terça-feira, 5 de março de 2019

[0053] Um felino de Nuno Rebocho

O autor recolhe na vida animal fábulas que alimentam o comportamento dos humanos e busca nelas conclusões para o dia-a-dia: por exemplo, o que em situações extremas deve valer mais, o amor à liberdade (implique o que implique para se obtê-la) ou as comodidades de um estar adaptado à sujeição que lhe retira essa liberdade? Tudo tem vantagens e inconvenientes… Mas a liberdade é a liberdade.


O GATO MOISÉS

O gato foi achado em noite de chuva. Estava ferido, encharcado, esfomeado. Tomaram-no ao colo, levaram-no para casa, alimentaram-no. E deram-lhe nome doméstico: Moisés, em memória das circunstâncias do achamento.
Ao desvelo dos donos, Moisés ganhou banhas, gato anafado, ronronante e dorminhoco. Luziu o pêlo. Dias felizes aqueles em que, entre pele e ossos, carne e gordura se concentraram. 
Refez forças e com elas a perceção da disciplina caseira: o caixote da serradura, a comida em horas certas, o chamamento dos donos, a obrigação de sofrer carícias e de ronronar. Habituado à rua, à força de não gostar, Moisés indispôs-se.
Rondou a janela, cismou por detrás dos vidros a saudade da liberdade. Esfregava o focinho nas vidraças. E, assanhado, começou de revirar as unhas às festinhas dos donos. Teve castigo de chinela.
Havia, em sua índole, natural gratidão. Ingrato não era. Mas não nascera animal doméstico.
Certo dia apanhou a porta de casa aberta e esgueirou-se de um salto. Desceu as escadas em corrida e retomou a rua. Miou em apelo às gatas: “estou de volta”.
Reconheceu terrenos, assenhoreou a rua que era aquela, efetivamente, a sua casa. Bem que os donos deram pela falta e o procuraram de porta em porta:
- Moisés, bche, bche, bche, Moisés.
Moisés, nada.
À noite trepou aos telhados. Já sem nome. Miou trinados lúgubres, eróticos. Mostrou-se às gatas. Uma veio. Mirou-lhe o pelo listrado, cores fulvas e brancas. Acariciou-o com o focinho. Lambeu-o. Miaram em conjunto.
De súbito, horror! A gata deu um salto. Descobrira o estigma da vida doméstica, da civilização, estampado para sempre no corpo do suspirante. Era capado. 
Numa fúria, sovou-o. E o gato que fora Moisés, fugiu. Ferido, em sangue, escondeu-se debaixo de um caixote. E linguou os arranhados.

sexta-feira, 1 de março de 2019

[0052] António Rosa, de novo, e um rádio "afogado"

RÁDIO

Hoje os jovens exibem, perante os seus pares, os artigos de marca como prova do seu estatuto social para fazerem prevalecer a sua supremacia e marcar a sua posição dentro do grupo. Não estudei sociologia para poder interpretar este fenómeno, mas a verdade é que ele já não é novo. No meu tempo de rapaz já assim era. Não havia a disputa das marcas, porque nem todos os possuíam, mas do próprio bem em si.
Recordo-me de ouvir o meu colega JF dizer que tinha um rádio transistorizado a pilhas, nesse tempo, há mais de meio século, apenas com onda média, que levava para a cama onde ficava, nos domingos de manhã até mais tarde, a ouvir música debaixo dos lençóis. Eu imaginava como isso deveria ser agradável, como deveria ser bom.
Chegaram as férias escolares e fomos acampar para a margem do Guadiana, hoje já submersa pela barragem do Alqueva. Pedimos uma tenda de campanha e emprestaram-nos uma cozinha de campismo, sem fundo nem forro, mas mesmo assim serviu.
E lá fomos nós, de sacos às costas, que nesse tempo ainda se não usavam mochilas, para uns dias de lazer com muitas expectativas de boas pescarias. O sítio escolhido, na foz do Lucefecit, era extremamente aprazível, com boas sombras de chorões, um moinho nas proximidades e um terreno chão, sem irregularidades e pleno de grama rasa que permitia bom assento para a tenda. 
Eu, o meu amigo HC e o meu amigo JF, depois de descarregarmos as bagagens fomos dar uma pequena volta de reconhecimento pelas redondezas. Debaixo de um frondoso chorão cuja rama pendia até à água escontrámos um barco escondido. Era uma chata, de madeira, com todo o equipamento necessário, os remos e uma lata para retirar a água, que sempre costuma entrar. Ficámos intrigados com a descoberta, mas por pouco tempo, pois logo apareceu um indivíduo mal aparentado, com um aspecto andrajoso e mais ainda, com apenas uma perna, sendo a outra substituída por uma muleta que apoiava debaixo do braço e que não lhe retirava mobilidade nem destreza de movimentos.
Junto seguiam-no dois cães, qualquer deles tão mal encabelado quanto o dono. Ouviam-se os chocalhos de ovelhas que não deveriam estar longe. Depois de uns cumprimentos assim por cima da burra, o sujeito foi à pergunta crucial: ao que vínhamos? Entendendo que não havia perigo quanto aos nossos propósitos, passou a esclarecer que poderíamos estar à vontade, como se fosse o dono e senhor dos terrenos. Avisou ainda que não nos assustássemos se, durante a noite, ouvíssemos barulho de algum camião a trazer alguma carga para dentro do moinho. Ficámos a olhar uns para os outros estupefactos, pois nem estrada havia.  Como chegaria ali um camião, a descarregar o quê? E porquê à noite?
Ainda assim, o HC tomou a iniciativa de lhe perguntar se era dono do barco escondido e se o poderíamos usar para pescar um pouco mais longe da margem. É claro que sim, se tiverem cuidado, foi a resposta. O cuidado não era com a nossa integridade física, mas com a chata, não fossemos nós afundar parte do seu ganha-pão.
O nosso amigo JF tinha levado o seu rádio, como não poderia deixar de ser, mas nós nem sequer tínhamos autorização de lhe tocar. Apenas ele, dono, podia ligar, desligar, aumentar ou diminuir o som daquela maravilha da tecnologia de então, que até tinha uma caixa protectora de cabedal.
O meu amigo HC, que Deus lá tenha, era extraordinariamente bem-disposto e ardilou de imediato uma partida para inquietarmos o JF. No dia seguinte, depois do almoço, fingimos estar a dormir a sesta, o que levou o JF a ir pescar sozinho para uma zona sossegada do rio a uns escassos oitenta metros da tenda. Foi a ocasião certa para levar à prática o nosso plano. Fomos à tenda buscar o rádio, atámos-lhe um fio de coco de cerca de dois metros à asa e fomos de imediato para o barco, com a maior descrição e silêncio possíveis.
O HC, com o seu enorme corpanzil, deitou-se na proa de barriga para o ar, retirou o rádio da caixa, colocando-o no fundo do barco, ficando com a caixa de cabedal em grande destaque sobre a barriga. Na mão segurava o fio de nylon a ela atado. Eu peguei nos remos e fui deslocando o barco, muito de mansinho para não fazer barulho, até ao local do pescador. Já perto, foi ligado o rádio, no fundo do barco, em alto som para provocar a ira do JF.
Não me lembro de ter ouvido na minha vida tanto palavrão seguido. Então, para levar a provocação ao cúmulo, o HC disse: «- Estás a gritar porquê? Por causa desta porcaria?» e deitou a caixa para a água, calando discretamente o rádio.
JF atirou a cana para o lado e lançou-se rapidamente à água, vestido e pronto, para salvar a sua jóia.
Ficou dois dias sem nos falar.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

[0051] Novo livro de João Lopes Filho

Na Livraria Pedro Cardoso (cidade da Praia, Cabo Verde, à Fazenda) João Lopes Filho apresenta o seu novo livro, “Percursos & Destinos” (edição da Livraria Pedro Cardoso), do próximo dia de Março, com apresentação da prof. Fátima Fernandes.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

[0050] Novos corpos gerentes do P.E.N. Clube Português

Tomaram posse, a 21 de Fevereiro, os novos corpos gerentes (eleitos em Assembleia Geral) do P.E.N. Clube Português:  
Mesa da Assembleia Geral: - Ernesto Rodrigues (Presidente); Nuno Camarneiro (1º Secretário) e Fernando Venâncio (2º Secretário)
Direcção: Teresa Martins Marques (Presidente); José Viale Moutinho (Vice-Presidente e Tesoureiro); Paulo José Miranda (Secretário); Fernando Pinto do Amaral e João Rasteiro (Vogais); Francisco Belard e Inês Lourenço (Suplentes)
Conselho Fiscal: Cristina Carvalho (Presidente); Rui Miguel Mesquita (Vogal); Carlos Nogueira Fino (Vogal); Ana Paula Coutinho e Victor Oliveira Mateus (Suplentes)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

[0049] Nuno Rebocho, mais uma fábula

Mais uma das suas fábulas cínicas com mostras de moralista aprendiz. É uma história contada a quantos nunca desistiram de ser meninos.  


