já muito fraco, saiu nessa manhã para ver o mar. Em rocha próxima, que emergia da água, estava pousada uma gaivota. O homem sorriu, pensou que afinal não morreria sozinho e finou-se. Instantes após, o pássaro levantou voo e dentro em pouco estava no meio do seu bando, participando em concorridos voos picados, na apanha de alimento. Por aquela praia, nunca mais se viu ninguém.



[0095] Novo conto "felino" de António Rosa

L’ÉTÉ INDIAN

António Rosa
Mosquitos insuportáveis, estes. Por mais que os enxote, continuam insistentemente a incomodar. Pobres dos animais que nem sequer têm mãos para se defenderem. Como deve ser difícil para eles estar continuamente a ser picado em sítios onde não chega a pata e não basta sacudir a orelha. São autênticas feras, estes insectos. Devoram qualquer ser vivo.

E aqui estou eu, empoleirado na melhor posição que posso, sentado entre a forca de dois galhos fortes cá no cimo da árvore, à mercê dos mosquitos. O campo de visão parece-me razoável, atendendo a que daqui  avisto uma boa parte do ribeiro, lá em baixo. É aí que os animais inevitavelmente vêm beber.

O dia cai a olhos vistos. Escurece a cada minuto que passa. Já vi e revi todas as condições da máquina, desde o obturador ao leque de fecho do diafragma. Parece estar tudo bem. O sistema de infra-vermelhos também já foi testado. O apoio onde ela se encontra é estável e permite com facilidade um razoável  ângulo de rotação, quer vertical, quer horizontalmente. No entanto, apesar de já estar bem habituado ao trabalho com ela, receio que a minha vista me atraiçoe nos momentos cruciais da focagem. E nada pior de que fotografias desfocadas, sem que possam ser repetidas. Não posso dizer ao bicho que volte ao mesmo sítio e se deixe estar quietinho.

Medito na fragilidade de um homem só, aqui isolado, armado em pássaro, pousado no alto de uma árvore enorme  a não sei quantos metros de altura do chão, indefeso nesta selva bruta, recheada de perigos, e agora de sombras, cada vez maiores e mais disformes.

Os sons da noite que se aproxima são cada vez mais intensos e alguns, especialmente os das aves nocturnas, arrepiantes. Grilos, aos milhares certamente, fazem uma chinfrineira ininterrupta, bem como rãs e sapos a coaxar ao despique. 

Agora sim, que já está escuro como breu e os sons ainda parecem mais intensos. Não tiro os olhos do ribeiro, sempre na esperança que apareça algo. Mas praticamente não o vejo. Já não consigo enxergar a água, apesar de saber bem onde ela está.

Por vezes há certos sons assustadores que não consigo identificar. Chegam a subir-me arrepios pela coluna acima. Na verdade, não estou muito à vontade. Entretanto, com a caída total da noite, começou a levantar-se uma brisa que até já começa a ser fresca demais, aqui em cima. O que é certo é que, por causa dela, os mosquitos parece terem acalmado as suas ânsias de sangue.

De tempos a tempos ouvem-se os cantos dos pavões, ao que outros, mais longe, respondem também em coro. É agradável por ser um som velhamente conhecido, mas aqui na Índia parece ter uma sonoridade diferente, que mete mais respeito.

Ligo o sistema de infra-vermelhos da câmara para inspeccionar o movimento no ribeiro. É natural que, com esta escuridão alguns animais se comecem a aproximar para se dessedentarem de um dia tão quente como foi o de hoje.

Ajeito-me melhor no ramo, procurando não fazer qualquer ruído que possa identificar a minha posição. Qualquer pequeno barulhinho pode ser fatal. Posso ao mínimo descuido afugentar os animais e dar por perdido todo este trabalho. E começo agora a pensar no pior. E se o animal for um tigre, um tigre de Bengala com os seus dentes de sabre? Sei que os felinos sobem facilmente a qualquer árvore. Apesar da sua corpulência e do seu grande peso, tem garras suficientes para se agarrar ao tronco da árvore e vir fazer-me uma visita. Não estou nada seguro aqui. Novo arrepio pela coluna acima. E desta vez um dos grandes.

