quinta-feira, 26 de agosto de 2021

[0121] Curto texto de Luís Palma Gomes, na rentrée ainda mascarada, de mais um ano com disfarce


REGRESS0

Encontramos a cidade ainda meio adormecida. Os estacionamentos parecem bocas desdentadas. Para reiniciar as máquinas, basta carregar no botão. As pessoas têm uma matriz natural: espreguiçam-se, lavam os olhos, bocejam e tomam depois o primeiro café devagar a olhar o infinito interior. A cidade também regressa assim, aos solavancos, como um corpo que deixou os seus órgãos a funcionar apenas para se manter viva enquanto dorme.

Passo em revista as tarefas, as rotinas e os compromissos profissionais. Sinto-me um toureiro que antes da corrida espreita um a um os touros que vai lidar, com um misto de temor e desejo.

A respiração acelera. Recordo ainda o silêncio e as águas de agosto; as caminhadas; os passeios; as praias e os museus; as pessoas que conheci e que não sei se voltarei a vê-las.

«Parar, começar, parar, começar”, lembra-me o som de uma máquina a vapor. Tem ritmo. Tem vida. Vamos a ela, companheiros.

sábado, 8 de maio de 2021

[0116] "Literatura e Cultura em Tempo de Pandemia" saiu anteontem, no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa

Com o alto patrocínio da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), foi anteontem, 6 de Maio, apresentado e distribuído aos autores presentes no Centro Nacional de Cultura (Lisboa) o livro "Literatura e Cultura em Tempos de Pandemia" (venda em livraria, a partir de 18 de Maio).

Com 75 autores lusófonos, entre os quais os consagrados Germano Almeida, José Luís Tavares, Mia Couto, Lídia Jorge e Manuel Alegre, o livro traduz em prosa e verso o "pensamento" dos participantes/convidados sobre a pandemia que se abateu sobre o mundo em 2020 e que ainda se mantém.

A sessão de lançamento teve na mesa o Presidente da UCCLA, Dr. Vitor Ramalho, para além do Dr. Rui Lourido, coordenador cultural da UCCLA, o editor Manuel S. Fonseca da Guerra e Paz (sob cuja chancela a obra sai) e a Dr.ª Goretti Pina (São Tomé e Príncipe) que falou em nome dos restantes 74 autores.

A nossa colaboração concretizou-se através do poema "O Maldito" e da short story "O Fim", que aqui agora reproduzimos (de novo, no caso de "o Fim").



segunda-feira, 15 de março de 2021

[0115] "Matafísica, um estudo de caso", short story de Luís Palma Gomes


METAFÍSICA, UM CASO DE ESTUDO

A tarde era de março, solarenga e chuvosa.

Talvez porque a instabilidade dos elementos instigava à ação – ainda que esta pudesse ser apenas pequena e moderada – fugi dos caminhos alcatroados do jardim, desviando-me por um atalho pisado entre ervas que me levaram a uma ribeira.

Devido às chuvas, a corrente pulsava nervosa e alegre entre as pedras que pontuavam um caminho entre as margens. Veio-me a vontade de atravessar ali mesmo. Tracei mentalmente uma rota possível pedra a pedra e lancei-me à empreitada. Já os pés saltitavam pelas primeiras pedras, quando me senti desequilibrado e hesitante sobre qual a pedra onde deveria pousar a próxima passada. 

A água trepava agora lentamente pelos ténis acima. Vislumbrei ao meu lado um caniço que se sobrepunha horizontal à ribeira. Era tão enfezado e quebradiço que tinha como única função servir de poleiro às toutinegras que caçavam mosquitos por ali. Ainda assim, com a mão direita agarrei-me a ele. Com surpresa, notei que aquele corpo estreito e frágil deu-me uma confiança inesperada.

Senti-me seguro outra vez e sem mais delongas segui pedra a pedra até à outra margem sempre com o caniço dentro da mão.

Quando lá cheguei, perguntei-me: se não foi a solidez do caniço que me garantiu a estabilidade durante a travessia, o que foi? Tinha sido algo de imaterial, um sentimento, uma aliança entre as forças invisíveis que me habitavam e rodeavam. Creio que é a isto que os filósofos chamam de metafísica. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

[0114] Na passagem do 1.º aniversário da morte do Nuno Rebocho

 

Passou no dia 12 o primeiro aniversário do falecimento do poeta, escritor, jornalista, radialista e conselheiro autárquico Nuno Rebocho (1945-2020), a quem a Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha), Cabo Verde tanto deve. Honra seja feita à memória do nosso amigo e amigo da cidade-berço de Cabo Verde. Ver AQUI a sua biografia.

