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sábado, 22 de agosto de 2020

[0105] Pepita Tristão com nova obra literária. Apresentação de "Histórias de Amor e de Morte" decorrerá a 19 de Setembro, na Casa Sommer, em Cascais.

"Histórias de Amor e de Morte", da autoria de Pepita Tristão, e chancela da Emporium Editora, vai ser apresentado no próximo dia 19 de Setembro, pelas 16 horas, na Casa Sommer, em Cascais.

A cerimónia contará com a participação da autora do prefácio, a socióloga e escritora Maria Helena Ventura, que apresentará a obra.

Antes, no dia 12 de Setembro, a autora estará presente na Feira do Livro de Lisboa, no espaço da Editora Emporium, onde irá protagonizar uma sessão de autógrafos entre as 14 e as 15 horas.

Esta edição teve o apoio da Câmara Municipal de Cascais.
"Histórias de Amor e de Morte" é um livro povoado por mulheres que sonham, vivem sofrem e recomeçam ao longo de 16 contos anacrónicos, que têm por pano de fundo Portugal, as suas lendas, usos e história, com diálogos onde o real se funde com o onírico urdindo tramas de leitura deliciosa. Um corrupio de aventuras, ora divertidas ora dramáticas, que retratam também a evolução das mentalidades, através dos tempos.

domingo, 21 de junho de 2020

[103] Pepita Tristão e um terror em pontas

Pepita Tristão
A LENDA DE PÊRO BOI


Era uma vez uma linda menina de olhos cor do céu e longos cabelos louros que lhe escorriam pelos ombros em cachos de seda brilhante...

Era assim que começava a maior parte das histórias que minha avó me contava ao serão, fazendo-me sonhar com belas princesas e garbosos cavaleiros, sempre prontos a regatá-las de todos os perigos.

Para além da avó, também a minha querida Dadá, empregada de meus pais, me contava belas lendas de cariz popular. Mouras encantadas, almas penadas e tesouros escondidos, guardados por temíveis feras...

Claro que estas narrativas davam asas à minha imaginação, mergulhando-me num mundo onírico onde se viviam incríveis aventuras.

Mas não era a única a sonhar... contava-se na terra que certo indivíduo, cansado de ser pobre, decidiu quebrar um feitiço que diziam ocorrer junto à fonte de Pêro Boi, onde um rei mouro em fuga teria enterrado os seus tesouros.

Tencionando mandar recuperá-los mais tarde, e temendo ser roubado, o monarca transformou o seu vizir em touro, encarregando-o de guardar as riquezas que só deveria entregar a quem se aproximasse dele sem mostrar medo, numa noite de lua cheia.

Ora o nosso amigo já passara inúmeras vezes pela fonte, localizada numa quinta com o mesmo nome, onde, por coincidência, havia um touro bravo, sempre pronto a investir sobre quem se aproximasse, desprevenido,

Numa noite de lua cheia, o rapaz bebeu uns bagaços para lhe darem coragem e foi até à quinta de Pêro Boi, aproximando-se da fonte.

Quis o destino que o dito touro tivesse ido dessedentar-se a essa hora e, vendo que o homem se aproximava, invadindo os seus terrenos, investisse contra ele, não lhe dando sequer oportunidade de se arrepender da afoiteza.

Como resultado do embate, o destemido aventureiro foi parar ao hospital com várias costelas partidas. Se lá estava ou não o tesouro, nunca o soube e jurava nem querer mais saber, pois quando acordou do desmaio, apenas se recordava do bafo do monstro antes do impacto.

Dizia-se que só de ouvir falar do encanto, o desgraçado tremia de pânico.

In colectânea solidária "À Volta da Fogueira", Emporium Editora



domingo, 30 de junho de 2019

[0075] Novo conto de Pepita Tristão

NOITE


Sonolentamente virei-me na cama de espinhos de roseira que na Primavera protegeram as rosas vermelhas contra a avidez das crianças, que diariamente  queimam no jardim público o desejo de sonharem com castelos de chocolate e espadas de “chantilly”.

Toquei em tua cabeça e enrolei um dos teus caracóis negros em meus dedos pavorosamente alvos.

Um arrepio percorreu-me o corpo como se o teu cabelo fosse serpente gélida que me deslizasse pelos dedos, braços, seios, envolvesse meu ventre, violando a placidez de meu sono.

Soergo-me sobre o teu acordar espantado e bebo o brilho de teus olhos com o fel de meu desejo, respondo à pergunta que não formulaste com o sarcasmo de minha amargura, recebo o ar que respiras como pontas de estilete, que se alojam em meus pulmões, fazendo o sangue golfar em loucas cavalgadas que me electrizam o corpo.

Tombo sobre os espinhos, ferindo-me, enojada de mim e lamentando-te.

Abro as pernas à dor de te ter sem o prazer de me dar. Sinto a carne rasgada, a pele ensanguentada, e rio da porca da vida que não sonhei.

Semicerro os olhos. Arquejante, acaricio-te a pele sedosa com toda a ternura que a raiva de mim obriga a dedicar-te. Praguejo, em silêncio, contra o mundo, contra a existência, contra a crueldade e contra a minha baixa estima.

Sem amor à vida nem ao universo, sem força para lutar nem vontade de vencer, odeio ser obrigada a estar presente, como os demais, representando quotidianamente a peça da existência na sua amargura, no seu prazer, na intensidade de vivências que nunca mais sentirei.
De novo eu, agora eu mesma, na morte do sono que tudo faz esquecer, sou o fantasma de um ser a que o sofrimento roubou a vida, obrigando-o, por puro sadismo, a continuar fisicamente vivo.

Arrancas uma rosa vermelha da jarra que orna o quarto e entregas-ma, com amor. Beijas-me, com paixão. Correspondo...

Desesperada, olho em volta. Vejo uma pequena adaga dourada, sobre a mesa de cabeceira... uma adaga cravejada de diamantes, que me poderá devolver a vida.

Liberta do amplexo, compreendo que, mais uma vez, a imaginação me levou longe demais... é apenas a aliança que ontem à noite colocaste no meu anelar...

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

[0042] Pepita Tristão, em fundo de espionagem

PEPITA TRISTÃO, Castelo de Vide, Portugal, 1951
Pepita Tristão Cardoso, mais uma narrativa onde a ficção acasala com as vivências por ela trazidas das bancas das redacções e onde o absurdo tinge factos recolhidos do dia-a-dia profissional. 
A ficção absorve o ambiente de um pequeno policial mergulhado nas memórias que Cascais conserva dos tempos da espionagem durante a II Guerra Mundial.



