domingo, 29 de março de 2020

[097] Teresa Balté oferece-nos um delicioso conto infantil, campestre e "cantante"

ERA UMA VEZ O JOÃO...

Teresa Balté
Era uma vez o João, que não sabia cantar.
– Canta connosco as nossas cantigas – diziam-lhe os amigos. Ele bem se esforçava, mas não soava um som.
Um dia acordou e decidiu: quero aprender a cantar. Saiu de casa e pôs-se a caminho, à procura do que queria.
Meteu por um bosque.
– Dóó, dóo, porque andas tão só? – rangeram os ramos das árvores, balouçando-se ao vento. O João inquietou-se e fugiu dali.
Meteu por um campo. 
– Réé, réé, rée… – ressoou a erva alta, onde conversavam as cigarras. O João, com receio de pisá-las, atravessou-o em bicos de pés. 
Meteu por um regato. Ia distraído e só reparou que se molhava quando ouviu rir:
– Mihihihi…hihihihi…
– És tu que ris? – perguntou o João à água que corria.
– Sou eu, o Mi, não sou a água, mas brinco na água e com quem passa por aqui. – O João riu e despediu-se do Mi.
Meteu por montes e vales. Por toda a parte acompanharam-no dois gaios, um verde e um amarelo, que assobiavam:
– Fá, sol! Fá, sol! Fá, sol! – o João tinha vontade de assobiar com eles, mas não se atrevia a experimentar.
Meteu por um canavial. Cortou uma cana, talhou uma flauta e soprou.
– Lá, si! Lá, si! Lá, si! – soou a flauta. Que voz tão rachada, pensou o João, até eu soo melhor. E, sem se lembrar de que não sabia cantar, cantou:
– Lá, si… lá, si, dó… lá, si, dó, ré, mi, fá, sol… – e continuou.
Chegou a casa de noite. Os amigos, que estavam em cuidados, ouviram cantar e vieram ver quem era. Viram o João. Cantava uma cantiga com florestas, cigarras, regatos, gaios, canaviais…
Quando acabou, disse:
– Encontrei a minha canção, já sei cantar. Agora podemos cantar juntos as nossas canções.
E cantaram.

Novembro 1986

José Malhoa, "Gritando ao rebanho", 1891

quarta-feira, 11 de março de 2020

[096] Nestes tempos de todos os temores, uma "short story" de Joaquim Saial

O ÚLTIMO HOMEM

Joaquim Saial
Tinham sido os dias da grande pandemia. O último homem, que vivera num recôncavo frente ao oceano, já muito fraco, saiu nessa manhã para ver o mar. Em rocha próxima, que emergia da água, estava pousada uma gaivota. O homem sorriu, pensou que afinal não morreria sozinho e finou-se. Instantes após, o pássaro levantou voo e dentro em pouco estava no meio do seu bando, participando em concorridos voos picados, na apanha de alimento. Por aquela praia, nunca mais se viu ninguém.



[0095] Novo conto "felino" de António Rosa

L’ÉTÉ INDIAN

António Rosa
Mosquitos insuportáveis, estes. Por mais que os enxote, continuam insistentemente a incomodar. Pobres dos animais que nem sequer têm mãos para se defenderem. Como deve ser difícil para eles estar continuamente a ser picado em sítios onde não chega a pata e não basta sacudir a orelha. São autênticas feras, estes insectos. Devoram qualquer ser vivo.

E aqui estou eu, empoleirado na melhor posição que posso, sentado entre a forca de dois galhos fortes cá no cimo da árvore, à mercê dos mosquitos. O campo de visão parece-me razoável, atendendo a que daqui  avisto uma boa parte do ribeiro, lá em baixo. É aí que os animais inevitavelmente vêm beber.

O dia cai a olhos vistos. Escurece a cada minuto que passa. Já vi e revi todas as condições da máquina, desde o obturador ao leque de fecho do diafragma. Parece estar tudo bem. O sistema de infra-vermelhos também já foi testado. O apoio onde ela se encontra é estável e permite com facilidade um razoável  ângulo de rotação, quer vertical, quer horizontalmente. No entanto, apesar de já estar bem habituado ao trabalho com ela, receio que a minha vista me atraiçoe nos momentos cruciais da focagem. E nada pior de que fotografias desfocadas, sem que possam ser repetidas. Não posso dizer ao bicho que volte ao mesmo sítio e se deixe estar quietinho.

Medito na fragilidade de um homem só, aqui isolado, armado em pássaro, pousado no alto de uma árvore enorme  a não sei quantos metros de altura do chão, indefeso nesta selva bruta, recheada de perigos, e agora de sombras, cada vez maiores e mais disformes.