O CAMALEÃO IMPREVIDENTE

Alapava-se o camaleão à parede. Branco, da cor da cal. Trepava cortinas de chita, ficava amarelo, ficava azul, às bolinhas. Refugiava-se nos manjericos, era verde. Ou tijolo como o vaso. Ou indefinível como a terra vegetal.
Neste defeito mimético, o camaleão era, especialmente era, a alegria da criançada. Os putos perdiam-se em deleite, horas e horas, basbaques ao bicho sem cor própria.
Chegara a casa dias antes. Trouxera-o o pai, fanático ecológico: “nada de flites, de banzés, de mixórdias químicas que só fazem mal”. Mata-moscas davam prejuízo, loiça partida. Fitas de melaço eram inestéticas - sórdidas. Havia os métodos eléctricos. Mas com a energia tão cara... Mais os estoiros de grelhadura que complicavam com os nervos. Optou pelo camaleão.
Libertado em casa, desenrolou a cauda e encostou-se a parede forrada de papel. A primeira mosca expôs-se ao alcance. O camaleão disparou a língua, capturou o insecto. Engorgitou-o. Os putos bateram palmas. O pai levou as mãos ao cinto, puxou as calças de contentamento.
- Viram? Então? Dá ou não dá resultado?
Vinham amigos admirar o animaleco. A sala era “ah” de espantos ao maravilhoso de mudar de cor conforme o poiso. Compreendida a razão das honras, o camaleão caprichava: tingia-se de cores alheias com máxima perfeição.
As crianças, o pai, recompensavam-lhe as proezas. Chegavam a apanhar, com as mãos em concha, as moscas que invadiam a sala de jantar. E embevecidos, alimentavam-lhe a gula.
Assim, rodeado de carinhos e atenções, o camaleão engordava. Mudava de poiso, mudava de cor. A família chegou a baptizá-lo: deram-lhe o crisma António, e, era curioso, parecia que ele atendia ao nome.
Numa manhã, farto de uma bambinela onde se instalara, o camaleão desceu as cortinas, correu pelo chão rumo a um vaso do lado oposto da sala. Verdíssima avenca encostava-se aí a alva cana. Ficara o camaleão acastanhado, da cor do soalho. Perfeito, como de costume.
A mulher-a-dias, de espanador em punho, entrou para limpar o pó. Não lobrigou diferenças entre bicho e chão. Pôs-lhe o pé em cima. Esborrachou-o.
António morreu. Na família houve choro e ranger de dentes. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

[0048] José Batista de Queiroz, contos necessários

Do escritor brasileiro José Batista de Queiroz, recolhemos um conto que recorda a sua vida militar. É uma voz que nos chega do mundo lusófono, prometendo divulgar outros autores.


SAUDADE DE GRANADEIRO

Se a primavera é a estação mais alegre do tempo, hoje é o dia mais saudoso do ano. Mais uma vez aqui estamos reunidos, de coração humedecido de saudades, para juntos celebrarmos a união indissolúvel de homens que vestiram, no passado, o uniforme garboso do Batalhão da Guarda Presidencial. Mais uma vez, vamos palmilhar a estrada do tempo que nos leva ao passado, em busca daqueles momentos que tanto marcaram nossas vidas, e deixaram fortes lembranças enclausuradas em nossos corações. Hoje, vamos acordar as saudades adormecidas e repartir as alegrias esvoaçantes, que estão penduradas dentro de nós.
Quando ainda viviam o tempo doce de suas vidas, o dever os levou pra longe, longe de seus pais, de seus amores, de sua terra natal, rumo a Brasília, uma cidade que nascia resplandecente no coração do Brasil. O ponto de encontro de todos vocês foi o BGP, um Batalhão que deixou registrados, nos seus pensamentos, dias de saudade, uma saudade brejeira que, até hoje, continua viva, flutuando na alma de cada um.
Vocês se tornaram granadeiros e granadeiro é aquele que já traz dentro de si uma semente de amor ao Exército e ao Brasil, um amor em constante ebulição, iluminado e prateado por raios de sol. Assim são vocês e assim serão pela estrada do tempo, porque o peito de um granadeiro é a morada segura da virtude de um soldado. Seus exemplos são como raios luminosos, que irrigam e atravessam gerações, deixando sulcos na memória do tempo. Ser granadeiro é ter o espírito colorido de verde-amarelo, é ser um brasileiro de alma e coração, é viver um sonho para sempre.
Hoje, os corações aqui presentes têm cheiro de lembranças, lembrança do passo vagaroso do tempo, em que os acordes de um clarim interrompiam o sono repousante de vocês, anunciando o nascer de mais uma aurora. Era mais um dia de saudades, saudade do lar aconchegante, dos rostos suaves, dos momentos alegres, dos anos que não voltam mais. Era uma saudade que exprimia o peito e torturava a alma.
Vocês jamais se esquecerão das horas de sentinela, dentro ou fora de uma guarita, ouvindo o silêncio da noite, observando o céu semeado de estrelas, vendo a lua prateando a relva, ouvindo o vento rumorejando nas árvores, sentindo os ardores de um sol a pino, vendo o manto azul salpicado de nuvens brancas, contemplando o sol a beijar as serranias e o dia se afogar na noite. Eram momentos de meditação, de sono, de cansaço, de saudade. Como era lento o passo das madrugadas! Como seria bom se fosse possível acelerar o tempo! Mesmo na adversidade, você, granadeiro, pode ser comparado àquilo que, na memória dos homens, existe de mais heroico, de mais valente, de mais soldado.
Até hoje, vocês carregam as lembranças daquelas noites melancólicas passadas nos alojamentos, enfrentando uma epidemia de saudade e tristeza. Naquele tempo já empoeirado, mantinham acesa a esperança de retornar ao torrão natal e abraçar a família, os amigos e os amores. E hoje aqui estão e ainda guardam no peito as lembranças de uma vida de soldado e ainda cantam as canções militares que o tempo não apagou. O tempo não faz com as lembranças o mesmo que o vento faz com a poeira.  Hoje, podemos dar as mãos e cantar as canções alegres que, no passado, empolgaram a nossa alma de soldado, porque somos todos frutos da mesma árvore.
A saudade é um das palavras mais bonitas do dicionário e a emoção mais doce de nossa alma. Vamos em frente, granadeiros, porque os dias futuros nos aguardam, para nos saudar com mais alegrias, mais emoções, mais saudades. Ser granadeiro é ser a lembrança e o parceiro do tempo. O tempo caminha e nós caminhamos com ele. Obrigado Ibitinga, por nos acolher em seu regaço. Obrigado João Carlos, por nos proporcionar momentos alegres e saudosos como as primaveras. Obrigado Deus, por mais este encontro com a saudade.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

[0047] Fernando Sabino, um contador de histórias

FERNANDO SABINO (Fernando Tavares Sabino, de seu nome completo), Belo Horizonte, Brasil, 1923-2004
Aqui fica mais um conto brasileiro, escrito por um dos seus valiosos autores. Não lhe falta uma pitada de humor a pincelar uma história bem contada. Obviamente, mantivemos a grafia de origem.


O HOMEM NU

Ao acordar, disse para a mulher:
– Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
– Explique isso ao homem – ponderou a mulher.
– Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar – amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
– Maria! Abre aí, Maria. Sou eu – chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço de escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
– Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão. Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
– Ah, isso é que não! – fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
– Isso é que não – repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
– Maria! Abre esta porta! – gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
– Bom dia, minha senhora – disse ele, confuso. – Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
– Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
– Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
– É um tarado!
– Olha, que horror!
– Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
– Deve ser a polícia – disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

[0046] Nuno Rebocho: mais uma das suas fábulas cínicas

De Nuno Rebocho, mais uma das suas fábulas cínicas: desta vez, é o peru que se prepara para as quenturas do forno, em dia de festa.