UM ESPIÃO NO ATLÂNTICO

Uma fotografia partilhada numa rede social por conhecido historiador cascalense, trouxe-me à memória uma das mais bizarras estórias por mim vivida.
A imagem, captada no Monte Estoril, mostrava o Hotel Atlântico, após a passagem do camartelo do promotor da nova urbanização que em breve haveria de surgir. Por entre as tristes vísceras da esventrada unidade hoteleira, o arqueólogo assinalava um estranho orifício – a entrada da tão falada passagem subterrânea que terá permitido ao proprietário do hotel, no tempo da segunda Grande Guerra, enviar mensagens codificadas aos navios alemães que passavam ao largo.
Não consigo sequer descrever a alegria que me invadiu por – finalmente – alguém ter provado a existência da dita passagem, da qual muita gente falava, e que eu conhecera em circunstâncias bem estranhas. Circunstâncias que eu, como jornalista reconhecida pelo rigor e assertividade, nunca me atreveria a narrar. Sempre me afirmei pelo pragmatismo. Ainda hoje sou uma céptica quanto a casos que a ciência não consegue explicar, como posso acreditar no que me aconteceu naquele dia? No entanto, também me é impossível esquecer a terrível experiência que vivi e, embora não queira falar sobre ela, seja com quem for, a sua recordação constitui um fardo demasiado difícil de suportar, sobretudo agora, que se comprovou aquilo que antes era apenas uma estória sem fundamento. Daí ter-me decidido recorrer à ficção para em jeito de catarse, relatar em forma de conto, os factos por mim vivenciados.
Desculpem os leitores se, por vezes, a linguagem jornalística prevalece, por pura deformação profissional.
Tudo aconteceu quando, há alguns anos, a revista onde escrevo me encomendou uma série de artigos sobre pessoas centenárias. Chegar aos cem anos não é ainda muito vulgar, e nessa época, em Portugal viveriam apenas uns seiscentos idosos nessas condições. Não parecia, pois, muito fácil, encontrar pessoas cujas memórias me permitissem, através das suas histórias de vida, ilustrar o modo como foi vivido em Portugal o Século XX.
“O Século de todas as mudanças” era o título genérico desta aventura jornalística, que depressa demonstrou ser mais difícil de concretizar do que se previa. Isto porque, apesar de contactada por familiares de muitos centenários, que me asseguravam as ótimas condições em que os seus idosos se encontravam, quando chegava o momento da entrevista, acabava por aperceber-me que não era bem assim.
Oito em cada dez dos meus interlocutores obrigaram-me a verdadeiros exercícios de imaginação e a apurada pesquisa, para conseguir relatar as suas histórias. A arreliante surdez que afectava a maior parte deles, falhas de memória, confusões, porfias com os familiares que constantemente os corrigiam ou recontavam os diversos episódios, deixavam-me sempre com imensas dúvidas sobre a sua autenticidade.
Quando já estava decidida a finalizar a série de entrevistas, recebi uma chamada de uma senhora do Estoril a perguntar se gostaria de falar com a sua mãe que, embora fosse de nacionalidade holandesa, tinha vivido a maior parte da vida naquela localidade do concelho de Cascais. Tentei recusar, mas o facto de a senhora em causa ter 103 anos e de a filha insistir que havia tido uma vida cheia de aventuras, pois inclusive, teria pilotado o seu próprio avião de recreio, foi aliciante suficiente para eu anuir, considerando que poderia ser uma oportunidade para encerrar com chave de ouro o meu trabalho.
Combinado o encontro para a tarde, pois no lar onde a centenária vivia, a manhã era dedicada a questões de higiene e saúde, à hora aprazada, lá estava. Fizeram-me entrar numa pequena e acolhedora saleta, onde me esperavam duas senhoras. A mais nova, que parecia ter cerca de 70 anos, ergueu-se para me receber, identificando-se como a pessoa que me contactara pelo telefone. Feitos os cumprimentos, apresentou-me depois à mãe, uma idosa encantadora, que me fitou com uns olhitos vivos e irrequietos.
Como já se tornara habitual, depressa me apercebi que também era profundamente surda, pelo que a presença da filha seria imprescindível para conseguir estabelecer diálogo. 
E foi frente a um chá fumegante e aromático, alguns scones e boiãozinhos de geleia, servidos pelo pessoal do lar, ele próprio muito british, pois a maior parte dos seus utentes eram ingleses, que me fui apercebendo de quem era a minha interlocutora.
- Então, já mora no Estoril, há muitos anos? Comecei por perguntar, mas a minha interlocutora permaneceu muda, limitando-se a seguir-nos com o olhar inteligente e inquiridor.  
 - A senhora está a perguntar há quantos anos vive aqui, no Estoril. - A filha repetiu bem alto as minhas palavras.
Sorriu e encolheu os ombros: - Para mim, é como se tivesse vivido sempre. Era muito jovem quando cheguei a Portugal com o meu marido... fiquei apaixonada por esta costa maravilhosa! O mar... o céu azul... a areia prateada... o sol, sempre presente... - fez uma curta pausa, como que perdida nas suas recordações, mas logo prosseguiu:  
- Nessa época, o Estoril tinha uma beleza agreste. Não lhe resistimos! Este era o local ideal para estabelecermos o nosso lar e constituir família. Até chegar ao Estoril nunca havia criado raízes em lugar nenhum... sempre a saltitar de um lado para o outro. Em pequena, ora estava com os meus pais, ora com os meus avós e depois de casar, corri o mundo todo atrás do meu marido. Não sentia nenhuma terra como minha. De início, ficámos hospedados num hotel, enquanto procurávamos casa. Quando vi aquele palacete sobre o rochedo, virado para o oceano, decidi que aquela casa tinha de ser minha! 
Calou-se, ficando a olhar pela janela, com um ar sonhador. A tarde de início de Outono, era amena. Lá fora o sol brilhava, num céu descoberto. Pensei que era um bom dia para preguiçar no Tamariz, frente a um refrescante sumo de fruta, em vez de estar naquela pequena saleta a tentar dialogar com uma idosa, por muito interessante que ela se pudesse vir a revelar.
- Recorda em que ano isso foi? Perguntei, bem alto, sem que ela desse sinal de me ter ouvido.