Os sons da noite que se aproxima são cada vez mais intensos e alguns, especialmente os das aves nocturnas, arrepiantes. Grilos, aos milhares certamente, fazem uma chinfrineira ininterrupta, bem como rãs e sapos a coaxar ao despique. 

Agora sim, que já está escuro como breu e os sons ainda parecem mais intensos. Não tiro os olhos do ribeiro, sempre na esperança que apareça algo. Mas praticamente não o vejo. Já não consigo enxergar a água, apesar de saber bem onde ela está.

Por vezes há certos sons assustadores que não consigo identificar. Chegam a subir-me arrepios pela coluna acima. Na verdade, não estou muito à vontade. Entretanto, com a caída total da noite, começou a levantar-se uma brisa que até já começa a ser fresca demais, aqui em cima. O que é certo é que, por causa dela, os mosquitos parece terem acalmado as suas ânsias de sangue.

De tempos a tempos ouvem-se os cantos dos pavões, ao que outros, mais longe, respondem também em coro. É agradável por ser um som velhamente conhecido, mas aqui na Índia parece ter uma sonoridade diferente, que mete mais respeito.

Ligo o sistema de infra-vermelhos da câmara para inspeccionar o movimento no ribeiro. É natural que, com esta escuridão alguns animais se comecem a aproximar para se dessedentarem de um dia tão quente como foi o de hoje.

Ajeito-me melhor no ramo, procurando não fazer qualquer ruído que possa identificar a minha posição. Qualquer pequeno barulhinho pode ser fatal. Posso ao mínimo descuido afugentar os animais e dar por perdido todo este trabalho. E começo agora a pensar no pior. E se o animal for um tigre, um tigre de Bengala com os seus dentes de sabre? Sei que os felinos sobem facilmente a qualquer árvore. Apesar da sua corpulência e do seu grande peso, tem garras suficientes para se agarrar ao tronco da árvore e vir fazer-me uma visita. Não estou nada seguro aqui. Novo arrepio pela coluna acima. E desta vez um dos grandes.

Começo a pensar que, se o animal estivesse a beber ou numa emboscada a tentar caçar alguma presa que se estivesse a dessedentar no ribeiro e eu tivesse o azar de acidentalmente espirrar ou tossir ficaria imediatamente descoberto e à mercê dos seus “dentinhos”, sem qualquer defesa possível.

Sei que tenho a necessidade urgente de afastar este pânico, de não pensar em tais coisas. Aliás fui bem avisado disso.  Acima de tudo afastar o medo e depois esperar com paciência. Com muita, muita paciência e sempre em absoluto silêncio.

Os infernais grilos esgotam-me os ouvidos e começo a estar mal sentado. Os sapos e as rãs não param a sua sinfonia. Será que são sempre os mesmos ou irão alternando uns com os outros  para descansar?
Ouvi agora um leve resmalhar nas ramagens lá em baixo. Ligo de imediato o sensor térmico da câmara e vejo uma mancha vermelha que se aproxima da água com todas as cautelas. Que bicho será? Não lhe consigo identificar bem a forma. Parece uma pequena gazela mas não tenho a certeza. Preparo o disparador da câmara e já tenho o dedo sobre o botão. Efectivamente é uma gazela. Já está com os anteriores flectidos e o focinho na água fresca.

De repente, tudo se cala. Calam-se os grilos, as cigarras, os pavões, os sapos e as rãs. Mas o que foi que aconteceu? O silêncio total é agora aterrador. Agora sim, é que isto mete medo. Não se ouve rigorosamente nada. O sensor térmico mostra um vulto vermelho, esguio, avançando muito lentamente na direcção da descuidada gazela e eu sinto calores e arrepios por mim acima. O indicador treme-me no botão do disparador. Vejo-o agora nitidamente, vindo por detrás da incauta gazela. É um tigre e bem corpulento que estará a uns escassos três metros da pobre presa. Prepara o salto. E eu quero fixar o momento exacto do ataque. O dedo treme-me. O bicho encurva a coluna e com uma agilidade surpreendente, zás…

Trim… Trim… Trim… “the time is thirty past  seven”… “is time to stand up”…

Para dizer a verdade, custou-me mais perder a fotografia para a National Geographic  do que ter que me levantar para ir trabalhar.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

[0094] Um conto cheio de "miaus"...

GATAS NO TELHADO

António Rosa
Era um edifício antigo, sóbrio, com uma imponência que fazia jus ao seu período de construção, certamente posterior ao terramoto. Impunha-se de esquina, entre a Rua das Praças e a Rua das Trinas, como baluarte defendendo aquele cantão do típico e antiquíssimo bairro da Madragoa.