O PERU BÊBADO

Pelo Natal, tempo de festa. O peru aproximou-se da cerca, esticou o pescoço, enrubesceu e enfunou as rémiges. “Peru velho”, disse-lhe o dono. A ave envaidecida, avermelhada de gozo, agitou-se:
- Glu, glu, glu-glu-glu.

Foi isto na segunda-feira. O dono desenrolhou garrafa de medronho, encheu um copo e despejou-lhe o líquido, áspero e violento, goela abaixo. Encharcou-lhe o papo, as vísceras. O peru estremeceu, mais quente. O capoeiro esfumou-se em névoas, paisagens de sonho. Sentiu-se liberto como se as redes caíssem, o mundo agigantado à volta. Uma sede de bons sentimentos, um desejo de fraternidade pesou-lhe no bucho. Em arrepios, terno e lânguido, soluçou:
- Glu, glu, glu-glu-glu, glu, glu-glu.

Terça-feira. O peru despertou em tonturas, dor de cabeça horrível. Da festa, certamente. No imo, apesar de bico empastado, o bicho sentia-se feliz com o dono que destino lhe dera em sorte. Gratidão imensa, vinda do fundo, dos intestinos, do papo, do baço, do fígado, inundou-o. O dono fazia-o fruir das delícias, ele comparticipava da festa.
Nesse meio da tarde, aproximou-se o homem da capoeira e o peru não se conteve. Veio à rede. Meneou-se. Abriu-se em leque. Rubro de paixão, recitou-lhe um aplauso:
- Glu, glu, glu-glu-glu.
Com método, gestos repousados e calculados, o homem tomou a garrafa, novo copo de medronho para a goela do galináceo. O bicho inchou, transportado às florestas americanas. Cambaleou o passo até ao centro do galinheiro, aberto a todo o pano. Glorioso, imenso. Sublimemente grato, desbarrundou euforia e vaidade em alexandrinos:
- Glu, glu-glu, glu, glu, glu, glu-glu-glu-glu-glu-glu.

Terceiro dia, quarta-feira. O animal acordou mal disposto, cabeça pesada, pálido, com cólicas. Feliz. O universo já não se confinava à acanhada miséria das quatro redes da capoeira.
Arrastou-se, aproximou-se da vedação, asas alisando a terra, barbas em baixo. O dono sorria-lhe, ele alegrou-se. Na mão do senhor, lá estava a garrafa.
O homem de novo despejou a aguardente num copo e entornou-a pela goela do peru. O bicho dilatou as penas. O bicho cantou:
- Glu, glu, glu.
O dono pegou-lhe pelo pescoço e, de um golpe, decepou-o. Depois de depenado, passou pelo forno e foi servido no jantar da festa. Com castanhas. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

[0045] Pedro Silva e os velhos escritos

Há demasiado tempo afastado da escrita ficcionista, o historiador Pedro Silva retirou do baú um dos seus contos escrito há anos e contempla-nos com uma interessante memória. 


O PRIMEIRO DIA DE AULAS

O início de algo muito esquisito estava prestes a ter lugar e o jovem não sabia bem como havia de reagir. Após tantos anos a fazer exactamente o que queria, às horas que muito bem entendia, apenas controlado pela mãe, ia agora para um local que, segundo os seus dois irmãos, era pior que o inferno. E, de acordo com o que ele tinha visto em filmes, o inferno era verdadeiramente mau. Tudo a arder e sempre alguém a controlar tudo e todos. Se aquele local era ainda pior… Eram sete da manhã quando a mãe o foi acordar, mas o jovem há muito não dormia. Pensava, imaginava e desesperava. «Mas», dizia de si para si, «se é assim tão mau, porque é que os meus pais vão enviar-me para lá? Eu sou seu filho e eles gostam de mim, por isso não deve ser como os manos dizem. Aliás, eles até sobreviveram muito bem ao longo de todo este tempo.» A mãe não sabia o que ia dentro do filho, em termos de amálgama de sentimentos, e, para ela, tudo eram maravilhas. «Vais conhecer meninos da tua idade», contava, sempre a sorrir, «e vais aprender tanto que hás-de ser o melhor da tua classe.» 

Mas ele não queria ser o melhor, nem o pior, apenas queria ficar em casa, sem ter que ir para aquele lugar malfadado, tanto mais que em casa já tinha aprendido muito. A avó ensinara-o a vestir, o avô a regar o jardim, o pai a jogar futebol e a mãe, bem, essa sempre lhe dera muito amor e isso era, para ele, mais importante que todos os outros ensinamentos. Em casa, também, podia sempre assistir à televisão, ou então brincar com os seus super-heróis preferidos. Naquele sítio não podia fazer nada disto, segundo aquilo que os irmãos lhe tinham dito.

Após algumas horas de dilema profundo, a fatídica hora chegou. Oito e trinta em ponto e a sua mãe a mandá-lo sair do carro, já em frente da escola. De todos os lados vinham crianças a correr, de diferentes alturas e larguras. Muitas, todas diferentes. E como o pequeno estava assustado! Não queria acreditar que não conhecesse ali uma única pessoa e que a sua mãe o enviasse para aquele local, completamente sozinho. Não valia a pena estar agora a abraçá-lo que ele nada queria saber de sentimentos. Tinha de ser um homem e aguentar tudo sem responder ou, sequer, dar a mostrar a enorme vontade de soltar a lágrima fragilmente colada ao canto do olho. 

«Como sou infeliz», pensava. «Agora, aqui, não sou ninguém. Sou apenas mais um.» E tinha alguma razão, já que iniciara ali um ciclo que iria até à maturidade, mas sem conseguir ultrapassar o anonimato, a menos que, por mérito próprio, se destacasse. A professora parecia-lhe um monstro horrendo, sobretudo porque aquele enorme pêlo, que sobressaía de um sinal perto do nariz, era terrível. Como ele gostaria de voltar a casa e sentar-se no sofá preferido a assistir a um filme de desenhos animados. Agora tudo isso parecia uma miragem, uma recordação do passado. Ali estava ele, numa casa de madeira, mas com uma textura semelhante a ferro, tal a dureza que sentia. Os colegas eram, aos seus olhos, um monte de bonecos de corda, completamente desorientados. Uns saltavam, outros rodavam e alguns gemiam. Continuava a não querer acreditar que estes eram os companheiros que lhe haviam sido destinados. Bem, concluía, a juntar a este panorama, só faltava um colega de mesa. E ali estava ele, um rapazito da mesma idade, mas de um cabelo marcadamente ruivo e com a face coberta de sardas. Nada mais a fazer. Ia ser um rico dia!

O primeiro intervalo escolar da sua vida foi até bastante emocionante. Dois miúdos haviam partido dentes um ou outro. Mesmo à sua frente uma rapariga de oito anos tinha sido atingida por uma bola projectada do outro lado do campo com tal força que, mesmo antes de tombar, teve apenas tempo de gritar «ai!». Como era triste aquela visão: conjuntos, muitos conjuntos, de crianças a fazer alguma coisa, mas sempre num ritmo desordeiro, tanto mais que era essa a única coisa que lhes dava gosto.

De volta à sala, a lição começou a ter lugar. A «professora barbuda», como de início fora alcunhada, falava, mas ninguém parecia prestar muita atenção, a não ser aquele jovem lá ao fundo que, sentindo nada mais ter a fazer, olhava para ela, mesmo não entendendo nada. A certa altura, um enorme estrondo fez-se sentir. Vinte e sete cabeças moveram-se, ao mesmo tempo, para o sítio donde provinha o ruído. E lá, naquele canto, o menino Jeremias tinha deixado cair a caixa com o lanche que, por acaso, estava a ser comido ali mesmo. 