- Foi na década de 30... eu nasci anos depois. - respondeu a filha, acrescentando: - Não tenho sequer memória de ter habitado naquele palacete. Eles compraram a casa ao Fausto Figueiredo. Já tinha pertencido ao Visconde de Malanza, mas nesse tempo não era tão grande como é agora. 
Virou-se para a mãe, elevando a voz: - Mãezinha, como é que era a casa quando a comprou?.
A idosa pareceu emergir de um sonho e sorriu. 
- Era linda! Não muito sumptuosa, mas chamavam-lhe palacete ou palácio... palácio Barahona, que era o nome de um dos anteriores proprietários.
Eu e o teu pai gastamos quase todas as nossas economias ao comprá-lo e decidimos abrir um hotel... era uma forma de ajudar-nos a manter a nossa casa... vivemos lá dias muito felizes. 
Calou-se por instantes e prosseguiu com um suspiro:
- Infelizmente gastamos muito com as obras de ampliação e adaptação para as novas funções e, apesar do nosso esforço, fomos obrigados a vendê-la. Adquirimos, então, aquela onde a minha filha vive, que também estava muito bem situada, mas tive muita pena de deixar o hotel!
Por então já me tinha apercebido que estava frente a Vera Mouths, que com o marido, Ferdinand abrira o Hotel Atlântico em 1932. Rapidamente, comecei a tentar lembrar-me do que havia lido sobre o casal.
- Os senhores eram de origem alemã, creio... certamente vem daí a fama de durante a II Guerra Mundial o hotel ser muito procurado pelos alemães.  
Incomodada, a filha foi taxativa - Não. Não foi o meu pai que gerou essas histórias da guerra. O meu avô paterno é que era alemão e até pode ter contribuído para atrair clientes germânicos, mas isso foi antes da guerra. A minha mãe é de nacionalidade holandesa.  
Vera olhava-nos com ar inquiridor.
- A senhora está a perguntar se a mãe é alemã!
- Não. Eu nasci na Holanda. A minha família estava ligada à hotelaria, possivelmente foi por isso que tive a ideia de converter a nossa casa em hotel. Demos-lhe o nome de Hotel Atlântico, por se localizar ali, à beira do mar. O meu sogro ajudou-nos a promover o estabelecimento e angariou muitos clientes, na Alemanha. Chegamos a ter hóspedes muito distintos.
Fitou a filha, como que a pedir ajuda.  
- Lembras-te do nome daquela jornalista muito conhecida? 
- A mãe está a falar da Baronesa Carola von Oertzen de Ilhenburg, que representava alguns dos mais reputados jornais de Berlim... mas tiveram outros hóspedes bem conhecidos... até se contam muitas histórias sobre isso.
- Apesar de tudo, acabamos por ser obrigados a vender o hotel àquele rapaz alemão... o Wortus.
- Há quem defenda que o Hotel tinha uma passagem secreta para a praia, que o proprietário utilizava para controlar o tráfego naval e enviar mensagens aos navios alemães que navegavam ao largo.
- Os meus pais nunca ouviram falar disso, nem descobriram qualquer passagem... apesar de poder ter sido aberta aquando da segunda ampliação encomendada pelo Wortus, mas tanto os meus pais como os nossos amigos sempre estiveram convictos que isso é pura efabulação.
Vera Mouths parecia agora mais animada. 
- Nessa época, Portugal era um País muito bom para se viver, sobretudo quando começou a Guerra... foi  no ano em que tivemos de nos desfazer do hotel... em 1939, não foi, filha?
- Foi sim mãe, em Setembro de 39... eu era bem pequena...
- Logo a seguir ao início da guerra o presidente Carmona declarou a neutralidade dos portugueses... não foi o Carmona, foi o outro senhor que esteve muitos anos no poder...
- Era o Salazar, mãe...
- Sim, esse... foi uma medida muito inteligente, porque Portugal tornou-se o País mais procurado pelos estrangeiros que fugiam à Guerra. Muitos ficavam só de passagem, porque preferiam ir para a América. Hospedavam-se aqui, na Linha, ou em Lisboa, até arranjarem forma de embarcarem num dos paquetes.
- Foi uma época boa para a hotelaria, mas já havíamos vendido o Atlântico... eu convivi com muitos desses refugiados... tornámo-nos amigos de alguns. Íamos à praia com eles, quando a minha filha era pequena... recordas-te?  
- Perante a aquiescência da filha, Vera prosseguiu: A maior parte dos nossos amigos já morreu, mas a minha filha ainda se dá com os descendentes. Nessa altura, a nossa vida era muito complicada, pois podíamos ser chamados para alguma missão em qualquer momento...
A filha interrompeu de forma abrupta: - O meu pai era empresário e tinha negócios em todo o mundo, pelo que estava sempre a ser chamado para resolver problemas, em diversos países. Normalmente, a minha mãe acompanhava-o, não era?
Antes de a progenitora responder, prosseguiu, falando sobre a empolgante vida do casal, testemunhada pelas fotografias que selecionara para me mostrar.
Embora na ocasião não tenha dado demasiada atenção à interrupção, os acontecimentos posteriores, acabaram por me fazer ver sobre um prisma diferente essa forma precipitada de desviar a conversa.
As fotos, a preto e branco, mostravam um casal jovem e bonito. Sempre vestido de acordo com as ocasiões fixadas pela objectiva. Um safari em África... um passeio em trenó no Canadá... um circuito de avião em território americano...
Escolhi algumas daquelas fotos, propondo-me logo dar realce àquela em que se podia ver a jovem Vera a pilotar com ar intrépido uma avioneta negra (ou assim me pareceu). Estava devidamente equipada, vestida também de negro e tinha o marido como copiloto. 
Antes de nos despedirmos, registei algumas imagens de ambas, visto que me tinham pedido para não levar fotógrafo, de modo a não inibir a velha senhora. 
Saí do lar eufórica, não só porque teria oportunidade de encerrar a série de entrevistas com chave de ouro, mas por ter conhecido alguém que preenchia o meu imaginário. Era assim que eu sonhava que teriam sido vividos os “loucos anos 20”! Aquela Vera, em jovem, parecia encarnar todas as heroínas dos filmes de espiões da II Guerra Mundial. Conseguia situá-la na Riviera Francesa e também na Portuguesa, quando refugiados e reis depostos por aqui deambularam. Talvez ela tivesse sido uma espia alemã ou uma agente dupla que utilizasse o seu veículo alado, sabe Deus para que encargos...