O segundo andar do número 10 estava arrendado por uma senhora do norte, a Dª Antónia, que trabalhava como secretária (ou telefonista?) na Assembleia Nacional, como então se dizia. Como o espaço era grande e a casa tinha bastantes compartimentos, dado que o sótão era aproveitado com boas mansardas, estavam os quartos todos alugados a estudantes e até a jornalistas (as redacções de muitos jornais ficavam ali pelas proximidades), que era uma forma de aumentar o rendimento mensal, pois os funcionários públicos do tempo de Salazar ganhavam uma miséria.

Foi para aí que me fui hospedar, nos finais da década de sessenta, de resposta a um anúncio do "Diário de Notícias" que publicitava os quartos. Tinha dezassete anos frescos e a ingenuidade de uma criança que sempre vivera na província, debaixo das saias da mãe e muito particularmente debaixo das saias de uma tia e madrinha (que Deus tenha), solteirona, prepotente e castradora. Tinha acabado de ingressar no curso de Electrotecnia e Máquinas, do extinto Instituto Industrial de Lisboa, que ficava alojado num palacete da Rua de Buenos Aires, à Estrela. Era só subir a Rua das Trinas e pouco mais até lá chegar.

O tempo ia passando, o coração cada dia mais apertado com a proximidade da primeira frequência, pois as dificuldades que tinha eram enormes, por manifesta falta de conhecimentos e pré-requisitos. Mas não queria dar parte de fraco. Não dizia nada e vivia angustiado com o espectro do descalabro iminente.

O meu pai, por questões profissionais, necessitou ir a Lisboa e teve a infeliz ideia de me ir visitar, até porque lhe interessava ver em que condições eu estava alojado. Jantou comigo e, a convite da Dª Antónia, acabou por lá dormir. Ela arranjou-lhe uma cama num espaço de passagem entre a varanda do telhado e o quarto do Morganheira, que era aluno do extinto Instituto Comercial e pintor de aguarelas nas horas mortas (que eram muitas). Os aposentos do Morganheira ficavam na ala nascente do sótão, com acesso a uma varanda que ficava ao nível do prédio vizinho, já da Rua das Trinas, residência do saudoso Dr. Pedro Homem de Melo, também ele um rico homem do norte e grande eminência cultural na etnografia e particularmente no folclore, tendo até programa semanal na RTP, o que então era um acontecimento. 

Mas acontecimento verdadeiro era o facto de ter ele duas empregadas domésticas, duas criaditas, como então se dizia, fardadas à maneira clássica e que eram um verdadeiro assombro pelas curvas que a natureza lhes proporcionara. 

A mansarda da casa delas tinha acesso ao telhado, que tinha pousa-pés sobre as telhas facilitando o caminho até à dita varanda. Não sei que combinação tinha havido com o Morganheira e com o jornalista do "Século", que vivia na mansarda da frente, e do qual já não recordo o nome, que as gatas, a meio da noite, vindas da varanda passaram pelo corredor, ao lado da cama do meu pai, para se introduzirem no nosso prédio da Rua das Praças.

Meses e meses se passaram sem que eu tivesse conhecimento disto que vos contei, até que um dia, quando choviam imprecações sobre o insucesso de um exame de Física Especial, com a acusação de vida de boémia em Lisboa, saltou o caso. Injustamente acusado, por mais desculpas, argumentos e juras que apresentasse fiquei ciente que, na cabeça de meu pai, as dúvidas sempre persistiram.

Agora, tenho pena de que não tenha sido verdade. Já que fiquei com a fama, ao menos que tivesse tirado o proveito.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

[0087] Faleceu ontem em Mafra o nosso amigo e colega de escrita Nuno Rebocho


Nuno Rebocho (1945, Queluz, Sintra, Portugal – 12.Janeiro.2012, Mafra, Portugal) foi um escritor, poeta, homem da rádio e jornalista. Participou na luta contra o Estado Novo de Salazar, chegando a ser preso durante cinco anos, por motivos políticos, na cadeia do Forte de Peniche.