Começo a pensar que, se o animal estivesse a beber ou numa emboscada a tentar caçar alguma presa que se estivesse a dessedentar no ribeiro e eu tivesse o azar de acidentalmente espirrar ou tossir ficaria imediatamente descoberto e à mercê dos seus “dentinhos”, sem qualquer defesa possível.

Sei que tenho a necessidade urgente de afastar este pânico, de não pensar em tais coisas. Aliás fui bem avisado disso.  Acima de tudo afastar o medo e depois esperar com paciência. Com muita, muita paciência e sempre em absoluto silêncio.

Os infernais grilos esgotam-me os ouvidos e começo a estar mal sentado. Os sapos e as rãs não param a sua sinfonia. Será que são sempre os mesmos ou irão alternando uns com os outros  para descansar?
Ouvi agora um leve resmalhar nas ramagens lá em baixo. Ligo de imediato o sensor térmico da câmara e vejo uma mancha vermelha que se aproxima da água com todas as cautelas. Que bicho será? Não lhe consigo identificar bem a forma. Parece uma pequena gazela mas não tenho a certeza. Preparo o disparador da câmara e já tenho o dedo sobre o botão. Efectivamente é uma gazela. Já está com os anteriores flectidos e o focinho na água fresca.

De repente, tudo se cala. Calam-se os grilos, as cigarras, os pavões, os sapos e as rãs. Mas o que foi que aconteceu? O silêncio total é agora aterrador. Agora sim, é que isto mete medo. Não se ouve rigorosamente nada. O sensor térmico mostra um vulto vermelho, esguio, avançando muito lentamente na direcção da descuidada gazela e eu sinto calores e arrepios por mim acima. O indicador treme-me no botão do disparador. Vejo-o agora nitidamente, vindo por detrás da incauta gazela. É um tigre e bem corpulento que estará a uns escassos três metros da pobre presa. Prepara o salto. E eu quero fixar o momento exacto do ataque. O dedo treme-me. O bicho encurva a coluna e com uma agilidade surpreendente, zás…

Trim… Trim… Trim… “the time is thirty past  seven”… “is time to stand up”…

Para dizer a verdade, custou-me mais perder a fotografia para a National Geographic  do que ter que me levantar para ir trabalhar.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

[0094] Um conto cheio de "miaus"...

GATAS NO TELHADO

António Rosa
Era um edifício antigo, sóbrio, com uma imponência que fazia jus ao seu período de construção, certamente posterior ao terramoto. Impunha-se de esquina, entre a Rua das Praças e a Rua das Trinas, como baluarte defendendo aquele cantão do típico e antiquíssimo bairro da Madragoa.

O segundo andar do número 10 estava arrendado por uma senhora do norte, a Dª Antónia, que trabalhava como secretária (ou telefonista?) na Assembleia Nacional, como então se dizia. Como o espaço era grande e a casa tinha bastantes compartimentos, dado que o sótão era aproveitado com boas mansardas, estavam os quartos todos alugados a estudantes e até a jornalistas (as redacções de muitos jornais ficavam ali pelas proximidades), que era uma forma de aumentar o rendimento mensal, pois os funcionários públicos do tempo de Salazar ganhavam uma miséria.

Foi para aí que me fui hospedar, nos finais da década de sessenta, de resposta a um anúncio do "Diário de Notícias" que publicitava os quartos. Tinha dezassete anos frescos e a ingenuidade de uma criança que sempre vivera na província, debaixo das saias da mãe e muito particularmente debaixo das saias de uma tia e madrinha (que Deus tenha), solteirona, prepotente e castradora. Tinha acabado de ingressar no curso de Electrotecnia e Máquinas, do extinto Instituto Industrial de Lisboa, que ficava alojado num palacete da Rua de Buenos Aires, à Estrela. Era só subir a Rua das Trinas e pouco mais até lá chegar.

O tempo ia passando, o coração cada dia mais apertado com a proximidade da primeira frequência, pois as dificuldades que tinha eram enormes, por manifesta falta de conhecimentos e pré-requisitos. Mas não queria dar parte de fraco. Não dizia nada e vivia angustiado com o espectro do descalabro iminente.