Empolgada como estava, e sem vontade para rumar para a capital onde me aguardava o esfumaçado ambiente da redacção, optei por vaguear pelos jardins do Casino, construindo mentalmente a história que iria escrever. Acabei por jantar nas Arcadas do Estoril.
Decidi então ir até ao Atlântico, tentar imaginar como teria sido o Palacete que encantara, há mais de sete décadas, a minha entrevistada. Anoitecia quando estacionei no parque do hotel e depressa percebi que nada restava nele que recordasse um palacete do fim do século XIX, quando a arquitetura de Veraneio ainda imperava por ali. 
Ainda assim, não me apetecendo abandonar o local, rumei até à praia. Queria contemplar aquelas águas que um dia terão sido vigiadas por quem tinha informações a transmitir ou ordens a receber.
Sentei-me numa rocha, observando o vai-vem das ondas, que serenamente se transformavam em branca espuma, confundindo-se com a areia.
Não sei quantas horas ali fiquei, ou se adormeci, porque, quando dei por mim, estava tudo escuro e eu sentia-me enregelada pela aragem agreste que me envolvia. Preparava-me para me levantar quando reparei que algo estava diferente. Não consegui perceber bem o que era... se o hotel,  cujas janelas  iluminadas não bastavam para esconder que à minha volta e mesmo em frente, em Cascais, a luz era escassa. 
- Deve ter havido um apagão – pensei. Mas, apesar de tudo estar escuro, divisei, um pouco mais à frente, no areal, um sujeito que agitava uma lanterna, em direção ao mar. Estranhei, até que reparei que ao longe, na imensidão negra das águas, um pequeno clarão brilhava intermitentemente.  
Tentei vislumbrar algo na indefinida linha do horizonte. A lua, em quarto minguante, não ajudava, mas, mesmo assim, pareceu-me adivinhar o vulto de um navio, por vezes delineado sob o escasso luar.
-Sinais Morse, pensei – recordando as histórias de espiões que tantas vezes ouvi. Mas logo raciocinei e percebi que não poderia ser. Nesta época usam-se os telemóveis... o que não significava que a minha situação não fosse inquietante, pois o mais certo era estar a presenciar alguma atividade ilícita, possivelmente contrabando ou algo pior. Por isso, decidi manter-me quieta e semi- escondida.
Não sei de onde surgiu outro vulto, de gabardina escura, que se dirigiu ao sujeito da lanterna. Começaram a falar e eu achei que era a altura certa para sair dali.
Ergui-me para retroceder, quando os ouvi gritar numa voz gutural. Voltei-me e vi ambos a correr em minha direcção, com um ar muito pouco amigável. Em pânico, comecei também a correr, sem pensar, sequer de onde me vinha a sensação de perigo que me toldava o raciocínio. Sentindo-os cada vez mais perto, apercebi-me que os malditos saltos me dificultavam a corrida, pelo que fiz saltar os sapatos, conseguindo, por fim, distanciar-me.
Maldita ideia! Uma estúpida ponta de rocha meteu-se no meu caminho, fazendo-me tropeçar e estatelar-me na areia! Uma dor aguda fez-me temer ter partido um dedo do pé... mas não tive tempo para  me certificar, pois já dedos de aço me erguiam do solo e me abanavam com violência. “Quem és?”, perguntaram-me em alemão... não respondi. Os escassos três meses que estudei alemão, antes de desistir de germânicas e enveredar pelo jornalismo, não me permitiam falar. De qualquer modo, também preferia fingir que os não compreendia...
O outro já se aproximara e mostrava-se ainda mais furibundo. Dirigiu-se a mim com uma algaraviada indecifrável. Dessa vez, nem precisei de fingir! Quem diabo pensam estes gajos que são? 
Depois de muitas exclamações que me soaram a ameaças e impropérios, pareceram desistir.  
- Acho que estou safa! – pensei – aproveitando para erguer do chão a minha mochila.
Por azar, esta abrira-se e os meus haveres espalharam-se pelo areal. Peguei de imediato no telemóvel, que se iluminara com a queda. Os meus perseguidores olharam, primeiro admirados e logo enfurecidos.
- O que é isso? - perguntou um deles, arrancando-me o aparelho das mãos. Dessa vez entendi e até me esqueci de fingir.
- O meu telemóvel!
- O quê? - insistiram. Só nessa altura me apercebi que ambos trajavam fatiotas estranhas. Pareciam saídos do filme “Casablanca”. 
Ou viajei no tempo, ou estes gangsters são dos Apanhados – pensei. Deve mesmo ser isso... que raio de brincadeira! As minhas coisas continuavam espalhadas na areia e corria o risco de ficar sem elas, pois não se via quase nada. Dei uma gargalhada e gritei-lhes: Basta! Já vi que são dos Apanhados!
Uma estalada foi a resposta do energúmeno da gabardina. A força foi tanta que me deixou atordoada. Quis protestar, mas voltaram a agredir-me enquanto me arrastavam para um buraco escuro.
Pareceu-me depois ser empurrada por um túnel, cujos lados eram iluminados intermitentemente pela lanterna do primeiro indivíduo que vira na praia. Gritei, mas senti um cano duro a pressionar-me as costelas, enquanto me mandavam calar, empurrando-me depois por um corredor até um dos quartos numerados do hotel.
Sentaram-me numa cadeira e dispuseram-se a continuar o interrogatório. Depressa se convenceram que não havia hipótese de diálogo e conferenciaram em voz baixa, enquanto me apontavam uma arma.
O indivíduo da gabardina saiu, regressando passados uns minutos, com outro capanga.
- O que se passa, Wortus? - perguntou o terceiro indivíduo, que usava igualmente elegantes vestes de início do século passado.
Os três afastaram-se um pouco, falando em voz baixa, enquanto manuseavam com estranheza o meu telemóvel. O tal Wortus continuava a apontar-me a arma - começo a acreditar que viajei no tempo!!! - pensei, enquanto observava o quarto, cujo mobiliário antigo em nada destoava das vestes dos meus carrascos.  
A situação era tão estranha, tão inacreditável que continuei convicta tratar-se de uma montagem... No entanto não tive tempo para raciocinar.
O terceiro elemento acercou-se de mim, mostrando-me o telemóvel. 
- Me llamo Hernandez. Entiendes español?
- Um pouco
- Estás metida num grande lio. Mis amigos no mienten quando me dicen que te matan se no lhes disseres quien eres e lo que hacias en la praia.
O espanholês dele deu-me ânimo para me explicar.
- Sou jornalista. Fui ver o mar e devo ter adormecido. Agora, agradeço que me deixem sair, porque deixei cair a mochila e posso ter perdido coisas muito importantes, que necessito recuperar.