Iniciou sua carreira na página juvenil do Diário de Lisboa, em 1963. Foi redactor da revista O Tempo e o Modo e da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, porém só viria a ingressar no jornalismo profissional em Abril de 1974 em jornais diários como o Jornal NovoTribunaA TardeJornal de EconomiaO Século e nos semanários Vida MundialNovo ObservadorO SinalDez de Junho e Ideal. E também em revistas especializadas - Pesca & NavegaçãoTT-Todo o TerrenoMotor (foi director do suplemento de Turismo). Presença activa na imprensa regional - Notícias da AmadoraComércio do Funchal, foi chefe de redacção de A Ponte (Montijo) e A Nossa Terra (Cascais). Desempenhou funções diversas - redactor principal, chefe de secção, sub-chefe de redacção, chefe de redacção. Em 1989 enveredou pelo jornalismo radiofónico, colaborando com Moliceiro FM (Aveiro), cronista da Rádio Comercial (programa de Turismo, de Carlos Amorim; programa de Rui Castelar) e de comentador. Ingressou na RDP (Radiodifusão Portuguesa), destacado para a Guarda durante um ano. Depois, foi editor, chefe do departamento de Informação Especial e chefe de redacção da RDP - Antena 2. Integrou conselhos de redacção e a Comissão de Trabalhadores da empresa radiofónica. Em Cabo Verde, colaborou com o semanário Horizonte, com Expresso das ilhas e com Liberal on-line (de que foi delegado em Lisboa) e foi assessor da Câmara Municipal de Ribeira Grande de Santiago. Integrou os órgãos dirigentes da AJEPT, Associação de Jornalistas Portugueses de Turismo. Participou com poesia no tríptico de serigrafias de Silva Palmeira "A Lisboa", Centro Português de Serigrafias. Lisboa 1997. Foi comissário da Bienal do Mediterrâneo, Dubrovnik, Croácia, 1999. Animador cultural, organizou A Festa da Poesia, na Galeria Artdomus, S. Pedro de Sintra em 2000-2001; As Noites da Liberdade, na Biblioteca Museu da República e Resistência, Lisboa em 2005; A Poesia à Mesa, no restaurante Panela de Barro, Carnaxide em 2006. Foi vice-comissário da Festa da Poesia - Encontros de Poetas Portugueses, na Figueira da Foz em 2003/4/5. Organizou o Dia Mundial da Poesia, em 2006, em Penamacor. Participou nas Jornadas Poéticas de Artiletra (Cabo Verde), 2007; em Correntes d'Escrita, Póvoa do Varzim, 2007; na I Bienal de Cultura Lusófona-Encontro de Culturas, Malaposta-Odivelas 2007. Foi membro efectivo da AVSPE (Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores).

Autor de "Breviário de João Crisóstomo", "Uagudugu", "Memórias de Paisagem", "Invasão do Corpo", "Manifesto (Pu)lítico", "Santo Apollinaire, meu santo", "A Nau da Índia", "A Arte de Matar", "Cantos Cantábricos", "Poemas do Calendário", "Manual de Boas Maneiras", "A Arte das Putas" (poesia), "Estórias de Gente" (crónicas), "O 18 de Janeiro de 1934", "A Frente Popular Antifascista em Portugal", "A Companhia dos Braçais do Bacalhau" (investigação histórica), "Canções Peripatéticas" e "Histórias da História de Santiago (Cabo Verde)" (com prefácio de Joaquim Saial), entre outros. O seu derradeiro livro publicado em vida foi "A Ilha de Amianto". Está representado em diversas antologias e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil. Tem colaborado em catálogos para exposições de artes plásticas: Ramón Catalan, Deolinda, Carlos Eirão, Alfredo Luz, Edgardo Xavier, João Alfaro, Maria José Vieira, Ricardo Gigante, Ana Horta, Isabel Teixeira de Sousa, Nuno Medeiros, Viana Baptista, Teresa Ribeiro, Rico Sequeira, João Ribeiro, José Manuel Man.

O seu primeiro trabalho póstumo será o prefácio do livro "Poemas para a hora de ponta", editora Cordel d'Prata, de Joaquim Saial, a sair em Vila Viçosa a 25 deste mês de Janeiro e a 15 de Fevereiro em Lisboa.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

[0084] É hoje!

IM estará presente e dará notícia do lançamento, como seria de esperar. Quanto ao caderninho, é delicioso e já lido e relido há semanas por nós. Tem o esquisito preço de 4,10€ mas isso só lhe dá mais sabor. Um grande pequeno livro, na verdade.

terça-feira, 16 de julho de 2019

[0079] Mário Pereira, em conto angolano

Do escritor angolano Mário Pereira, já reportado em Contos da Tinta Permanente, referimos mais um conto


MAN JACK DA COBARDIA

Corria o ano de 1963 em Luanda.