Fundámos ambos este blogue e o seu "irmão" Contos da Tinta Permanente, hoje com o título mais abrangente de Textos da Tinta Permanente (ver AQUI), dedicado a poesia. Foi uma convivência longa e de grande camaradagem, com a poesia, a prosa e o amor mútuo por Cabo Verde em fundo. 

Estejas onde estiveres, Nuno, recebe um grande abraço deste teu amigo de escritas e morabeza

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

[0113] Miguel Ángel Gómez Naharro (Naharro) cantautor da Extremadura espanhola, lançou novo disco (ver post anterior, 0112)

Concerto em Lisboa, em 15.3.2018


O cantautor Miguel Ángel Gómez Naharro, mais conhecido no meio artístico espanhol por Naharro, acaba de publicar um novo CD. Neste caso, duplo. A publicação constitui o registo número oito deste amante da folk que tendo-se dedicado à educação por quase quatro décadas como professor (agora aposentado) de língua castelhana nas comunidades de Catalunha, Madrid e Extremadura, nos apresenta este trabalho gravado em Mérida com grande qualidade por Luis Cotallo de Cáceres e Juan Chino Flores.

Um dos discos, com o título "18 poetas contemporâneas com música de Naharro" contém textos que apresentam a sociedade dos nossos días, vistos por escritoras espanholas e hispano-americanas da actualidade. As autoras são Rosa Mª Artal, Isabel Blanco, Meri Pas Blanquer, María Carvajal, María Esquitin, Marina Casado, Alicia García Núñez, María Guivernau, Julia Gutiérrez, Anna Heredia, María Luisa Lázzaro, Ana Pérez Cañamares, Mª Ángeles Pérez López, Rosa Sala Rose, Tarha Sarmiento, Cristina Vazquiánez, Montserrat Villar e Karina Zulueta. 

O outro disco, "Água fresca", é composto por 10 canções da autoría exclusiva do Miguel Ángel.

Em ambos, Naharro conta com músicos de elevado nivel que souberam dar o som que ele buscava para esta nova proposta musical. Sáo eles Pepe Burgos, o maestro José Carita (Portugal), Juan Chino Flores, Manu Clavijo, Gustavo Hortoneda, Jordi Mª Macaya, Ángel Morilla, Juan Luis Sánchez e Juan Vargas.   

Também colaboram vozes que trazem sentimento, calor e doçura aos temas: Isa Burgos, Tachï Escribe, María Esquitin, Ana Gómez, Julia León, Susana Pérez Gómez, Trinidad Rivas, Miriam Sáez, Antonio Salas, Sara Veneros e Enriqueta Vidal.

A capa de “18 poetas contemporáneas con música de Naharro” foi realizada pela ilustradora Raquel Gu e a de “Agua fresca” é obra do desenhador e caricaturista Kap.

Miguel Ángel produziu em 1992 o seu primeiro LP em vinil, "Paseo literario por Extremadura", recolha de coplas tradicionais da sua província, Campo Arañuelo, revitalizando o "romance da serrana de La Vera" e musicalizando trabalhos dos poetas extremenhos Bartolomé Torres Naharro, Juan Meléndez Valdés, José de Espronceda, Carolina Coronado, Luis Chamizo, Jesús Delgado Valhondo, Manuel Pacheco e Pablo Guerrero. 

Em 1995 gravou o CD "Paseo hispánico (Poetas XII-XX)". Este álbum foi uma resenha sinfónica das línguas vernáculas da Península Ibérica, através de poetas como Gonzalo de Berceo, Ramon Llull, Ausias March, Luís de Camões, Luis de Góngora, Francisco de Quevedo, Pedro Calderón de la Barca, Francisco de Quirós, Juan Ramón Jiménez, Federico García Lorca, Salvador Espriu, Gabriel Aresti e Celso Emilio Ferreiro. Também incluía 'Naturaleza (Durmil a rucíu)', um poema anónimo escrito na 'fala de Xálima', que foi usado pela primeira vez numa gravação musical e é típico de Eljas, Valverde del Fresno e San Martín de Trevejo, cidades do noroeste da província de Cáceres.