A professora, com um ar mais aterrorizante que nunca, dirigiu-se ao miúdo obeso que, com a boca repleta de restos de bolo de chocolate, se sentia muito atrapalhado. Ninguém sabia como a professora iria reagir, mas já haviam sentido na pele, muitas vezes, as reacções das mães, pelo que todos esperavam o pior. Foi então que, do alto dos seus quase dois metros, e com uma face de tal forma transfigurada que poderia afirmar-se que se preparava para engolir o mundo, a professora obriga-o prontamente a «ficar de castigo». E, na realidade, o que isso era? Simplesmente, ficar virado de costas para os colegas, junto ao quadro negro, com umas «orelhas de burro feitas em cartão». Tantas risadas de chacota se seguiram, tantas palavras sem nexo foram proferidas e apenas um miúdo se mantinha calado, chorando por dentro, desejando, do fundo do coração, que as horas passassem o mais depressa possível e que a tormenta tivesse um término.

Porém, o relógio parecia não querer colaborar e cada minuto demorava uma hora. Mas aquele menino, com os seus seis anos acabados de fazer, rapidamente aprendeu a lutar contra a maré e, ao invés de contar afincadamente os segundos que passavam, preferiu prestar atenção ao que aquela figura, que tanto o atemorizava, lhe tentava, da melhor forma que sabia, ensinar. Porque era a missão de ambos e porque a literacia é fundamental. O menino, ainda que imberbe, interiorizara aquilo que muitos adultos não compreendem: que a educação é tão importante para o espírito como o alimento para o corpo. E mesmo que os seus pais, de fracos recursos financeiros, passassem uma vida de muitas privações para o manter e aos irmãos na escola, o certo é que eles, iletrados, não esperavam o mesmo destino para os filhos. Mesmo que para isso tivessem de cumprir o dobro da carga horária estipulada no emprego.

Aquela criança aprendera as noções básicas da vida de forma tão rápida e jurara, ali mesmo, sentado naqueles horríveis bancos de madeira, que iria lutar afincadamente para que, um dia, todos pudessem ter direito à educação e, ao mesmo tempo, proporcionar aos seus pais uma merecida reforma descansada. Se bem pensou melhor o fez – quarenta anos mais tarde tornar-se-ia reitor de uma importante universidade, introduzindo melhorias significativas no sistema de ensino nacional.

Apesar de tudo, o certo é que, no fim do primeiro dia de aulas e, independentemente de ter entendido a sua situação como um autêntico adulto, não deixou de correr a toda a velocidade para o colo da mãe, onde, sentindo-se acarinhado e protegido como sempre, pensou: «Graças a Deus que já terminou!». Mal sabia ele que nunca mais na vida iria deixar um só dia de estar numa instituição de ensino. Mas isso, convenhamos, terá de ser ele próprio a descobrir, não é verdade? Deixemo-lo descansar esta noite.”

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

[0044] Amélia Dalomba, um história angolana

Da escritora Amélia Dalomba, uma história bem angolana: fala de meninos, de rios, de mar, do vasto mar de Angola.

NSINGA – O MAR, NO SIGNO DO LAÇO

I

Chegava a cada dois anos vestido de branco, como um príncipe dos muitos livros e cadernos que trazia, estes últimos que tanto jeito faziam à mamã para embrulhar ginguba e micates nas suas folhas arrancadas sempre do meio, para segundo ela, “o caderno não chorar".
Eu gostava de ver o tio chegar!
A miudagem toda em volta dele, os adultos ajudando a transportar as bicuatas . Era uma festa.
A casa ficava cheia de embarcadiços que andavam de porto em porto e contavam estórias, dando presentes.
O que eu mais gostava era quando o tio, com o olhar sério, perguntava ao meu pai: “Mano, como vão os meninos na escola"?, acariciando-nos com o olhar, como se fôssemos o único propósito das suas canseiras. Ele mandava sempre o dinheiro para os nossos estudos; éramos dos poucos meninos, no nosso bairro pobre, que estudávamos sem isenção de propinas e andávamos calçados. O tio cuidava para que nada nos faltasse. Éramos sete meninas e dois rapazes.
Não sei porque razão não tinha filhos, mas casara-se, diziam os mais velhos, no Brasil com uma linda senhora de cabelos tão negros e compridos que suas tranças pareciam duas longas lianas floridas em cada lado do rosto. Eu cheguei a sonhar com ela, mas aparecia sempre em sonhos com o rabo de peixe, como uma sereia pelo que não contava para ninguém. Como é que afinal, a mulher do tio habitava misteriosamente as águas salgadas, do outro lado do bairro onde morávamos?


II

Nós vivíamos entre o rio e o mar. A mãe proibia-nos de tomar banho nas águas salgadas da praia, porque, dizia perigosas demais para as crianças pequenas; mas Futi adorava tanto aquelas águas que, quando entrava o cheiro da maresia pelas persianas da nossa linda casa de madeira à beira da estrada grande, onde passavam os camiões carregados de toros de madeira, ela deixava soltar num suspiro: “Lando, um dia vou mesmo tomar banho no mar..." 
Sabíamos, ela e eu, ser isso precisamente o que nunca deveria fazer, segundo nossos pais, até atingir a idade de entrar no tchikumbi, ao que eu advertia: “se voltas a dizer isso, vou queixar à mamã". Ela, com um sorriso estranho nos lábios, sempre resmungava: “humm, queixinhas, estava só a brincar"...
Passara-se, pelo menos, mais de um ano desde a última vinda do tio e a nossa vida voltara a monotonia de sempre, quando vozes estridentes se fizeram ouvir:
“Futi se afogou socorro, socorro; Futi se afogou..."
Suas coleguinhas, ainda sujas de areia da praia e batas molhadas, traziam os pertences de minha irmã querida, de apenas sete anos: a pasta da escola, a bata e um par de sandálias castanhas muito usadas, com a marca de seus dedos bem marcados".

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

[0043] Tchalé Figueira, sob o signo do fantástico

TCHALÉ FIGUEIRA, Mindelo, São Vicente de Cabo Verde, 1953
De novo, Tchalé Figueira esgaravata o fantástico e, de Cabo Verde, envia-nos mais um conto em forma de fábula.


FÁBULA LOUCA

Morriam as vacas de fome, as tartarugas, saindo de mar, foram ao parlamento... Interditadas por gorilas, não conseguiram  reclamar na assembleia de hienas seus direitos. Hienas, bichos ignóbeis e pestilentos, sempre ocupadíssimos em peidar-se pela boca em discursos malcheirosos de rasgada gramática de bichos. 

Zangadas, as tartarugas foram-se queixar nas nações unidas da bicharada dos seus direitos. O urso-mor das nações unidas, amedrontado pelo rei leão do Norte, meteu-se na sua toca, e, numa crise de amnésia propositada, dormiu com os olhos abertos, mas sempre de esguelha, observando bando de chacais vampiros bebendo sangue de animais constantemente assassinados no reino animal. 

Aflitos, os sobreviventes saíram pelas ruas da selva protestando, mas foi a grande macacada!... Num relâmpago, veio a polícia e também soldados da guarda pretoriana do rei da selva distribuindo mordeduras com afiados dentes... Criou-se uma ditadura, a harmonia no reino animal extinguiu-se por completo: lobos disfarçados de cordeiros papando tudo aquilo que deveria ser de todos, devoravam tudo... 

Mas que tragédia! Não é que, no meio da confusão, aparece um animal chamado homo-sapiens o mais malvado de todos os bichos... Terrificada pelo cheiro nauseabundo do bípede erecto, a bicharada em pânico, em uníssono gritou: SALVE-SE QUEM PUDER!!!

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

[0042] Pepita Tristão, em fundo de espionagem

PEPITA TRISTÃO, Castelo de Vide, Portugal, 1951
Pepita Tristão Cardoso, mais uma narrativa onde a ficção acasala com as vivências por ela trazidas das bancas das redacções e onde o absurdo tinge factos recolhidos do dia-a-dia profissional. 
A ficção absorve o ambiente de um pequeno policial mergulhado nas memórias que Cascais conserva dos tempos da espionagem durante a II Guerra Mundial.