E, num dos subúrbios da capital, num dia em que o sol insistia em aquecer o ambiente como raras vezes o fazia, os putos corriam atrás de uma bola de borracha: uns à procura do golo do empate, enquanto outros defendiam, de qualquer maneira, a sua baliza, lançando a bola para longe: para queimar tempo; simulando lesões que não existiam e agarrando o avançado fora da grande área afastando-o da boca do golo,…

E, num certo momento, o jogo parou!

A bola, que fora chutada para a baliza defendida por Santito Matias, entrara no quintal de Man Zeca, o tal que vezes sem conta rasgara o esférico a punhal perante a mol de gente embevecida que assistia o jogo do princípio ao fim! Pela frustração causada, muitos auguravam, num dia destes, a oportunidade para indagarem Man Zeca, no beco da rua de trás, quando o sol se fosse embora! 

O presságio, para alguns, era funesto; enquanto, para outros, não passava de mais um episódio que teria um final semelhante: o da bola rasgada pela fúria de quem, sempre, pelos mesmos motivos, exibia um punhal na mão; ao da tristeza estampada no rosto, não só de quem fora impedido de correr atrás da pelota, mas também dos que se aglomeravam nos quatro limites do campo.

E enquanto se pressagiava sobre o que viria a seguir, - a desforra que fariam a Man Zeka botando no chão do beco escuro onde namorava com a Zinha as cascas de 100 bananas no momento em que ele se dirigisse para lá ao anoitecer - vinha do fundo da rua uma débil figura que parecia incapaz de se contrapor à ira dos ventos de Abril, estes que se habituaram a levantar para os ares as ninhadas de aves assentes no meio das moitas; as chapas esburacadas do casario em desalinho, deixando a céu aberto a desgraça do povo clamando por liberdade. 

Fingindo conhecer o que à sua volta se passava, a débil figura - que trazia no canto direito da boca uma beata apagada de cigarro Juca e um gorro negro na cabeça -, evitou indagar a causa por que ali se achava a mole de gente e, acenando aos conhecidos que o saudavam com deferência, levantou a mão com o dedo indicador em riste, chamando, para o beco mais próximo, um dos que implorava a resolução daquele caso que parecia insolúvel. – O que é que se passa aqui? – Indagou Man Jack. 

É o puto Zito que jogou a bola para o quintal do Man Zeka. Então, o Man Zeka, furioso, prendeu não só a bola, mas também o miúdo que chutou a redonda para lá. 

– Mas a bola estragou alguma coisa? Aleijou alguém? Partiu algum vidro? – indagou Man Jack, enquanto ajeitava o cigarro, já aceso, inspirando e expelindo, pela boca e pelo nariz a fumaça quente que se alojara no peito. 

– Não se sabe, Man Jack. Só sabemos que o dono do quintal disse que já tinha avisado que da próxima vez que a pelota entrasse no seu quintal, não só ela seria retida, mas também o autor do chuto, e quem viesse em seu socorro, fosse quem fosse! E a clausura seria por tempo indeterminado, a não ser que houvesse, por parte dos familiares, a intenção de pagar o estrago… e exigiria um pedido de desculpas por parte dos pais, avós, tios e amigos do prevaricador, pelos abusos que vêm sendo cometidos até à presente data…

Dirigindo-se à porta da casa do ofendido, lá onde a bola e o puto estavam retidos, Man Jack falou assim: - Dá-me licença, Man Zeca. Sou eu, o Jack. – Quem? – O Jack, Man Zeka. – Oh! Man Jack? Entra, se faz favor. Pode entrar, Man Jack. O prazer é todo meu, caramba…. Ó, Man Jack? Como é, meu? Há tanto tempo que a gente não se via, pá!

Gerou-se um silêncio sepulcral quando Man Jack e Man Zeca se abraçaram perante o olhar atónito de quem espreitava a cena pelos intervalos das aduelas do quintal; gente que ansiava a solução do caso que juntara a vizinhança contra o detentor da bola e do puto Zito, o melhor goleador do musseque Rangel. 

– Então, Man Jack? Como é que vão as coisas por aí? Lá em casa tá tudo bem? - Graças a Deus, man Zeca! Tirando as perseguições dos Arara kwara, o resto vai caminhando, mas com a maior das atenções, porque o Arara Kwara não estão para brincadeira, não. Ainda ontem, não sei se já sabes, cangaram o Jingongo, o filho da Donana, o mais velho. 

– Mas estas questões vão ser tratadas noutro dia. E, então, como é que vão os mambos por aqui? Os miúdos; a mana Dominguinha? E a Donana, a tua irmã mais nova? Nunca mais a vi, Man Zeca. Anda mesmo cá ou viajou? Desde o ano passado no funeral da Ximinha que nunca mais lhe pus o olho em cima! 