O meu pai, por questões profissionais, necessitou ir a Lisboa e teve a infeliz ideia de me ir visitar, até porque lhe interessava ver em que condições eu estava alojado. Jantou comigo e, a convite da Dª Antónia, acabou por lá dormir. Ela arranjou-lhe uma cama num espaço de passagem entre a varanda do telhado e o quarto do Morganheira, que era aluno do extinto Instituto Comercial e pintor de aguarelas nas horas mortas (que eram muitas). Os aposentos do Morganheira ficavam na ala nascente do sótão, com acesso a uma varanda que ficava ao nível do prédio vizinho, já da Rua das Trinas, residência do saudoso Dr. Pedro Homem de Melo, também ele um rico homem do norte e grande eminência cultural na etnografia e particularmente no folclore, tendo até programa semanal na RTP, o que então era um acontecimento. 

Mas acontecimento verdadeiro era o facto de ter ele duas empregadas domésticas, duas criaditas, como então se dizia, fardadas à maneira clássica e que eram um verdadeiro assombro pelas curvas que a natureza lhes proporcionara. 

A mansarda da casa delas tinha acesso ao telhado, que tinha pousa-pés sobre as telhas facilitando o caminho até à dita varanda. Não sei que combinação tinha havido com o Morganheira e com o jornalista do "Século", que vivia na mansarda da frente, e do qual já não recordo o nome, que as gatas, a meio da noite, vindas da varanda passaram pelo corredor, ao lado da cama do meu pai, para se introduzirem no nosso prédio da Rua das Praças.

Meses e meses se passaram sem que eu tivesse conhecimento disto que vos contei, até que um dia, quando choviam imprecações sobre o insucesso de um exame de Física Especial, com a acusação de vida de boémia em Lisboa, saltou o caso. Injustamente acusado, por mais desculpas, argumentos e juras que apresentasse fiquei ciente que, na cabeça de meu pai, as dúvidas sempre persistiram.

Agora, tenho pena de que não tenha sido verdade. Já que fiquei com a fama, ao menos que tivesse tirado o proveito.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

[0087] Faleceu ontem em Mafra o nosso amigo e colega de escrita Nuno Rebocho


Nuno Rebocho (1945, Queluz, Sintra, Portugal – 12.Janeiro.2012, Mafra, Portugal) foi um escritor, poeta, homem da rádio e jornalista. Participou na luta contra o Estado Novo de Salazar, chegando a ser preso durante cinco anos, por motivos políticos, na cadeia do Forte de Peniche.

Iniciou sua carreira na página juvenil do Diário de Lisboa, em 1963. Foi redactor da revista O Tempo e o Modo e da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, porém só viria a ingressar no jornalismo profissional em Abril de 1974 em jornais diários como o Jornal NovoTribunaA TardeJornal de EconomiaO Século e nos semanários Vida MundialNovo ObservadorO SinalDez de Junho e Ideal. E também em revistas especializadas - Pesca & NavegaçãoTT-Todo o TerrenoMotor (foi director do suplemento de Turismo). Presença activa na imprensa regional - Notícias da AmadoraComércio do Funchal, foi chefe de redacção de A Ponte (Montijo) e A Nossa Terra (Cascais). Desempenhou funções diversas - redactor principal, chefe de secção, sub-chefe de redacção, chefe de redacção. Em 1989 enveredou pelo jornalismo radiofónico, colaborando com Moliceiro FM (Aveiro), cronista da Rádio Comercial (programa de Turismo, de Carlos Amorim; programa de Rui Castelar) e de comentador. Ingressou na RDP (Radiodifusão Portuguesa), destacado para a Guarda durante um ano. Depois, foi editor, chefe do departamento de Informação Especial e chefe de redacção da RDP - Antena 2. Integrou conselhos de redacção e a Comissão de Trabalhadores da empresa radiofónica. Em Cabo Verde, colaborou com o semanário Horizonte, com Expresso das ilhas e com Liberal on-line (de que foi delegado em Lisboa) e foi assessor da Câmara Municipal de Ribeira Grande de Santiago. Integrou os órgãos dirigentes da AJEPT, Associação de Jornalistas Portugueses de Turismo. Participou com poesia no tríptico de serigrafias de Silva Palmeira "A Lisboa", Centro Português de Serigrafias. Lisboa 1997. Foi comissário da Bienal do Mediterrâneo, Dubrovnik, Croácia, 1999. Animador cultural, organizou A Festa da Poesia, na Galeria Artdomus, S. Pedro de Sintra em 2000-2001; As Noites da Liberdade, na Biblioteca Museu da República e Resistência, Lisboa em 2005; A Poesia à Mesa, no restaurante Panela de Barro, Carnaxide em 2006. Foi vice-comissário da Festa da Poesia - Encontros de Poetas Portugueses, na Figueira da Foz em 2003/4/5. Organizou o Dia Mundial da Poesia, em 2006, em Penamacor. Participou nas Jornadas Poéticas de Artiletra (Cabo Verde), 2007; em Correntes d'Escrita, Póvoa do Varzim, 2007; na I Bienal de Cultura Lusófona-Encontro de Culturas, Malaposta-Odivelas 2007. Foi membro efectivo da AVSPE (Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores).