UM ESPIÃO NO ATLÂNTICO

Uma fotografia partilhada numa rede social por conhecido historiador cascalense, trouxe-me à memória uma das mais bizarras estórias por mim vivida.
A imagem, captada no Monte Estoril, mostrava o Hotel Atlântico, após a passagem do camartelo do promotor da nova urbanização que em breve haveria de surgir. Por entre as tristes vísceras da esventrada unidade hoteleira, o arqueólogo assinalava um estranho orifício – a entrada da tão falada passagem subterrânea que terá permitido ao proprietário do hotel, no tempo da segunda Grande Guerra, enviar mensagens codificadas aos navios alemães que passavam ao largo.
Não consigo sequer descrever a alegria que me invadiu por – finalmente – alguém ter provado a existência da dita passagem, da qual muita gente falava, e que eu conhecera em circunstâncias bem estranhas. Circunstâncias que eu, como jornalista reconhecida pelo rigor e assertividade, nunca me atreveria a narrar. Sempre me afirmei pelo pragmatismo. Ainda hoje sou uma céptica quanto a casos que a ciência não consegue explicar, como posso acreditar no que me aconteceu naquele dia? No entanto, também me é impossível esquecer a terrível experiência que vivi e, embora não queira falar sobre ela, seja com quem for, a sua recordação constitui um fardo demasiado difícil de suportar, sobretudo agora, que se comprovou aquilo que antes era apenas uma estória sem fundamento. Daí ter-me decidido recorrer à ficção para em jeito de catarse, relatar em forma de conto, os factos por mim vivenciados.
Desculpem os leitores se, por vezes, a linguagem jornalística prevalece, por pura deformação profissional.
Tudo aconteceu quando, há alguns anos, a revista onde escrevo me encomendou uma série de artigos sobre pessoas centenárias. Chegar aos cem anos não é ainda muito vulgar, e nessa época, em Portugal viveriam apenas uns seiscentos idosos nessas condições. Não parecia, pois, muito fácil, encontrar pessoas cujas memórias me permitissem, através das suas histórias de vida, ilustrar o modo como foi vivido em Portugal o Século XX.
“O Século de todas as mudanças” era o título genérico desta aventura jornalística, que depressa demonstrou ser mais difícil de concretizar do que se previa. Isto porque, apesar de contactada por familiares de muitos centenários, que me asseguravam as ótimas condições em que os seus idosos se encontravam, quando chegava o momento da entrevista, acabava por aperceber-me que não era bem assim.
Oito em cada dez dos meus interlocutores obrigaram-me a verdadeiros exercícios de imaginação e a apurada pesquisa, para conseguir relatar as suas histórias. A arreliante surdez que afectava a maior parte deles, falhas de memória, confusões, porfias com os familiares que constantemente os corrigiam ou recontavam os diversos episódios, deixavam-me sempre com imensas dúvidas sobre a sua autenticidade.
Quando já estava decidida a finalizar a série de entrevistas, recebi uma chamada de uma senhora do Estoril a perguntar se gostaria de falar com a sua mãe que, embora fosse de nacionalidade holandesa, tinha vivido a maior parte da vida naquela localidade do concelho de Cascais. Tentei recusar, mas o facto de a senhora em causa ter 103 anos e de a filha insistir que havia tido uma vida cheia de aventuras, pois inclusive, teria pilotado o seu próprio avião de recreio, foi aliciante suficiente para eu anuir, considerando que poderia ser uma oportunidade para encerrar com chave de ouro o meu trabalho.
Combinado o encontro para a tarde, pois no lar onde a centenária vivia, a manhã era dedicada a questões de higiene e saúde, à hora aprazada, lá estava. Fizeram-me entrar numa pequena e acolhedora saleta, onde me esperavam duas senhoras. A mais nova, que parecia ter cerca de 70 anos, ergueu-se para me receber, identificando-se como a pessoa que me contactara pelo telefone. Feitos os cumprimentos, apresentou-me depois à mãe, uma idosa encantadora, que me fitou com uns olhitos vivos e irrequietos.
Como já se tornara habitual, depressa me apercebi que também era profundamente surda, pelo que a presença da filha seria imprescindível para conseguir estabelecer diálogo. 
E foi frente a um chá fumegante e aromático, alguns scones e boiãozinhos de geleia, servidos pelo pessoal do lar, ele próprio muito british, pois a maior parte dos seus utentes eram ingleses, que me fui apercebendo de quem era a minha interlocutora.
- Então, já mora no Estoril, há muitos anos? Comecei por perguntar, mas a minha interlocutora permaneceu muda, limitando-se a seguir-nos com o olhar inteligente e inquiridor.  
 - A senhora está a perguntar há quantos anos vive aqui, no Estoril. - A filha repetiu bem alto as minhas palavras.
Sorriu e encolheu os ombros: - Para mim, é como se tivesse vivido sempre. Era muito jovem quando cheguei a Portugal com o meu marido... fiquei apaixonada por esta costa maravilhosa! O mar... o céu azul... a areia prateada... o sol, sempre presente... - fez uma curta pausa, como que perdida nas suas recordações, mas logo prosseguiu:  
- Nessa época, o Estoril tinha uma beleza agreste. Não lhe resistimos! Este era o local ideal para estabelecermos o nosso lar e constituir família. Até chegar ao Estoril nunca havia criado raízes em lugar nenhum... sempre a saltitar de um lado para o outro. Em pequena, ora estava com os meus pais, ora com os meus avós e depois de casar, corri o mundo todo atrás do meu marido. Não sentia nenhuma terra como minha. De início, ficámos hospedados num hotel, enquanto procurávamos casa. Quando vi aquele palacete sobre o rochedo, virado para o oceano, decidi que aquela casa tinha de ser minha! 
Calou-se, ficando a olhar pela janela, com um ar sonhador. A tarde de início de Outono, era amena. Lá fora o sol brilhava, num céu descoberto. Pensei que era um bom dia para preguiçar no Tamariz, frente a um refrescante sumo de fruta, em vez de estar naquela pequena saleta a tentar dialogar com uma idosa, por muito interessante que ela se pudesse vir a revelar.
- Recorda em que ano isso foi? Perguntei, bem alto, sem que ela desse sinal de me ter ouvido.
- Foi na década de 30... eu nasci anos depois. - respondeu a filha, acrescentando: - Não tenho sequer memória de ter habitado naquele palacete. Eles compraram a casa ao Fausto Figueiredo. Já tinha pertencido ao Visconde de Malanza, mas nesse tempo não era tão grande como é agora. 
Virou-se para a mãe, elevando a voz: - Mãezinha, como é que era a casa quando a comprou?.
A idosa pareceu emergir de um sonho e sorriu. 
- Era linda! Não muito sumptuosa, mas chamavam-lhe palacete ou palácio... palácio Barahona, que era o nome de um dos anteriores proprietários.
Eu e o teu pai gastamos quase todas as nossas economias ao comprá-lo e decidimos abrir um hotel... era uma forma de ajudar-nos a manter a nossa casa... vivemos lá dias muito felizes. 
Calou-se por instantes e prosseguiu com um suspiro:
- Infelizmente gastamos muito com as obras de ampliação e adaptação para as novas funções e, apesar do nosso esforço, fomos obrigados a vendê-la. Adquirimos, então, aquela onde a minha filha vive, que também estava muito bem situada, mas tive muita pena de deixar o hotel!
Por então já me tinha apercebido que estava frente a Vera Mouths, que com o marido, Ferdinand abrira o Hotel Atlântico em 1932. Rapidamente, comecei a tentar lembrar-me do que havia lido sobre o casal.
- Os senhores eram de origem alemã, creio... certamente vem daí a fama de durante a II Guerra Mundial o hotel ser muito procurado pelos alemães.  
Incomodada, a filha foi taxativa - Não. Não foi o meu pai que gerou essas histórias da guerra. O meu avô paterno é que era alemão e até pode ter contribuído para atrair clientes germânicos, mas isso foi antes da guerra. A minha mãe é de nacionalidade holandesa.  
Vera olhava-nos com ar inquiridor.
- A senhora está a perguntar se a mãe é alemã!
- Não. Eu nasci na Holanda. A minha família estava ligada à hotelaria, possivelmente foi por isso que tive a ideia de converter a nossa casa em hotel. Demos-lhe o nome de Hotel Atlântico, por se localizar ali, à beira do mar. O meu sogro ajudou-nos a promover o estabelecimento e angariou muitos clientes, na Alemanha. Chegamos a ter hóspedes muito distintos.