No verão de 2001 lançou o CD "Vida" em que fez covers de romances tradicionais como Giraldo, Gerineldo e Valdovinos e juntou-lhes a canção infantil "La chaquetía" e a combinação de bulería e verdial, "Y que cante". Também incluiu "Palabras para Julia" de Paco Ibáñez e "Gracias a la vida" de Violeta Parra, e musicou dois poemas de José Miguel Santiago Castelo e Antonio Gómez. Por fim, apresentou quatro canções próprias com temas diversos: Uma piscadela para os deficientes ('Igual'), um simbolismo sobre os migrantes, ('Na estação Atocha'), um exemplo de emoção ('Amor sem fim') e Raio X da juventude do momento ('Brave rebentos de relva').

Em 2004 publicou o CD “Canciones Lusitanas” em que musicou trabalhos de poetas de Portugal e Extremadura como Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Nicolau Saião, Luís Filipe Maçarico, Ruy Ventura, Gabriel e Galán, Rafael Rufino Félix Morillón, José Miguel Santiago Castelo e Álvaro Valverde.

Em 2006 publicou sua quinta gravação, o livro-CD "Canciones Guerrilleras". Aqui realiza, auxiliado por peças notáveis, uma revisão histórica de canções que se opõem aos diferentes totalitarismos do século XX: 'Ay Carmela!'; 'Bella ciao'; 'Le chant des Partisans', de Druon, Kessel e Marly; 'Al vent' de Raimon; 'Grândola vila morena' de José Afonso; 'A jugs' de Pablo Guerrero; 'A galopar' de Rafael Alberti e Paco Ibáñez; 'Alfonsina y el mar' de Luna y Ramírez; 'Cancioneta' de León Felipe e Luis Pastor e 'Al alba' de Aute. Assim, completou um bom naipe de hinos revolucionários.

Em 2010, a Assembleia da Extremadura publicou o livro-disco "Gómez Naharro. Antologia". O livro, de 129 páginas, contou com uma apresentação literária e colectiva das peças, feita por colegas e amigos de Naharro, que incluiu um CD com 23 canções.

Em 2015 publicou “The essential Naharro”, que era uma resenha das canções até então publicadas, assim como outras canções não registadas que também faziam parte de seu repertório. 

Miguel Ángel já actuou por várias vezes em Portugal, nomeadamente em Vila Viçosa, Portimão, Seixal, Porto (Espaço Mira Fórum e Bar Gato Vadio, em dois dias consecutivos), Carviçais e Lisboa.

No corrente ano de 2020, apesar das dificuldades que estamos passando, conseguiu editar este CD duplo que pode ser adquirido escrevendo para o email: 

cantautaria2018@gmail.com

[0112] Miguel Ángel Gómez Naharro (Naharro) cantautor da Extremadura espanhola, lançou novo disco (ver post seguinte, 0113)

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

[0110] Mais um capítulo do estudo de Joaquim Saial sobre militares de origem cabo-verdiana na Grande Guerra, a publicar no jornal "Terra Nova" (Cabo Verde). Eis um excerto do artigo que sairá em breve


[109] "A cor do tempo", livro de Ricardo Jorge Claudino – ou o tempo como cor e objecto de memórias

Com chancela da editora Cordel d'Prata e saído por ocasião da Feira do Livro deste ano, o livro de poemas "A Cor do Tempo" de Ricardo Jorge Claudino revela-se obra madura e reflectida, não obstante ser o primeiro de sua autoria – o que não surpreende, pois este jovem farense com fortes ligações ao Alentejo não é propriamente um novato no meio, tendo já vasto material divulgado em revistas da especialidade e jornais regionais, em experiências que datam da adolescência e agora frutificaram.

São seis dezenas de trabalhos de temática diversa, onde se nota forte componente pessoal de memórias de momentos ou assuntos vividos. Disso são exemplo, entre muitos outros, poemas como "Casa no campo", "sinónimo de paz e do cante dos passarinhos", "As oliveiras falam", com suas "palavras sábias", "Teatro infantil", relembrando os cheiros e as cores do pó de palco pisado anos atrás, "Amesterdão e eu", de acolhedora e absorvente temporada profissional ou "Soneto imperdoável" em que recorda os "frajais" (ferragiais) semeados pelo avô, evocando uma das muitas e saborosas corruptelas linguísticas em que a grande província do sul é farta. E já que de sonetos falamos, assinalemos os muito interessantes dois exemplos vigentes, este e "Soneto condenável", género poético assaz descurado nos tempos presentes que ele adoptou com sucesso. Também é de salientar "Escadaria", curioso trabalho de poesia visual, discreto e acertado.