O tal Hernandez voltou-se para os outros, falando-lhes em alemão.
- A mis amigos no le gustan los periodistas... para quien trabajas?
- Para a revista “Maravilhas de Portugal”.
- No conosco. De quien es?
- É uma revista de viagens, mas também tem artigos sobre sociedade.
- Nunca ouvi hablar della. Y esto que és?
- Um telemóvel.
- Para que serve?
- Para telefonar, claro! Mas vocês estão a gozar comigo, ou quê?
- Para telefonar como? - perguntou com ar incrédulo.
- Experimente. Marque um número.
O espanhol olhou desconfiado para o pequeno aparelho e voltando-se para os outros, falou-lhes em alemão. Pareceram ficar furiosos, mas ele apontou para os números do telemóvel e acho que os convenceu.
Estendeu-me o telefone e ordenou – Marque usted!
- Para quem?
- Peça à telefonista el número del Hotel.
- Telefonista? Qual é o número? 
- O Hotel és el 25.
Não me parece que esse número exista... a não ser que eu esteja a viver um pesadelo. Certo é que as viagens no tempo também não existem, mas estes homens empenham-se em fazer-me crer que sim... ou pôr-me louca. O melhor é fazer o que me ordenam...
Digitei os números, esperançada em ouvir, do outro lado da linha, uma explicação para esta palhaçada que já ultrapassou todos os limites, mas apenas ouço uma mensagem de que o número não está activo. Mensagem repetida em português, inglês e francês!!!!!!!!!!!!!
- Que se passa? Con quien estas hablando?
Agitados, os outros aproximam-se... como é que eu não reparei que accionara o alta voz? 
Vociferam! O que é que eles querem?
Furiosos, pegam na mochila e despejam-na. Apenas um corta-unhas, as chaves e... as fotos!!!!!!!!!!!
Meu Deus! Onde ficou a minha carteira e a pequena máquina fotográfica? Preciso de recuperá-las antes que desapareçam, cobertas pela areia!
Esqueço-me de onde estou e tento levantar-me. Uma coronhada na cabeça devolve-me à realidade. 
Rosnam palavras ameaçadoras. Mostram-me as fotografias.
- Que piensas que vás a hacer com estas fotos?
-Estive a entrevistar a senhora Vera Mouths. Foi por isso que aqui vim!
- Mentes! O Ferdinand e a Vera não estão em Portugal!
- Acabei de falar com ela – insisti.
Sem dó nem piedade desataram a agredir-me, ordenando que confessasse quem era e o que fazia com aquele aparelho de espionagem.
Como não tinha nada a dizer e eles não aceitavam a verdade, calei-me. Arrastaram-me então para a casa de banho, onde me mergulharam a cabeça na sanita, puxando pelo fio do autoclismo.
Devo ter perdido os sentidos por instantes. Quando comecei a recuperar, os meus carrascos falavam entre si, em alemão. Pouco consegui perceber, mas pareceu-me que falavam do casal Mouths. «Temos de contactar a águia negra. Vê se ela pode regressar ainda esta noite. Provavelmente ela tem conhecimento das atividades desta mulher». Baixaram as vozes, discutindo quase em surdina. Segundo me pareceu não estavam de acordo com o que haviam de fazer comigo.
Começava a pensar que iria morrer ali, do modo mais estúpido que conhecia, quando bateram à porta, com força.
O tal Wortus foi abrir, enquanto os outros se aproximaram de mim, e vendo que estava a recuperar, me mandaram ficar calada.
Um rapazito espreitou com ar amedrontado.
- Senhor! Está lá em baixo a Polícia! Querem falar consigo, porque o Salazar exige que se arreie a bandeira alemã, aqui do hotel.
- O quê? Não percebo nada!
Hernandez foi falar com o miúdo, que pelo tom de voz parecia estar amedrontado. Pretendeu saber como é que o Salazar teria conhecimento da bandeira hasteada e mostrava-se irado pelas ordens do governante.
- Não sei de nada, dizia o miúdo, já a chorar... mas parece que passou por aqui, vindo de Cascais. Parou o carro e disse aos polícias que o seguiam para cá virem...
Maldito intrometido! - Rosnou Hernandez que se apressou a traduzir a conversa aos outros.
Só quando vi a fúria genuína do trio, comecei a compreender que estava mesmo a viver um episódio dos anos 40... como se  isso fosse possível!
Será isto um pesadelo? pensei, beliscando-me. Mas a dor intensa que senti, tal como a água que me encharcava os cabelos e o rosto, fizeram-me ver que estava bem acordada.
Os meus carcereiros mostraram-se atrapalhados. Meteram-me um trapo na boca, ataram-me as mãos à torneira e fecharam-me na casa-de-banho, ordenando-me silêncio.
Assim que os ouvi abandonar o quarto ao lado, tentei soltar os braços, puxando com tanta força que a torneira começou a ceder. Quando, por fim, a arranquei da parede, consegui libertar-me das cordas e retirar o trapo da boca. Procurei, então, abrir a porta com todos os truques que aprendi nas séries americanas. Não é tão fácil como parece mas, por fim, o fecho cedeu e eu saí para o quarto, onde peguei na mochila, no telemóvel e nas fotos espalhadas pelo chão e saí, porta fora. Desci pela escada, atenta a qualquer ruído para me poder esconder. Quando desemboquei no átrio e não vi ninguém na receção, suspirei de alívio, dirigindo-me à portaria.
- Boa noite! Procura alguém?
Estremeci. Aterrorizada, voltei-me, disposta a correr porta fora. Mas, para meu alívio, finalmente deparei com uma pessoa normal, vestindo roupa actual e falando em português! Reparo que o átrio está bem iluminado e acolhedor.
- Não! Estou apenas baralhada! Tenho de ir à praia, porque perdi lá algumas coisas...
- Mas sente-se bem? Está toda molhada e com muito mau aspecto! Foi assaltada?
- Acho que adormeci no areal e devo ter sido atingida por alguma onda... mas tenho de voltar para tentar encontrar as minhas coisas...
- Se precisar de ajuda...
Agradeci. Pelo olhar dele, percebi que pensava que eu tinha bebido demais... mas não havia modo de explicar o que me sucedera. Eu própria estava inclinada a duvidar de mim.
Felizmente, do areal iluminado pelas luzes da Marginal, consegui resgatar os meus pertences em bom estado. Apressei-me, então, a regressar ao estacionamento e, tentando não pensar em nada, acelerei até Lisboa.
Como já disse, nunca falei a ninguém deste episódio que, inutilmente, procurei varrer da minha memória, até ver a foto da entrada da passagem subterrânea no Facebook... 