Autor de "Breviário de João Crisóstomo", "Uagudugu", "Memórias de Paisagem", "Invasão do Corpo", "Manifesto (Pu)lítico", "Santo Apollinaire, meu santo", "A Nau da Índia", "A Arte de Matar", "Cantos Cantábricos", "Poemas do Calendário", "Manual de Boas Maneiras", "A Arte das Putas" (poesia), "Estórias de Gente" (crónicas), "O 18 de Janeiro de 1934", "A Frente Popular Antifascista em Portugal", "A Companhia dos Braçais do Bacalhau" (investigação histórica), "Canções Peripatéticas" e "Histórias da História de Santiago (Cabo Verde)" (com prefácio de Joaquim Saial), entre outros. O seu derradeiro livro publicado em vida foi "A Ilha de Amianto". Está representado em diversas antologias e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil. Tem colaborado em catálogos para exposições de artes plásticas: Ramón Catalan, Deolinda, Carlos Eirão, Alfredo Luz, Edgardo Xavier, João Alfaro, Maria José Vieira, Ricardo Gigante, Ana Horta, Isabel Teixeira de Sousa, Nuno Medeiros, Viana Baptista, Teresa Ribeiro, Rico Sequeira, João Ribeiro, José Manuel Man.

O seu primeiro trabalho póstumo será o prefácio do livro "Poemas para a hora de ponta", editora Cordel d'Prata, de Joaquim Saial, a sair em Vila Viçosa a 25 deste mês de Janeiro e a 15 de Fevereiro em Lisboa.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

[0084] É hoje!

IM estará presente e dará notícia do lançamento, como seria de esperar. Quanto ao caderninho, é delicioso e já lido e relido há semanas por nós. Tem o esquisito preço de 4,10€ mas isso só lhe dá mais sabor. Um grande pequeno livro, na verdade.

terça-feira, 16 de julho de 2019

[0079] Mário Pereira, em conto angolano

Do escritor angolano Mário Pereira, já reportado em Contos da Tinta Permanente, referimos mais um conto


MAN JACK DA COBARDIA

Corria o ano de 1963 em Luanda.

E, num dos subúrbios da capital, num dia em que o sol insistia em aquecer o ambiente como raras vezes o fazia, os putos corriam atrás de uma bola de borracha: uns à procura do golo do empate, enquanto outros defendiam, de qualquer maneira, a sua baliza, lançando a bola para longe: para queimar tempo; simulando lesões que não existiam e agarrando o avançado fora da grande área afastando-o da boca do golo,…

E, num certo momento, o jogo parou!

A bola, que fora chutada para a baliza defendida por Santito Matias, entrara no quintal de Man Zeca, o tal que vezes sem conta rasgara o esférico a punhal perante a mol de gente embevecida que assistia o jogo do princípio ao fim! Pela frustração causada, muitos auguravam, num dia destes, a oportunidade para indagarem Man Zeca, no beco da rua de trás, quando o sol se fosse embora! 

O presságio, para alguns, era funesto; enquanto, para outros, não passava de mais um episódio que teria um final semelhante: o da bola rasgada pela fúria de quem, sempre, pelos mesmos motivos, exibia um punhal na mão; ao da tristeza estampada no rosto, não só de quem fora impedido de correr atrás da pelota, mas também dos que se aglomeravam nos quatro limites do campo.

E enquanto se pressagiava sobre o que viria a seguir, - a desforra que fariam a Man Zeka botando no chão do beco escuro onde namorava com a Zinha as cascas de 100 bananas no momento em que ele se dirigisse para lá ao anoitecer - vinha do fundo da rua uma débil figura que parecia incapaz de se contrapor à ira dos ventos de Abril, estes que se habituaram a levantar para os ares as ninhadas de aves assentes no meio das moitas; as chapas esburacadas do casario em desalinho, deixando a céu aberto a desgraça do povo clamando por liberdade. 