Fitou a filha, como que a pedir ajuda.  
- Lembras-te do nome daquela jornalista muito conhecida? 
- A mãe está a falar da Baronesa Carola von Oertzen de Ilhenburg, que representava alguns dos mais reputados jornais de Berlim... mas tiveram outros hóspedes bem conhecidos... até se contam muitas histórias sobre isso.
- Apesar de tudo, acabamos por ser obrigados a vender o hotel àquele rapaz alemão... o Wortus.
- Há quem defenda que o Hotel tinha uma passagem secreta para a praia, que o proprietário utilizava para controlar o tráfego naval e enviar mensagens aos navios alemães que navegavam ao largo.
- Os meus pais nunca ouviram falar disso, nem descobriram qualquer passagem... apesar de poder ter sido aberta aquando da segunda ampliação encomendada pelo Wortus, mas tanto os meus pais como os nossos amigos sempre estiveram convictos que isso é pura efabulação.
Vera Mouths parecia agora mais animada. 
- Nessa época, Portugal era um País muito bom para se viver, sobretudo quando começou a Guerra... foi  no ano em que tivemos de nos desfazer do hotel... em 1939, não foi, filha?
- Foi sim mãe, em Setembro de 39... eu era bem pequena...
- Logo a seguir ao início da guerra o presidente Carmona declarou a neutralidade dos portugueses... não foi o Carmona, foi o outro senhor que esteve muitos anos no poder...
- Era o Salazar, mãe...
- Sim, esse... foi uma medida muito inteligente, porque Portugal tornou-se o País mais procurado pelos estrangeiros que fugiam à Guerra. Muitos ficavam só de passagem, porque preferiam ir para a América. Hospedavam-se aqui, na Linha, ou em Lisboa, até arranjarem forma de embarcarem num dos paquetes.
- Foi uma época boa para a hotelaria, mas já havíamos vendido o Atlântico... eu convivi com muitos desses refugiados... tornámo-nos amigos de alguns. Íamos à praia com eles, quando a minha filha era pequena... recordas-te?  
- Perante a aquiescência da filha, Vera prosseguiu: A maior parte dos nossos amigos já morreu, mas a minha filha ainda se dá com os descendentes. Nessa altura, a nossa vida era muito complicada, pois podíamos ser chamados para alguma missão em qualquer momento...
A filha interrompeu de forma abrupta: - O meu pai era empresário e tinha negócios em todo o mundo, pelo que estava sempre a ser chamado para resolver problemas, em diversos países. Normalmente, a minha mãe acompanhava-o, não era?
Antes de a progenitora responder, prosseguiu, falando sobre a empolgante vida do casal, testemunhada pelas fotografias que selecionara para me mostrar.
Embora na ocasião não tenha dado demasiada atenção à interrupção, os acontecimentos posteriores, acabaram por me fazer ver sobre um prisma diferente essa forma precipitada de desviar a conversa.
As fotos, a preto e branco, mostravam um casal jovem e bonito. Sempre vestido de acordo com as ocasiões fixadas pela objectiva. Um safari em África... um passeio em trenó no Canadá... um circuito de avião em território americano...
Escolhi algumas daquelas fotos, propondo-me logo dar realce àquela em que se podia ver a jovem Vera a pilotar com ar intrépido uma avioneta negra (ou assim me pareceu). Estava devidamente equipada, vestida também de negro e tinha o marido como copiloto. 
Antes de nos despedirmos, registei algumas imagens de ambas, visto que me tinham pedido para não levar fotógrafo, de modo a não inibir a velha senhora. 
Saí do lar eufórica, não só porque teria oportunidade de encerrar a série de entrevistas com chave de ouro, mas por ter conhecido alguém que preenchia o meu imaginário. Era assim que eu sonhava que teriam sido vividos os “loucos anos 20”! Aquela Vera, em jovem, parecia encarnar todas as heroínas dos filmes de espiões da II Guerra Mundial. Conseguia situá-la na Riviera Francesa e também na Portuguesa, quando refugiados e reis depostos por aqui deambularam. Talvez ela tivesse sido uma espia alemã ou uma agente dupla que utilizasse o seu veículo alado, sabe Deus para que encargos...
Empolgada como estava, e sem vontade para rumar para a capital onde me aguardava o esfumaçado ambiente da redacção, optei por vaguear pelos jardins do Casino, construindo mentalmente a história que iria escrever. Acabei por jantar nas Arcadas do Estoril.
Decidi então ir até ao Atlântico, tentar imaginar como teria sido o Palacete que encantara, há mais de sete décadas, a minha entrevistada. Anoitecia quando estacionei no parque do hotel e depressa percebi que nada restava nele que recordasse um palacete do fim do século XIX, quando a arquitetura de Veraneio ainda imperava por ali. 
Ainda assim, não me apetecendo abandonar o local, rumei até à praia. Queria contemplar aquelas águas que um dia terão sido vigiadas por quem tinha informações a transmitir ou ordens a receber.
Sentei-me numa rocha, observando o vai-vem das ondas, que serenamente se transformavam em branca espuma, confundindo-se com a areia.
Não sei quantas horas ali fiquei, ou se adormeci, porque, quando dei por mim, estava tudo escuro e eu sentia-me enregelada pela aragem agreste que me envolvia. Preparava-me para me levantar quando reparei que algo estava diferente. Não consegui perceber bem o que era... se o hotel,  cujas janelas  iluminadas não bastavam para esconder que à minha volta e mesmo em frente, em Cascais, a luz era escassa. 
- Deve ter havido um apagão – pensei. Mas, apesar de tudo estar escuro, divisei, um pouco mais à frente, no areal, um sujeito que agitava uma lanterna, em direção ao mar. Estranhei, até que reparei que ao longe, na imensidão negra das águas, um pequeno clarão brilhava intermitentemente.  
Tentei vislumbrar algo na indefinida linha do horizonte. A lua, em quarto minguante, não ajudava, mas, mesmo assim, pareceu-me adivinhar o vulto de um navio, por vezes delineado sob o escasso luar.
-Sinais Morse, pensei – recordando as histórias de espiões que tantas vezes ouvi. Mas logo raciocinei e percebi que não poderia ser. Nesta época usam-se os telemóveis... o que não significava que a minha situação não fosse inquietante, pois o mais certo era estar a presenciar alguma atividade ilícita, possivelmente contrabando ou algo pior. Por isso, decidi manter-me quieta e semi- escondida.
Não sei de onde surgiu outro vulto, de gabardina escura, que se dirigiu ao sujeito da lanterna. Começaram a falar e eu achei que era a altura certa para sair dali.
Ergui-me para retroceder, quando os ouvi gritar numa voz gutural. Voltei-me e vi ambos a correr em minha direcção, com um ar muito pouco amigável. Em pânico, comecei também a correr, sem pensar, sequer de onde me vinha a sensação de perigo que me toldava o raciocínio. Sentindo-os cada vez mais perto, apercebi-me que os malditos saltos me dificultavam a corrida, pelo que fiz saltar os sapatos, conseguindo, por fim, distanciar-me.
Maldita ideia! Uma estúpida ponta de rocha meteu-se no meu caminho, fazendo-me tropeçar e estatelar-me na areia! Uma dor aguda fez-me temer ter partido um dedo do pé... mas não tive tempo para  me certificar, pois já dedos de aço me erguiam do solo e me abanavam com violência. “Quem és?”, perguntaram-me em alemão... não respondi. Os escassos três meses que estudei alemão, antes de desistir de germânicas e enveredar pelo jornalismo, não me permitiam falar. De qualquer modo, também preferia fingir que os não compreendia...
O outro já se aproximara e mostrava-se ainda mais furibundo. Dirigiu-se a mim com uma algaraviada indecifrável. Dessa vez, nem precisei de fingir! Quem diabo pensam estes gajos que são? 
Depois de muitas exclamações que me soaram a ameaças e impropérios, pareceram desistir.  
- Acho que estou safa! – pensei – aproveitando para erguer do chão a minha mochila.
Por azar, esta abrira-se e os meus haveres espalharam-se pelo areal. Peguei de imediato no telemóvel, que se iluminara com a queda. Os meus perseguidores olharam, primeiro admirados e logo enfurecidos.
- O que é isso? - perguntou um deles, arrancando-me o aparelho das mãos. Dessa vez entendi e até me esqueci de fingir.
- O meu telemóvel!
- O quê? - insistiram. Só nessa altura me apercebi que ambos trajavam fatiotas estranhas. Pareciam saídos do filme “Casablanca”. 