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

[0038] Mais um conto de Pepita Tristão

PEPITA TRISTÃO, Castelo de Vide, Portugal, 1951
Na banca dos jornais, Pepita Tristão Cardoso recolhe situações que, mais tarde, povoam os contos que nos oferta. São nacos de vida transcritos para a ficção. São evocações onde a humanidade pulsa, anima, sofre e nos tange com o seu suor.


BODA MOLHADA...

Camila estava sentada no chão, sentindo nas costas a aspereza do tronco rugoso da velha oliveira em que se recostara. O olhar perdido no azul infinito e luminoso, revelava que se perdera em pensamentos longínquos.
O casamento de Isabel deixava-a apreensiva. A primeira a dar o nó fora Conceição que juntamente com Isabel eram as suas melhores amigas.
A São já tinha duas filhas gémeas e parecia não querer ficar-se por aí. Isabel certamente, em breve iria querer também ser mãe, algo que não sucedia com ela.
O seu relógio biológico andaria mais devagar?
A verdade era que nem sequer sentia vontade de criar família. Pugnava muito pela sua independência, gostava da vida que tinha, da liberdade de poder estar ali, no meio do nada, sentada na terra seca do olival da avó, sem ter de dar explicações a ninguém da forma como e onde passava o seu tempo. Gostava de chegar a casa, instalar-se comodamente no sofá a ler um livro e a ouvir as suas músicas preferidas, sem ter ninguém para cuidar excepto a sua Pantufa, uma siamesa cor de mel.
A recordação da Pantufa arrancou-lhe um sorriso indolente, que se foi esvaecendo, à medida que o calor e a quietude a mergulhavam em agradável sonolência.
Sonhou que corria, alegremente, num interminável prado verde, pontilhado de papoulas, sob um sol radioso. Sentia-se incrivelmente leve e feliz, até que as papoulas começaram a crescer, aproximando-se dela, cercando-a, ameaçadoras. Queria fugir, mas não via nenhuma abertura naquele circulo sangrento que parecia querer suga-la. Transpirava, apavorada, quando, ao longe ouviu a voz da avó: - Camila, anda para casa. As tuas amigas já chegaram.


*

O casamento marcado para finais de Outubro preocupava todos, excepto os noivos, ansiosos pelo dia em que a sua união seria - finalmente – oficializada. O vestido de noiva há muito que havia sido idealizado e, fosse Verão ou Inverno, Isabel não trocaria o modelo. Quanto ao fato do noivo, nunca fora preocupação, pois André sempre dissera que o compraria nas vésperas da boda.
Já Conceição, a madrinha e mãe das pequenas gémeas indigitadas como “meninas das alianças”, mostrara-se bastante apreensiva:
- Não sei o que escolher. Tanto pode estar calor como frio, nessa altura. E se chove?
- Se chove? Tem de chover - responde Camila - Nunca ouviram dizer 'Boda molhada, boda abençoada?
Isabel ri:
- Isso é para masoquistas. Não esqueço o dia do casamento da São. Apanhamos uma molha que não deu para esquecer. O meu blazer nunca mais pode ser aproveitado!

*

As pétalas vermelhas da rosa atrevida que lhe ornava os cabelos, começaram a cair, espalhando-se, quais rubis, na areia branca do recinto.
O grupo de músicos abandonava já o palanque, dirigindo-se, também eles, para a mesa lateral onde fora colocado o gigantesco bolo de noiva, enquanto Conceição arrancava a rosa dos cabelos negros, provocando com o movimento brusco a debandada das restantes pétalas que esvoaçaram pelo chão
Talvez por mimetismo, ou por excesso de calor os botões de rosas que ornavam a cúpula da estrutura e durante o dia haviam desabrochado, mostrando as suas pétalas brancas ou vermelhas em toda a sua plenitude e, agora, deixavam-nas agora cair, vencidas pela sede.
Conceição que procurava com o olhar um recipiente onde deixar o pedúnculo da flor, sorriu, encantada, com o tapete, ainda viçoso, que matizava o recinto.
Devagar, encaminhou-se para a zona onde as pessoas aguardavam, de novo sentadas, o champanhe e o bolo que iriam ser servidos, enquanto o animador experimentava os seus mil e um truques para entreter os convivas expectantes e, novamente, despertos para a gula.
Já o serviço de catering retirava os pratinhos com os acepipes entretanto servidos, quando Isabel e André voltaram, trajando mais casualmente, preparados para partilhar o bolo e abandonar, de seguida o recinto, rumo ao aeroporto.
Foi no momento em que André cortava a primeira fatia que o ruído ecoou sobre as vozes dos convivas, e uma enorme bátega de água se abateu sobre a cúpula.
Perante a forte chuvada, depressa se fizeram pequenas poças que, escorrendo, penetraram a zona coberta e arrastaram as pétalas aveludadas, em direcção ao jardim, onde em breve seriam húmus, fecundando a terra que, sequiosa, se abria, à húmida dádiva dos céus.
Divertida, Camila olhou para Conceição exclamando: - Eu bem te disse: tinha de chover! Todos sabem que boda molhada é boda abençoada!

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

[0017] Pepita Tristão e um rafeiro quase familiar...

PEPITA TRISTÃO, Castelo de Vide, Portugal, 1951

Pepita Tristão Cardoso traz dos episódios, por vezes absurdos, do quotidiano comum a matéria com que a narrativa se enche. 

Capta na bancada da Imprensa Regional a substância utilizada pelo seu outro lado - o de ficcionista.