Fingindo conhecer o que à sua volta se passava, a débil figura - que trazia no canto direito da boca uma beata apagada de cigarro Juca e um gorro negro na cabeça -, evitou indagar a causa por que ali se achava a mole de gente e, acenando aos conhecidos que o saudavam com deferência, levantou a mão com o dedo indicador em riste, chamando, para o beco mais próximo, um dos que implorava a resolução daquele caso que parecia insolúvel. – O que é que se passa aqui? – Indagou Man Jack. 

É o puto Zito que jogou a bola para o quintal do Man Zeka. Então, o Man Zeka, furioso, prendeu não só a bola, mas também o miúdo que chutou a redonda para lá. 

– Mas a bola estragou alguma coisa? Aleijou alguém? Partiu algum vidro? – indagou Man Jack, enquanto ajeitava o cigarro, já aceso, inspirando e expelindo, pela boca e pelo nariz a fumaça quente que se alojara no peito. 

– Não se sabe, Man Jack. Só sabemos que o dono do quintal disse que já tinha avisado que da próxima vez que a pelota entrasse no seu quintal, não só ela seria retida, mas também o autor do chuto, e quem viesse em seu socorro, fosse quem fosse! E a clausura seria por tempo indeterminado, a não ser que houvesse, por parte dos familiares, a intenção de pagar o estrago… e exigiria um pedido de desculpas por parte dos pais, avós, tios e amigos do prevaricador, pelos abusos que vêm sendo cometidos até à presente data…

Dirigindo-se à porta da casa do ofendido, lá onde a bola e o puto estavam retidos, Man Jack falou assim: - Dá-me licença, Man Zeca. Sou eu, o Jack. – Quem? – O Jack, Man Zeka. – Oh! Man Jack? Entra, se faz favor. Pode entrar, Man Jack. O prazer é todo meu, caramba…. Ó, Man Jack? Como é, meu? Há tanto tempo que a gente não se via, pá!

Gerou-se um silêncio sepulcral quando Man Jack e Man Zeca se abraçaram perante o olhar atónito de quem espreitava a cena pelos intervalos das aduelas do quintal; gente que ansiava a solução do caso que juntara a vizinhança contra o detentor da bola e do puto Zito, o melhor goleador do musseque Rangel. 

– Então, Man Jack? Como é que vão as coisas por aí? Lá em casa tá tudo bem? - Graças a Deus, man Zeca! Tirando as perseguições dos Arara kwara, o resto vai caminhando, mas com a maior das atenções, porque o Arara Kwara não estão para brincadeira, não. Ainda ontem, não sei se já sabes, cangaram o Jingongo, o filho da Donana, o mais velho. 

– Mas estas questões vão ser tratadas noutro dia. E, então, como é que vão os mambos por aqui? Os miúdos; a mana Dominguinha? E a Donana, a tua irmã mais nova? Nunca mais a vi, Man Zeca. Anda mesmo cá ou viajou? Desde o ano passado no funeral da Ximinha que nunca mais lhe pus o olho em cima! 

– Está tudo sob controlo, Man Jack; vamos indo, como dizem os mais velhos cá da banda, mano. 

– Bom, mas o que eu queria mesmo dizer, Man Zeka, é o seguinte: é esse aglomerado aí fora que me está a preocupar; temos de evitar esses ajuntamentos tumultuosos à nossa volta, seja por que motivo for. Os Jipela Njipe e os Araras volta e meia estão aí a passar e sempre com o olho em cima da gente e qualquer cheiro a geringonça é suficiente para os tipos actuarem! E já sabes como é que isso é, pá! 

– Ok, Man Jack, percebi tudo. Mas esses putos dão trabalho sério! Por mais que a gente fala, os gajos não querem saber e então, pela falta de respeito permanente, canguei-lhes a bola que caiu aqui mesmo no quintal, na hora em que eu ia a sair do cubico para ir fazer um biscate. 

– E, como se não bastasse, ó mano, o tipo que chutou a bola ainda saltou para dentro do quintal sem pedir autorização e, por isso, como qualquer um de nós faria, também lhe canguei. É esse indivíduo que está aí sentado no fundo quintal, mano. 