Ou viajei no tempo, ou estes gangsters são dos Apanhados – pensei. Deve mesmo ser isso... que raio de brincadeira! As minhas coisas continuavam espalhadas na areia e corria o risco de ficar sem elas, pois não se via quase nada. Dei uma gargalhada e gritei-lhes: Basta! Já vi que são dos Apanhados!
Uma estalada foi a resposta do energúmeno da gabardina. A força foi tanta que me deixou atordoada. Quis protestar, mas voltaram a agredir-me enquanto me arrastavam para um buraco escuro.
Pareceu-me depois ser empurrada por um túnel, cujos lados eram iluminados intermitentemente pela lanterna do primeiro indivíduo que vira na praia. Gritei, mas senti um cano duro a pressionar-me as costelas, enquanto me mandavam calar, empurrando-me depois por um corredor até um dos quartos numerados do hotel.
Sentaram-me numa cadeira e dispuseram-se a continuar o interrogatório. Depressa se convenceram que não havia hipótese de diálogo e conferenciaram em voz baixa, enquanto me apontavam uma arma.
O indivíduo da gabardina saiu, regressando passados uns minutos, com outro capanga.
- O que se passa, Wortus? - perguntou o terceiro indivíduo, que usava igualmente elegantes vestes de início do século passado.
Os três afastaram-se um pouco, falando em voz baixa, enquanto manuseavam com estranheza o meu telemóvel. O tal Wortus continuava a apontar-me a arma - começo a acreditar que viajei no tempo!!! - pensei, enquanto observava o quarto, cujo mobiliário antigo em nada destoava das vestes dos meus carrascos.  
A situação era tão estranha, tão inacreditável que continuei convicta tratar-se de uma montagem... No entanto não tive tempo para raciocinar.
O terceiro elemento acercou-se de mim, mostrando-me o telemóvel. 
- Me llamo Hernandez. Entiendes español?
- Um pouco
- Estás metida num grande lio. Mis amigos no mienten quando me dicen que te matan se no lhes disseres quien eres e lo que hacias en la praia.
O espanholês dele deu-me ânimo para me explicar.
- Sou jornalista. Fui ver o mar e devo ter adormecido. Agora, agradeço que me deixem sair, porque deixei cair a mochila e posso ter perdido coisas muito importantes, que necessito recuperar.
O tal Hernandez voltou-se para os outros, falando-lhes em alemão.
- A mis amigos no le gustan los periodistas... para quien trabajas?
- Para a revista “Maravilhas de Portugal”.
- No conosco. De quien es?
- É uma revista de viagens, mas também tem artigos sobre sociedade.
- Nunca ouvi hablar della. Y esto que és?
- Um telemóvel.
- Para que serve?
- Para telefonar, claro! Mas vocês estão a gozar comigo, ou quê?
- Para telefonar como? - perguntou com ar incrédulo.
- Experimente. Marque um número.
O espanhol olhou desconfiado para o pequeno aparelho e voltando-se para os outros, falou-lhes em alemão. Pareceram ficar furiosos, mas ele apontou para os números do telemóvel e acho que os convenceu.
Estendeu-me o telefone e ordenou – Marque usted!
- Para quem?
- Peça à telefonista el número del Hotel.
- Telefonista? Qual é o número? 
- O Hotel és el 25.
Não me parece que esse número exista... a não ser que eu esteja a viver um pesadelo. Certo é que as viagens no tempo também não existem, mas estes homens empenham-se em fazer-me crer que sim... ou pôr-me louca. O melhor é fazer o que me ordenam...
Digitei os números, esperançada em ouvir, do outro lado da linha, uma explicação para esta palhaçada que já ultrapassou todos os limites, mas apenas ouço uma mensagem de que o número não está activo. Mensagem repetida em português, inglês e francês!!!!!!!!!!!!!
- Que se passa? Con quien estas hablando?
Agitados, os outros aproximam-se... como é que eu não reparei que accionara o alta voz? 
Vociferam! O que é que eles querem?
Furiosos, pegam na mochila e despejam-na. Apenas um corta-unhas, as chaves e... as fotos!!!!!!!!!!!
Meu Deus! Onde ficou a minha carteira e a pequena máquina fotográfica? Preciso de recuperá-las antes que desapareçam, cobertas pela areia!
Esqueço-me de onde estou e tento levantar-me. Uma coronhada na cabeça devolve-me à realidade. 
Rosnam palavras ameaçadoras. Mostram-me as fotografias.
- Que piensas que vás a hacer com estas fotos?
-Estive a entrevistar a senhora Vera Mouths. Foi por isso que aqui vim!
- Mentes! O Ferdinand e a Vera não estão em Portugal!
- Acabei de falar com ela – insisti.
Sem dó nem piedade desataram a agredir-me, ordenando que confessasse quem era e o que fazia com aquele aparelho de espionagem.
Como não tinha nada a dizer e eles não aceitavam a verdade, calei-me. Arrastaram-me então para a casa de banho, onde me mergulharam a cabeça na sanita, puxando pelo fio do autoclismo.
Devo ter perdido os sentidos por instantes. Quando comecei a recuperar, os meus carrascos falavam entre si, em alemão. Pouco consegui perceber, mas pareceu-me que falavam do casal Mouths. «Temos de contactar a águia negra. Vê se ela pode regressar ainda esta noite. Provavelmente ela tem conhecimento das atividades desta mulher». Baixaram as vozes, discutindo quase em surdina. Segundo me pareceu não estavam de acordo com o que haviam de fazer comigo.
Começava a pensar que iria morrer ali, do modo mais estúpido que conhecia, quando bateram à porta, com força.
O tal Wortus foi abrir, enquanto os outros se aproximaram de mim, e vendo que estava a recuperar, me mandaram ficar calada.
Um rapazito espreitou com ar amedrontado.
- Senhor! Está lá em baixo a Polícia! Querem falar consigo, porque o Salazar exige que se arreie a bandeira alemã, aqui do hotel.
- O quê? Não percebo nada!
Hernandez foi falar com o miúdo, que pelo tom de voz parecia estar amedrontado. Pretendeu saber como é que o Salazar teria conhecimento da bandeira hasteada e mostrava-se irado pelas ordens do governante.
- Não sei de nada, dizia o miúdo, já a chorar... mas parece que passou por aqui, vindo de Cascais. Parou o carro e disse aos polícias que o seguiam para cá virem...
Maldito intrometido! - Rosnou Hernandez que se apressou a traduzir a conversa aos outros.
Só quando vi a fúria genuína do trio, comecei a compreender que estava mesmo a viver um episódio dos anos 40... como se  isso fosse possível!
Será isto um pesadelo? pensei, beliscando-me. Mas a dor intensa que senti, tal como a água que me encharcava os cabelos e o rosto, fizeram-me ver que estava bem acordada.
Os meus carcereiros mostraram-se atrapalhados. Meteram-me um trapo na boca, ataram-me as mãos à torneira e fecharam-me na casa-de-banho, ordenando-me silêncio.
Assim que os ouvi abandonar o quarto ao lado, tentei soltar os braços, puxando com tanta força que a torneira começou a ceder. Quando, por fim, a arranquei da parede, consegui libertar-me das cordas e retirar o trapo da boca. Procurei, então, abrir a porta com todos os truques que aprendi nas séries americanas. Não é tão fácil como parece mas, por fim, o fecho cedeu e eu saí para o quarto, onde peguei na mochila, no telemóvel e nas fotos espalhadas pelo chão e saí, porta fora. Desci pela escada, atenta a qualquer ruído para me poder esconder. Quando desemboquei no átrio e não vi ninguém na receção, suspirei de alívio, dirigindo-me à portaria.
- Boa noite! Procura alguém?
Estremeci. Aterrorizada, voltei-me, disposta a correr porta fora. Mas, para meu alívio, finalmente deparei com uma pessoa normal, vestindo roupa actual e falando em português! Reparo que o átrio está bem iluminado e acolhedor.
- Não! Estou apenas baralhada! Tenho de ir à praia, porque perdi lá algumas coisas...
- Mas sente-se bem? Está toda molhada e com muito mau aspecto! Foi assaltada?
- Acho que adormeci no areal e devo ter sido atingida por alguma onda... mas tenho de voltar para tentar encontrar as minhas coisas...
- Se precisar de ajuda...
Agradeci. Pelo olhar dele, percebi que pensava que eu tinha bebido demais... mas não havia modo de explicar o que me sucedera. Eu própria estava inclinada a duvidar de mim.
Felizmente, do areal iluminado pelas luzes da Marginal, consegui resgatar os meus pertences em bom estado. Apressei-me, então, a regressar ao estacionamento e, tentando não pensar em nada, acelerei até Lisboa.
Como já disse, nunca falei a ninguém deste episódio que, inutilmente, procurei varrer da minha memória, até ver a foto da entrada da passagem subterrânea no Facebook... 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