O TIO RODOLFO 

Convidaste-me para jantar e, embora sem vontade aceitei.
No fim e ao cabo, somos casados há tantos anos, mas a rotina não entrou em nossas vidas.
Talvez por minha culpa... talvez por tua... ou porque somos ambos demasiado criativos para repetir os mesmos passos, dia após dia.
No entanto, ontem, apesar de não me apetecer, resolvi ir jantar contigo. 
Disse adeus ao único dos nossos filhos que resolveu ficar em casa numa tarde de domingo e rumamos porta fora.
Como de costume, sem destino. 
- Queres ir até às Festas do Mar, comer umas febras ou à Feira do Artesanato? perguntas sem obter resposta, pois eu queria mesmo era enterrar-me no sofá a ver televisão.
- Já vi que não te apetece, que tal a Alcabideche?
Encolho os ombros. Neste momento tanto me faz. 
Uma travagem súbita projectou-me quase atingindo o vidro dianteiro. Abençoado cinto de segurança!
Era um cão enorme e façanhudo que se tentara suicidar, atravessando a auto-estrada.
Apesar de mal lhe ter tocado, ficou parado a olhar para o carro, com um olhar infeliz.
- Só me faltava esta! – exclamas, enquanto eu tento recobrar o uso da palavra. Acho que nem lhe toquei e não sai dali!
- Deixa que eu vou ver. 
- Mas não posso parar no meio da auto-estrada! – quase gemeste.
- Tenta encostar mais à direita
A fila atrás de nós começava a formar-se, enquanto alguns apressados manobravam pela esquerda, quase roçando o animal. 
Abro a porta do carro e ele aproxima-se, parecendo querer entrar. Saio e deixo-o entrar, abrindo a porta de trás. 
Acomoda-se, como se apenas estivesse à espera disso. 
- Que é que fazemos? – perguntas
- Temos de procurar um veterinário e depois ver se tem dono.
- Num domingo, às 21 h? Onde vou eu descobrir um veterinário?
Recordei-lhe que a clínica veterinária onde levámos os nossos cães trabalha 24 horas por dia e ele dirigiu-se para lá.
Ao sair do carro, já com a iluminação da clínica atentamos melhor no animal, que nos seguia docilmente. 
- É façanhudo e velho. Parece-se com o teu tio Rodolfo – comentas com humor... afinal já te recompuseste da contrariedade...
Depois de observá-lo, o veterinário concluiu que apesar de mal tratado e possivelmente mal alimentado – deve ter andado ao abandono! – o animal não tinha qualquer ferimento.
- Onde é que vão metê-lo? Pergunta preparando-se para preencher a ficha. 
- De momento vai para nossa casa. Amanhã procuramos o dono nas imediações do local onde o encontrámos. 
- O mais certo é ter sido abandonado há muito tempo – desencoraja-nos o veterinário. Querem mesmo levá-lo?
Assentimos ambos, pensando na reacção da Bibi e do Lobo, ao receberem outro hóspede. 
Se calhar teríamos de separá-los, pois o Lobo, um pastor alemão de grande porte não devia querer concorrência. Quanto à Bibi, a minha cocker, não levantaria problemas, pois era muito brincalhona e amistosa para os outros cães. 
Só não gostava do Tio Rodolfo, que as poucas vezes que nos visitava, tinha prazer em irritá-la, pelo que logo que o via se escondia, rosnando.
Já o Lobo adorava-o, entregando-se às mais divertidas brincadeiras, quando ele o provocava.
Ensimesmada como estava nem ouvi o veterinário perguntar em que nome devia preencher a ficha do bicho, “mistura de rafeiro alentejano e pastor alemão”, só dando atenção à resposta do meu marido. “Rodolfo!”.
Sustive um impropério, até porque fixando melhor o animal, até acabei por achar umas semelhanças com o legendário irmão de minha mãe, pelo que disfarcei um sorriso, enquanto ele pagava a conta.
Gorado o nosso jantar, regressámos a casa, o que não me desagradava nada, embora a instalação do Rodolfo me roubasse qualquer veleidade de passar um serão sossegado.
Mal parámos o carro, Rodolfo saiu, dirigindo-se alegremente para a porta do jardim. 
- Até parece que conhece a casa! – comentei.
- E conhece... pelo olfacto percebe que é aqui.
Para nosso espanto, não mostrou qualquer receio do Lobo, que contra seu costume, o recebeu de rabo a abanar, com latidos alegres.
- Parece que não há crise! – exclamas.
- Ainda bem. Assim, pode ficar cá fora, na casota da Bibi.
Tínhamos comprado duas casotas, na esperança de que a Bibi se habituasse a dormir debaixo do alpendre, como o Lobo, mas ela recusara-se terminantemente. 
Assim, antes de entrar em casa fui à arrecadação procurar um dos velhos cobertores que guardara para os cães, e um prato que enchi com ração.
O Rodolfo não se fez rogado, devorando tudo, avidamente, perante o olhar sereno do Lobo. 
Quando acabou, estendi o cobertor na casota vazia, que lhe mostrei, dando-lhe a perceber que lhe pertencia. 
Farejou, entrou e ficou a olhar para mim, como quem espera alguma ordem. – Deita-te! 
Mal tinha pronunciado a sentença, eis que surge, furiosa, a minha pequena e doce Bibi. 
Latindo e rosnando, fez recuar Rodolfo, entrando para a casota, onde se instalou sempre de dentes arreganhados.
Por mais que tentasse levá-la para casa, não consegui. Resignada, e como a noite estava óptima, decidi ir procurar outra manta que estendi no chão, para que o nosso visitante se deitasse, mas... ao virar-me, não o vislumbrei por perto. 
Onde é que ele se meteu? No nosso jardim. do Rodolfo nem rasto. 
Entrei em casa, quando o meu filho mais novo espreitava à porta, com ar contrariado, por ter sido arrancado da frente do computador.
- Sempre gostava de saber o que vocês estão a fazer às voltas aí fora, enquanto a casa é invadida por cães pulguentos.
Praguejei, entre dentes. Enquanto estava a arranjar-lhe a cama na rua, Rodolfo entrara, sem cerimónias para a sala e fora-se deitar com o maior à-vontade, num cadeirão antigo que ninguém usava. 
O cadeirão do “tio Rodolfo”, como lhe chamávamos, por ser o preferido do meu tio, nas suas raras e inesperadas visitas. 
- Não me digas que não se parece mesmo com o teu tio – ri-se o meu marido.
- Brincas, mas eu começo a não achar piada. O cão tem algo estranho nas suas atitudes.  Parece compreender-nos... sempre ouvi dizer que os rafeiros são mais espertos que os outros cães.
Dada a pouca vontade que ele manifestava em abandonar o velho cadeirão e como eu já estava demasiado cansada, desisti e resolvi deitar-me, mesmo sem jantar, depois de recomendar ao meu marido para esperar que os outros filhos chegassem, não fosse o animal assustá-los, ou, como não os conhecia magoá-los.
Deitei-me a pensar em meu tio, que era pouco mais velho do que eu e sempre fora considerado a “ovelha negra” da família.
Oferecera-se para a tropa como voluntário sem ninguém saber e quando fora destacado para África, pouco antes do 25 de Abril, nunca mais dera notícias, para desgosto da minha avó materna e de minha mãe que pensava ter perdido o seu irmão mais novo.
Passados uns dez anos, sem qualquer aviso prévio, ligou para casa, dizendo que tinha acabado de chegar, e pedindo para o irem buscar ao aeroporto.
Como a avô e a mãe ficaram completamente atarantadas, vieram ter comigo, que estava com baixa de parto e  rogaram-me que fosse lá. 
Assim que me viu, abraçou-me, perguntando por todos, como se tivesse acabado de passar uma semana de férias fora.
Trazia um saco cheio de prendas para toda a família, excepto para os meus três filhos, cuja existência desconhecia. 
Com uma disposição exuberante distribuiu artefactos africanos por todos nós.
Decidiu ficar em minha casa. “Gosto de estar entre jovens”. A avó é que choramingou um pouco, incapaz de conter a felicidade de ver reaparecer o filho. 
Durante duas semanas esteve em casa, partilhando o quarto com o meu filho mais velho, deitando-se no chão, dentro do seu saco cama, pois recusou o quarto de hóspedes.
Contou mil e uma aventuras que viveu em África, aflorando ao de leve que deixara ainda alguns negócios pendentes. 
Num domingo, telefonou para a família, convidou-nos todos para jantar fora e anunciou, com a maior das naturalidades que no dia seguinte embarcava para a América do Sul.
“Negócios”, foi a única explicação.
Desde então, aparecia na minha casa uma ou duas vezes por ano, em visitas que podiam durar dois dias ou duas semanas, chegando carregado com os mais incríveis presentes, oriundos dos mais recônditos lugares da terra, e partindo, sem deixar endereço nem contacto.
Em casa, mesmo ficando no quarto de hóspedes, nunca utilizava a cama. “Mau hábito para quem passa a vida em expedições”, explicava.
Gostava de sentar-se no velho cadeirão do avô, que eu colocara em minha sala, quando a avó decidira livrar-se dos “monos” que lhe recordavam demasiado 40 anos de vida a dois e, rodeado pelos meus filhos contava histórias de indígenas, das Áfricas e Américas.
Há algum tempo que o tio Rodolfo não aparecia em casa. 
Viera pouco antes do Natal passado e desde então, até hoje - já o Outono ia adiantado - não dera notícias.
Que pensaria ele se chegasse a casa e encontrasse um cão com o seu nome? Se calhar, achava piada e soltaria uma das suas sonoras gargalhadas.
Sem irmãos, Rodolfo é para mim o irmão que não tive e, apesar do pouco contacto que temos mantido, gosto mesmo muito dele!
Pensando nisto, acabei por adormecer.
No dia seguinte andámos, com o Rodolfo atrás, pelos bairros localizados perto do local da auto-estrada onde o encontrámos. Ninguém o conhecia.
Devia ser de uns ciganos que por aí acamparam com uma data de cães, foi a opinião generalizada.
Passaram-se mais alguns dias e Rodolfo começou a fazer parte da nossa rotina. Seguia-me para todo o lado. Durante o dia brincava em alegres correrias com o Lobo e ao serão, instalava-se no sofá da sala, para desespero da Bibi, que morria de ciúmes.
- Tenho de habituar este cão a ficar lá fora – repetia eu, todas as noites, mas acabava por o deixar ficar na sala e deitar-se ao lado da cama do meu filho mais velho, que o adorava.
Cerca de uma semana depois, recebemos uma chamada da Índia.
- Deve ser o tio Rodolfo, comento, enquanto aguardo a ligação.
Era o próprio embaixador de Portugal naquele país que queria falar com um familiar de Rodolfo Meireles.
- É o meu tio – respondo, preocupada.
Incrédula, ouço a voz que do outro lado do mundo me comunica que o tio teve um acidente grave e, não resistindo aos ferimentos, acabara por falecer, horas depois.
- Quando? – perguntei, com a voz embargada.
- No passado domingo.
Rodolfo, que estava deitado aos meus pés, parece ter compreendido o meu desgosto. Levantou-se e, erguendo a pata direita, pousou-a sobre os meus joelhos. Fitando-me com o seu doce olhar, parecia querer dizer-me: - Não te preocupes. Eu estou aqui contigo e desta vez, vim para ficar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