– Está tudo sob controlo, Man Jack; vamos indo, como dizem os mais velhos cá da banda, mano. 

– Bom, mas o que eu queria mesmo dizer, Man Zeka, é o seguinte: é esse aglomerado aí fora que me está a preocupar; temos de evitar esses ajuntamentos tumultuosos à nossa volta, seja por que motivo for. Os Jipela Njipe e os Araras volta e meia estão aí a passar e sempre com o olho em cima da gente e qualquer cheiro a geringonça é suficiente para os tipos actuarem! E já sabes como é que isso é, pá! 

– Ok, Man Jack, percebi tudo. Mas esses putos dão trabalho sério! Por mais que a gente fala, os gajos não querem saber e então, pela falta de respeito permanente, canguei-lhes a bola que caiu aqui mesmo no quintal, na hora em que eu ia a sair do cubico para ir fazer um biscate. 

– E, como se não bastasse, ó mano, o tipo que chutou a bola ainda saltou para dentro do quintal sem pedir autorização e, por isso, como qualquer um de nós faria, também lhe canguei. É esse indivíduo que está aí sentado no fundo quintal, mano. 

– Tá bem, pá. Não deixas de ter as tuas razões! 

– Porém, como as coisas estão por aqui, não devemos criar inimizade com esses putos, ó mano! 

– Devemos tê-los connosco, tás a entender? Se não fossem eles, ontem mesmo já me teriam cangado pois, foram vistos três indivíduos, dos tais, de calça preta e camisa branca, a circularem pela rua em sentido oposto! 

– E foi um grupo de putos que nos alertou do perigo, mano, a mim, ao Mangololo e ao Jinguma. E foi assim que nos escapamos e não conseguiram encontrar-nos. Man Zeca! – Diga, Man Jack. 

– É assim, mano: temos de estar em sintonia com esses miúdos pois, são eles que nos dão guarida, quando nos vêm avisar, na calada da noite, que está gente estranha a rondar o Bairro, tás a ver? 

– Para além disso, ó mano Zeca, essa é a única diversão que eles têm antes de as chuvas chegarem. 

– Quando há chuva, a diversão deles muda logo, porque essa água assentada transforma os campos da bola em grandes lagoas. 

– Aí, a brincadeira é mergulharem nessa imundície até se cansarem. Temos que ter mais calma! Somos mais velhos e devemos orientar essa malta miúda a estar dentro da normalidade, apesar das adversidades. 

– Para além disso, ó Man Zeca, que eu saiba a tua casa só tem uma janela que dá para a rua e ela, a casa, nem é de madeira, ó pá. É de barro. 

– E mesmo que a bola bata na parede, mano, o barulho que faz é nulo, não te incomoda. 

– Por outro lado, o teu quintal não é feito de vidro, é de aduelas esburacadas pelo salalé. 

– E se a bola bater nele quem sofre são esses mesmos bichitos que são atirados para o chão a cada remate que os miúdos fazem. 

– Até aqui só há benefícios para ti, mano. 

– Até me apetece dar uma gargalhada por te dizer isso, mano. 

– O barulho que eles fazem, meu mano, é do despique pela bola e, quando há golo, há aquela algazarra normal de quem já está a ganhar, em que os jogadores e adeptos correm, abraçam-se, atiram-se para o chão, assobiam, jogam areia para o ar e xingam quem não é do seu time. 

– É só isso mano! 

– Para ti e para muitos que aqui vivem, ó Man Zeka, estou-te eu a dizer, isto é um autêntico filme ao vivo, um benefício que traz alegria a quem, como tu, aqui no Rangel, não tem luz eléctrica, nem em casa nem na rua; não tem água canalizada e o chafariz fica longe; a casa não areja por só ter uma porta e uma janela em miniatura… 

– Esses jogos na rua, mano, são uma autêntica sala de estar onde as pessoas podem conviver vendo os putos a correr descalços à procura de enfiar a bola na baliza! Tás a ouvir o que te estou a dizer, ó mano! 

– Por isso, Man Zeca, o que tens de fazer é libertar a bola e o miúdo, mas, atenção, Man Zeca: tens de chamar alguns deles para presenciarem a entrega; testemunharem a tua amizade para com eles e para que estejam permanentemente a teu lado; para receberem de ti a proposta de que podem jogar sempre sem restrições, mas com árbitro presente para não haver batota que traz confusão no meio e fora do campo. 