[0041] Tchalé Figueira, mais um conto

TCHALÉ FIGUEIRA, Mindelo, São Vicente de Cabo Verde, 1953
Multifacetado (pintor, escritor e músico), Tchalé Figueira larga a sua invenção a partir de Cabo Verde até onde a nave da sua imaginação chega no perdido universo.


LIÇÃO DE HISTÓRIA GALÁCTICA NO PLANETA z525vipkx

Bem perto das coisas reais, autonomia ou medo na existência de sermos nós. Fosse pela imortalidade, quiçá valesse a pena vender a alma a deus ou ao diabo, mas tudo é ficção e teologia o que é? No planeta Terra, um menos doido que compreendeu  que os idiotas para existirem na sua miséria existencial precisavam de consolo, fez com que a maioria dos humanos acreditasse na vida eterna, no paraíso e na maldade do eterno sofrimento no fogo do inferno. As estrelas do infinito universo existem vivem e morrem, a poeira cósmica existe neste caldeirão que é  a via láctea movimentando-se em espiral... 

Há milhões de anos, uma vez apareceu, igual a uma esfera ínfima, um planeta chamado Terra. Fantástico! Numa coincidência quântica no caldeirão de sopa cósmica  nasceu o planeta e, após uma evolução de bilhões de anos, foi por aí, crescendo... Numa natural evolução biológica, apareceu vida e durante bilhões de anos esta vida foi evoluindo até chegar a um animal estranho, um símio, um macaco primitivo, que muito, muito mais tarde,  chamaram os antropólogos daquele planeta de Luci... Milhares de anos depois reproduziu-se  um homem Habilis e... muito, mas muito, muito, mas muito mais tarde, o macaco tornou-se falante e gramático, chamou-se a si próprio de Homem... 
Esta interessante criatura que na sua evolução escreveu umas coisas chamado livros, inventou também a palavra humanidade, filosofia que significava "amigo da sabedoria" mas algo nele estava errado. Ele era uma falha de construção...  

Foi este mesmo macaco humano que, apesar de ter criado  coisas bonitas como a poesia, arte, etc, tinha infelizmente algo de ignóbil e reptiliano, destrutivo e um medo primário que ficou no seu cérebro, algo que um macaco da sua espécie chamado Freud, um humano mais inteligente, chamou de subconsciente... Naquele cérebro complexo, os humanos depositavam, entre outras belezas, coisas horríveis não resolvidas que habilmente escondiam, eram maldades mortíferas...

Vivendo com fantasmas não resolvidos durante milhares de anos, os símios gramáticos lutaram uns contra os outros, inventaram algo que chamaram de política, eram vaidosos, adoravam o poder, eram gananciosos  de coisas absurdas, incompreensíveis aqui no nosso planeta. Durante a sua curta existência, lutaram uns contra os outros sem parar...  Mesmo assim, estranhamente, conseguiram evoluir com uma certa tecnologia primitiva e, após séculos e mais séculos crescendo a que intitularam de evolução, inventaram para a sua desgraça o conceito de raça que foi mais um dos muitos desastres na sua efémera existência !!!... 

Desculpem-me meninos deste nosso planeta z525vipx utopia, aqui na via láctea. A história do planeta Terra foi catastrófica... Poderia continuar a contar  a história da Terra que em tempos existiu aqui na nossa via láctea mas já é tarde, tenho que ir descansar... Para terminar, resta acrescentar o seguinte... Em distúrbios mentais e jactâncias, criaram aquilo que chamavam de pátria, bandeiras, hinos e exércitos. O pior foi ao inventaram a mortífera bomba feita de átomos a que chamaram de bomba atómica... Numa das suas absurdas guerras, um dia, carregando em botões, fizeram explodir aquilo que foi o seu planeta e é hoje na via láctea um montão de escombros rodando na imensidão do universo...

Coitados dos terrestres, meninos! Por serem um erro biológico desde a sua génese, morreram todos. É esta a triste história do planeta dos humanos. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

[0040] Teresa Balté, de novo e de elevador

TERESA BALTÉ, Lisboa, Portugal, 1942
Teresa Balté surpreende-nos com conto pleno de imaginação e humor. Um Chiquinho letrado dá lição a "cuspidor" profissional, a bordo de elevador (ou ascensor) da Carris. 

É este o 40.º post e quase o mesmo número de contos publicados no blogue que esperamos continuar a desenvolver e que vai tendo os seus leitores (e autores) fiéis.

Ver AQUI outro da mesma autora, publicado no Contos da Tinta Permanente.

OS BENEFÍCIOS DA LEITURA

Olá, Chiquinho, boas-tardes – disse o homem, acendendo um cigarro e cuspindo o tabaco que se lhe colara ao lábio.
– Boas-tardes, sr. Alves.
– Então a tua mãe não vem hoje buscar-te?
– Hoje não, sr. Alves, não pôde vir. Teve de ir ajudar uma vizinha que adoeceu.
– Coitada. A Deolinda da loja?
O Chiquinho não deu troco.

– E tu, Chiquinho, és capaz de ir sozinho para casa? Sabes o caminho? Não te perdes? – perguntou o homem soprando uma nuvem de fumo.
– A minha mãe deu-me dinheiro para o elevador. Ponho-me em casa num instante. É muito fácil.
– Cuidado com os automóveis – disse o homem. E, desencostando-se da parede, acrescentou: – Olha, eu tenho de tratar de umas coisas lá em cima, no bairro. Aproveito e faço-te companhia.

Atravessaram a rua em silêncio e subiram para o elevador quase vazio. O homem atirou a beata pela janela, sentou-se e voltou à conversa:
Ascensor da Glória (ou elevador...), Lisboa - Foto Wikipedia
– Então essa escola, Chiquinho? Já conheces as letras?
– Já conheço as letras gradas do jornal.
– O quê? Tão depressa? Não acredito…
– Já sei ler, sr. Alves – respondeu o Chiquinho.

O homem ou não ouviu ou não ficou convencido. Tossiu. Cuspiu para o chão. Suspirou… olhou para a direita e para a esquerda e, no fundo do carro, avistou um pequeno letreiro com uns dizeres.
– Então mostra lá o que sabes – pediu com voz rouca, e espetou o dedo gordo na direcção do aviso. – Vês aquele papel? Vai ler-me o que está além escrito.

O Chiquinho não pensou duas vezes. Levantou-se e foi. Abriu caminho pelo elevador, que entretanto se enchera, parou diante do letreiro e estudou as letras. Por fim, com ar solene e alto e bom som, soletrou: – “A-ten-ção-É-ab-so-lu-ta-men-te-pro-i-bi-do-cus-pir-so-bre-qual-quer-par-te-do-car-ro.-Mul-ta-cem-es-cu-dos.”

Todos se riram. O Chiquinho achou que o caso não era para graças. O elevador pôs-se lentamente em marcha. O sr. Alves engoliu e não deu troco.

Um "primo" do Sr. Alves do conto de Teresa Balté, o "Escarra & Cospe", figura inventada por Carlos Botelho para juntar às ilustrações dos seus "Ecos da Semana" na página final (a 8) do jornal humorístico "Sempre Fixe". A imagem que aqui vemos pertence ao último "Ecos da Semana", de 14 de Dezembro de 1950 (início em 1928), ali acompanhada de todas as outras que deram mais brilho e acinte às criticas semanais de Botelho. Há uma certa desilusão do autor nesta despedida, ao fim de décadas de insistência em centenas de pranchas, pois a crítica ao "Escarra & Cospe" não resultou. Até hoje...