Ricardo Jorge Claudino
Quanto ao tema que dá título à compilação, ele surge logo no primeiro exemplo, cartão de visita do conjunto, de facto todo ele muito visualizável através de descrições simples mas eficientes. Neste poema de apresentação, as alusões à slow-life campestre e citadina é recorrente, quer nas referências ao "assobio do rouxinol apaixonado", às "formigas que correm atrás de uma migalha de pão", ou aos passeios pela calçada portuguesa, pisando apenas as "pedras mais escuras". Idêntico roteiro também se vislumbra noutros exemplares, caso de "Perder para ganhar", quando o autor fala dos momentos em que se esquece "nas travessas das mais pequenas aldeias alentejanas", onde o tempo não conta e onde nos confrontamos com essa "gramática de coentro e cal, geometria do branco e do azul" de que o cantor e poeta Vitorino fala. 

Plenos de sabedoria e exaltantes de amor à escrita e à leitura, são os poemas "Livro aberto", nesse apelo que diz  que "As palavras foram feitas / para serem ditas / e os livros para estarem / abertos" e "Quando o poeta morre", em que Claudino esclarece que quando o vate fenece não vai para o céu  mas "ganha asas na terra [e] voa nas suas palavras". 

É pois de reter este livro, perpassado por lirismo suave, tanto campesino como urbano, completado pelos desenhos de idêntica índole de Cristina Aurélio e Fernando Madeira, um dos quais serve de capa. Após a prometedora peça inicial, resta-nos aguardar com expectativa a continuidade da obra de Ricardo Jorge Claudino. 

[108] Excertos do texto de Joaquim Saial no documento de candidatura de Vila Viçosa a Património Mundial da Humanidade (UNESCO)









sábado, 12 de setembro de 2020

[107] Sessão de autógrafos de Ricardo Jorge Claudino na Feira do Livro de Lisboa (Pavilhão B31, 13 de Setembro, 14h00) - "A Cor do Tempo"

Ricardo Jorge Claudino nasceu a 10 de Abril de 1985 em Faro, transportado por um bando de cegonhas oriundas de Reguengos de Monsaraz. É licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Informação e Sistemas Empresariais. Em 2001 inicia a sua actividade profissional como programador informático, a qual exerce até ao presente, tendo passado por várias multinacionais portuguesas e holandesas. Com apenas 15 anos de idade escreve os seus primeiros poemas; mas ficam guardados. Só em 2019 decide acordar a sua poesia e logo participa na antologia A Vida em Poesia IV, publicada pela Helvetia Éditions. Conta também com publicações nas revistas Gazeta da Poesia Inédita e NERVO. A Cor do Tempo é a sua primeira obra publicada.

sábado, 22 de agosto de 2020

[0105] Pepita Tristão com nova obra literária. Apresentação de "Histórias de Amor e de Morte" decorrerá a 19 de Setembro, na Casa Sommer, em Cascais.

"Histórias de Amor e de Morte", da autoria de Pepita Tristão, e chancela da Emporium Editora, vai ser apresentado no próximo dia 19 de Setembro, pelas 16 horas, na Casa Sommer, em Cascais.

A cerimónia contará com a participação da autora do prefácio, a socióloga e escritora Maria Helena Ventura, que apresentará a obra.

Antes, no dia 12 de Setembro, a autora estará presente na Feira do Livro de Lisboa, no espaço da Editora Emporium, onde irá protagonizar uma sessão de autógrafos entre as 14 e as 15 horas.

Esta edição teve o apoio da Câmara Municipal de Cascais.
"Histórias de Amor e de Morte" é um livro povoado por mulheres que sonham, vivem sofrem e recomeçam ao longo de 16 contos anacrónicos, que têm por pano de fundo Portugal, as suas lendas, usos e história, com diálogos onde o real se funde com o onírico urdindo tramas de leitura deliciosa. Um corrupio de aventuras, ora divertidas ora dramáticas, que retratam também a evolução das mentalidades, através dos tempos.

domingo, 21 de junho de 2020

[103] Pepita Tristão e um terror em pontas

Pepita Tristão
A LENDA DE PÊRO BOI


Era uma vez uma linda menina de olhos cor do céu e longos cabelos louros que lhe escorriam pelos ombros em cachos de seda brilhante...