[0007] Pepita Tristão oferece-nos "Sombras e sonhos"

PEPITA TRISTÃO, Castelo de Vide, Portugal, 1951
Pepita de Alegria Sanchez Tristão Cardoso é uma veterana da imprensa regional portuguesa que, ao dia a dia das notícias, acrescenta o mister de contista permitindo-lhe o repassar para a novela muito do que perpassa diante dos seus olhos. E são contos poderosos…


SOMBRAS E SONHOS

O dia amanheceu cinzento, tal como o meu espírito.
Por entre um nevoeiro cerrado, impróprio de um Verão que se preza, diviso a tua sombra.
Chamo-te, mas não olhas para trás. Prossegues num passo apressado.
Por mais que estugue o meu, seguindo na tua peugada, quase te perco, de cinzento vestido, entre a névoa que teima em não abrir.
Corro, mas mesmo assim, a distância mantêm-se até que paras junto do quiosque onde diariamente comprávamos o jornal – o único que às 7. 30 da manhã já está aberto.
Aproximo-me, enquanto folheias um vespertino e tento puxar-te pelo braço para te chamar a atenção.
A minha mão encontra o vácuo. Tu não és senão a minha vontade de te trazer de novo à vida.
Envergonhada, pago o jornal que folheaste.
O meu coração sente-se ainda mais oprimido, enquanto, como uma autómata, me dirijo ao café onde tantas vezes tomámos o pequeno-almoço, juntos, ainda impregnados de vestígios da fusão dos nossos corpos, que nem o duche rápido conseguia apagar.
Sento-me numa mesa, solitária, frente à enorme vitrina que me separa da rua pardacenta.
Em vez da habitual bica, peço ao rapaz ensonado que me atende, meia de leite e uma merenda mista – o teu pequeno-almoço habitual – e, enquanto aguardo, folheio maquinalmente o periódico, sem atentar nas notícias.
Ainda mal recuperada, penso na visão que tive e que não posso deixar repetir-se. Parece que a dor da tua perda em vez de se atenuar com o tempo, acentua-se e se torna cada vez mais insuportável, a ponto de me enlouquecer.
Passo mais uma página, e chego às centrais.
Frente aos meus olhos, ainda viçoso, surge um pequeno botão de rosa, vermelho-sangue, preso a um cartão branco. “Parabéns. Amo-te muito!”
Fico sem reacção. Não tenho coragem para pegar no cartão, onde a tua letra inconfundível, me fascina, pois estou certa que se tentar, se esfumará, também por entre os meus dedos.      
- A senhora faz anos hoje?
Volto a mundo real e olho para o empregado que espera, de bandeja na mão, que eu desvie o jornal.
Ele apercebe-se do meu espanto e aponta para a rosa.
- Não é hoje o seu aniversário?
Impossível. Isto será mesmo real? Pego no cartão, a medo...
- Anos? Eu?
- Desculpe... não pude deixar de ler... parabéns...
Olho para o alto da página do jornal. Segunda-feira, 20 de Junho ... Não há engano.
É hoje o meu aniversário.