– Atenção, muita atenção: não te esqueças de prometer aos miúdos que no final dos jogos haverá sempre um bombózito assado, uma gingubita e aquela quitaba da boa, daquela que já tem gindungo; uma tijela grande com farinha musseque, água e açúcar e com isso ofereces uma rodada de ngongwenha para essa malta. Para se refrescarem, dá a cada um uma caneca do bom kitoto. 

– Para os kotas, já sabes: preparas uns bons nacos de gengibre e uma boa caneca de kimbombo e pronto, já está…-

– Man Zeca! – Diz, Man Jack. 

– Estou a ver ali no fundo do quintal uma lata com cal já usada e que parece que já não tem mais serventia para a tua casa!

– Entrega isso aos putos para alinharem o rectângulo de jogo pois, nunca se viu que as linhas laterais de um campo de futebol sejam os limites das casas que o ladeiam! 

– Sinceramente, mano! 

– Vamos botar ordem nisso, o mais rápido possível e evita cangar os putos por causa da bola! 

terça-feira, 9 de julho de 2019

[0078] Estreante nos CTP, E. S. Tagino oferece-nos um conto inédito

E. S. Tagino, 1945, Grândola, Portugal
E. S. Tagino é pseudónimo de António José da Costa Neves, residente em Almada há mais de 40 anos. Licenciado em História pela FLL, durante anos publicou regularmente poesia em diversos jornais e revistas nacionais. Tem vasta bibliografia de romances (alguns de âmbito histórico, como "Sangue de Portugal", 2019) e foi galardoado com o Prémio Literário Cidade de Almada 2006 ("Mataram o Chefe de Posto"), Prémio Revelação Manuel Teixeira Gomes 2006/2007 ("Nem por Sonhos"), Prémio Literário Paul Harris 2007 ("Mea Culpa!"), Prémio Literário Poesia e Ficção de Almada - Prosa de Ficção 2008 ("O Amor nos Anos de Chumbo"), Prémio Literário Joaquim Mestre 2017 ("Um Certo Incerto Alentejo")...

JOÃO VIRADO

João Virado saiu de casa, como todos os dias. João Virado estava sempre pronto para sair. A maior parte das vezes não sabia para onde. Quase sempre dava uma volta e voltava ao ponto de partida, que é a remate natural de qualquer volta, seja grande ou pequena. Naquele dia, porém, tinha visto um anúncio na televisão em que ofereciam qualquer coisa para quem fosse capaz de fazer não se lembrava o quê. Aquele anúncio interessou-lhe. Então recordou-se de que tinha saído para perguntar no café se alguém o tinha visto. João Virado era um pouco virado da cabeça, daí a alcunha, que Virado não era nome de família. Nome de família era Corneta, por causa de um avô que tinha sido corneteiro em Infantaria 3. No caso do João, porém, apelido muito apropriado pelo que João Corneta era também chamado, muitas vezes, por João Virado da Corneta. 

João Virado não sabia fazer nada e, só por essa razão, não fazia nada. Às vezes apetecia-lhe fazer qualquer coisa, mas como não sabia o que fazer, rapidamente se esquecia desse anelo indefinido, felizmente apenas episodicamente aflorado. Naquele dia, porém, demorou um pouco mais a esquecer-se do anúncio. Quando entrou no Café, não estava ninguém. “Querem ver que a malta toda resolveu responder ao anúncio!?”, pensou João Virado, ligeiramente azoado. “Já me lixaram o emprego!”, concluiu. Chamou para dentro, apareceu-lhe a Ernestina. Vinha de olhos revirados, a palitar os dentes. “Qué da malta?”, perguntou. “Nã sei, nã tava aqui”. Ernestina era empregada do Café, mas era um pouco mais lerda do que o João Virado. “Vou dar uma volta”, disse e saiu. Ainda não tinha dado dois passos, lembrou-se do anúncio e voltou atrás.

A Ernestina, que ainda estava encostada ao balcão, a palitar os dentes, admirou-se. “Tã depressa!”, disse, sem tirar o palito da boca. A televisão estava acesa. Na pantalha, dois tipos de casaco e sapatilhas nos pés, virados um para o outro, discutiam futebol. “Agora também discutem bola de manhã!?” perguntou-se o João Virado, que não era muito virado para os desportos coletivos, em especial do futebol. Gostava mais dos desportos individuais, como a pesca, que eram muito menos cansativos. Foi nesse instante que se lembrou de qualquer coisa do conteúdo do anúncio: “…nã faça nada….”, sim, “…nã faça nada…”. Tinha sido esta fração do slogan que lhe tinha despertado a atenção. Não fazer nada era com ele, para não fazer nada estava sempre pronto. Podia estar ali um bom emprego, pensou. “Vistes o anúncio de nã fazer nada?”, perguntou, apontando a televisão. “Nã fazer nada!?, espantou-se a Ernestina, que entrava às seis e saía às vinte e duas e nunca tinha tempo para nada. “Nã fazer nada, nã sei o que é.”