Era assim que começava a maior parte das histórias que minha avó me contava ao serão, fazendo-me sonhar com belas princesas e garbosos cavaleiros, sempre prontos a regatá-las de todos os perigos.

Para além da avó, também a minha querida Dadá, empregada de meus pais, me contava belas lendas de cariz popular. Mouras encantadas, almas penadas e tesouros escondidos, guardados por temíveis feras...

Claro que estas narrativas davam asas à minha imaginação, mergulhando-me num mundo onírico onde se viviam incríveis aventuras.

Mas não era a única a sonhar... contava-se na terra que certo indivíduo, cansado de ser pobre, decidiu quebrar um feitiço que diziam ocorrer junto à fonte de Pêro Boi, onde um rei mouro em fuga teria enterrado os seus tesouros.

Tencionando mandar recuperá-los mais tarde, e temendo ser roubado, o monarca transformou o seu vizir em touro, encarregando-o de guardar as riquezas que só deveria entregar a quem se aproximasse dele sem mostrar medo, numa noite de lua cheia.

Ora o nosso amigo já passara inúmeras vezes pela fonte, localizada numa quinta com o mesmo nome, onde, por coincidência, havia um touro bravo, sempre pronto a investir sobre quem se aproximasse, desprevenido,

Numa noite de lua cheia, o rapaz bebeu uns bagaços para lhe darem coragem e foi até à quinta de Pêro Boi, aproximando-se da fonte.

Quis o destino que o dito touro tivesse ido dessedentar-se a essa hora e, vendo que o homem se aproximava, invadindo os seus terrenos, investisse contra ele, não lhe dando sequer oportunidade de se arrepender da afoiteza.

Como resultado do embate, o destemido aventureiro foi parar ao hospital com várias costelas partidas. Se lá estava ou não o tesouro, nunca o soube e jurava nem querer mais saber, pois quando acordou do desmaio, apenas se recordava do bafo do monstro antes do impacto.

Dizia-se que só de ouvir falar do encanto, o desgraçado tremia de pânico.

In colectânea solidária "À Volta da Fogueira", Emporium Editora



domingo, 14 de junho de 2020

[102] Mais um conto de Sofia Cardoso, desta feita com asas a bater e zumbidos por todo o lado

Sofia Cardoso brinda-nos com novo conto, recentemente publicado na colectânea "À Volta da Fogueira",  pela Emporium Editora, de Almada

A MOSCA

Sofia Cardoso
A noite caíra. Festejos em cada recanto, atraiam corpos sedentos de apaziguamento. Na tenda, o fresco da noite tornara-se num hálito gelado. As constelações permaneciam mudas aos anseios dos humanos. Os insetos, enfrentavam a noite sem receios. Zumbidos cruzaram o ambiente. Os muscidae são dos insetos mais comuns, dada a sinantropia de algumas das suas espécies.

Ninguém parecia incomodado. A música, os fogos de artificio, o hálito a cerveja barata e morna, ofereciam um festim a cada um dos pequenos insetos que arriscavam a vida para que a sua prole sobrevivesse a mais uma noite, a outro dia.

Hematófaga - é próprio da sua natureza alimentar-se de sangue -, voou livremente durante algumas horas que lhe pareceram uma vida. A eternidade do ciclo, levou-a a concentrar-se. Contraiu as asas de modo a testar a capacidade de voo, zona superior bem posicionada, probóscide em posição final. O sistema de foco funcionou perfeitamente e nos últimos segundos a sintonia com a natureza atingiu o ponto mais elevado. De cócoras, um robusto espécime, tornara-se no recetor ideal. Nem chegou a ter qualquer tipo de pressentimento.

Muscidae é um dos insetos mais comuns, dada a sua sinantropia. Pousou ágil. Uma picada só. Pouco habituada ao contacto com o sangue dos audazes, jovens apaixonados e nobres de alma, caiu morta. Pouco elegante, mas missão cumprida. Morrera de barriga cheia e com um esgar de satisfação.

Se as moscas tivessem direito a ter sentimentos, hoje, este insignificante mas temido inseto sentir-se-ia realizado.