– Tá bem, pá. Não deixas de ter as tuas razões! 

– Porém, como as coisas estão por aqui, não devemos criar inimizade com esses putos, ó mano! 

– Devemos tê-los connosco, tás a entender? Se não fossem eles, ontem mesmo já me teriam cangado pois, foram vistos três indivíduos, dos tais, de calça preta e camisa branca, a circularem pela rua em sentido oposto! 

– E foi um grupo de putos que nos alertou do perigo, mano, a mim, ao Mangololo e ao Jinguma. E foi assim que nos escapamos e não conseguiram encontrar-nos. Man Zeca! – Diga, Man Jack. 

– É assim, mano: temos de estar em sintonia com esses miúdos pois, são eles que nos dão guarida, quando nos vêm avisar, na calada da noite, que está gente estranha a rondar o Bairro, tás a ver? 

– Para além disso, ó mano Zeca, essa é a única diversão que eles têm antes de as chuvas chegarem. 

– Quando há chuva, a diversão deles muda logo, porque essa água assentada transforma os campos da bola em grandes lagoas. 

– Aí, a brincadeira é mergulharem nessa imundície até se cansarem. Temos que ter mais calma! Somos mais velhos e devemos orientar essa malta miúda a estar dentro da normalidade, apesar das adversidades. 

– Para além disso, ó Man Zeca, que eu saiba a tua casa só tem uma janela que dá para a rua e ela, a casa, nem é de madeira, ó pá. É de barro. 

– E mesmo que a bola bata na parede, mano, o barulho que faz é nulo, não te incomoda. 

– Por outro lado, o teu quintal não é feito de vidro, é de aduelas esburacadas pelo salalé. 

– E se a bola bater nele quem sofre são esses mesmos bichitos que são atirados para o chão a cada remate que os miúdos fazem. 

– Até aqui só há benefícios para ti, mano. 

– Até me apetece dar uma gargalhada por te dizer isso, mano. 

– O barulho que eles fazem, meu mano, é do despique pela bola e, quando há golo, há aquela algazarra normal de quem já está a ganhar, em que os jogadores e adeptos correm, abraçam-se, atiram-se para o chão, assobiam, jogam areia para o ar e xingam quem não é do seu time. 

– É só isso mano! 

– Para ti e para muitos que aqui vivem, ó Man Zeka, estou-te eu a dizer, isto é um autêntico filme ao vivo, um benefício que traz alegria a quem, como tu, aqui no Rangel, não tem luz eléctrica, nem em casa nem na rua; não tem água canalizada e o chafariz fica longe; a casa não areja por só ter uma porta e uma janela em miniatura… 

– Esses jogos na rua, mano, são uma autêntica sala de estar onde as pessoas podem conviver vendo os putos a correr descalços à procura de enfiar a bola na baliza! Tás a ouvir o que te estou a dizer, ó mano! 

– Por isso, Man Zeca, o que tens de fazer é libertar a bola e o miúdo, mas, atenção, Man Zeca: tens de chamar alguns deles para presenciarem a entrega; testemunharem a tua amizade para com eles e para que estejam permanentemente a teu lado; para receberem de ti a proposta de que podem jogar sempre sem restrições, mas com árbitro presente para não haver batota que traz confusão no meio e fora do campo. 

– Atenção, muita atenção: não te esqueças de prometer aos miúdos que no final dos jogos haverá sempre um bombózito assado, uma gingubita e aquela quitaba da boa, daquela que já tem gindungo; uma tijela grande com farinha musseque, água e açúcar e com isso ofereces uma rodada de ngongwenha para essa malta. Para se refrescarem, dá a cada um uma caneca do bom kitoto. 

– Para os kotas, já sabes: preparas uns bons nacos de gengibre e uma boa caneca de kimbombo e pronto, já está…-

– Man Zeca! – Diz, Man Jack. 

– Estou a ver ali no fundo do quintal uma lata com cal já usada e que parece que já não tem mais serventia para a tua casa!

– Entrega isso aos putos para alinharem o rectângulo de jogo pois, nunca se viu que as linhas laterais de um campo de futebol sejam os limites das casas que o ladeiam! 

– Sinceramente, mano! 

– Vamos botar ordem nisso, o mais rápido possível e evita cangar os putos por causa da bola!