“Esta gaja é parva”, pensou João Virado, voltando-se e saindo. O sol da manhã estava apetitoso e a esplanada convidativa. Ajeitou o toldo e sentou-se com as pernas esticadas. Com a pressa, por causa do anúncio, não se tinha calçado. Olhou os pés por breves instantes. Encolheu os ombros e gritou para dentro: “Tina, traz-me uma cerveja sem copo”, e continuou a olhar os pés. “Com esta já são cinco que estás a dever”, disse-lhe Ernestina, antes de pousar a garrafa. “Descansa, que no sábado, o mê pai paga-te”.

Bebericou a cerveja, a pequenos golos. “Que paz, que descanso…”, pensou enquanto descansava o olhar na colina distante pintalgada de papoilas. “Nã há como o Alentejo para um homem viver descansado”, e os olhos relancearam, agora mais perto, abarcando o coreto, onde há anos ninguém tocava, a porta dos Correios, inativados, e a farmácia, encerrada desde a morte do Dr. Valdemar.

“E a volta, nã vais dar a volta?”, interrompeu Ernestina, que tinha vindo ajeitar as mesas. “Que volta, criatura!?”, perguntou, genuinamente admirado. “Tu é que dissestes quias dar uma volta”. “Pois se disse, ainda bem que já me esqueci”.

A meio da manhã começaram a aparecer os tipos do Leste, os ucranianos e os moldavos e, ainda mais tarde, os bangladeches e os filipinos. Só depois apareceu o Xico Moleiro, que estava desempregado para aí há vinte anos. “A apanhar sol!?”, perguntou, enquanto puxava uma cadeira. “Estou a descansar”, disse Virado, estendendo a punho que o Xico socou com um pequeno toque. “Com este calor, é o melhor que um homem pode fazer”, disse e sentou-se. “Também vou descalçar as botas”, acrescentou depois de olhar para os pés do João Virado.

“Essa malta nã faz nada?”, perguntou o Xico Moleiro, passados dez minutos, apontado os tipos do Leste. “Vivem do subsídio”, respondeu o João Virado, encolhendo os ombros. “Por isso é que há cinco anos não sou aumentado”, rosnou o Xico, raivo da concorrência. “Também o mê pai. E só a trabalhêra que dá arranjar os carimbos…”. “Nem me fales disso, João, que já tou a ficar cansado!”.

Quando na igreja badalou o meio-dia, João Virado deu por concluído o descanso. Estava na hora do almoço. Quando entrou em casa a mãe perguntou-lhe. “Foste dar uma volta, João?”. “Nã senhora, fui procurar emprego”, disse, lembrando-se vagamente do anúncio. “E encontrastes?”. “Nã senhora. Nã tive tempo. O Xico Molêro apareceu e ficámos na conversa. E o pai?”, perguntou, olhando em volta. “Está ainda a dormir”, respondeu a mãe. “Mas esse calacêro dum cabrão nã faz nada!?”, exaltou-se, pela primeira vez, João Virado, que nessa manhã já tinha ido ao Café e voltado. “E o Vinagre tava lá? O teu pai este mês ainda precisa dum carimbo.” Nã senhora, só estava a Ernestina”. “Bela rapariga, sim senhor, trabalhadêra e jêtosa, bem que podias arrimar-te a ela”, incitou a mãe, pensando no subsídio que mal dava para dois e tinha de chegar para três. “É jêtosa, mas nã é do mê jêto. Palita muito os dentes”. “Mas tu precisas duma rapariga. Olha que na tua idade o tê pai já era casado”. “Ó mãe, nã teme, que ê nã tou praí virado. Ainda pra mais, logo agora que tenho em vista um emprego”. “E tem futuro esse emprego?”, perguntou a mãe, enquanto deitava a comida da panela diretamente para a malga. Não respondeu, a mãe não ia compreender. Se tinha futuro!? Ali no Alentejo, tinha futuro e tinha presente. Além disso, ele queria lá saber do futuro. No futuro haveria de ter o subsídio.
Sentou-se à mesa e comeu o caldo de couves com toucinho. A rodela de chouriço comeu-a no pão e, antes de ir dormir a sesta, ainda murmurou entredentes: “Nã fazer nada, belo emprego. Amanhã, se nã tiver tanto calor, vou continuar a procurá-lo”.